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Destaques do mês

Comunicação não-violenta, capíutlo 9: conectando-se compassivamente com nós mesmos

2018/04/19 | Nenhum comentário | |






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Como parar de se odiar

“Que nós nos tornemos a mudança que buscamos no mundo”. Mahtma Gandhi

A CNV, como vimos, contribui para os nossos relacionamentos com família, amigos, no trabalho e na política. Porém, sua utilidade mais importante seja na maneira que tratamos a nós mesmos, no desenvolvimento da autocompaixão.

“Quando internamente somos violentos para com nós mesmos, é difícil ter uma compaixão verdadeira pelos os outros”.

Lembrando como somos especiais


“Quando conceitos críticos a respeito de nós mesmos impedem que vejamos a beleza que temos dentro de nós, perdemos a conexão com a energia divina que é nossa origem. Condicionados a nos vermos como objetos - e como objetos cheios de falhas -, será surpreendente que muitos de nós acabemos tendo uma relação violenta com nós mesmos”?

Essa relação violenta com nós mesmos fica evidente na hora de nos autoavaliarmos e é importante que consigamos encontrar compaixão nesses momentos.

Autocompaixão como praticar
Autocompaixão

Gostaríamos que todas as nossas atitudes fossem atitudes enriquecedoras da vida, mas esse nem sempre é o caso, então aprendemos a nos avaliar com ódio, ao invés de buscar o aprendizado. A CNV pode nos ajudar a olhar para os eventos e condições de maneira que nos ajudem a aprender e a fazer escolhas duradouras que sirvam ao nosso propósito.

Avaliando a nós mesmos quando fomos menos que perfeitos


Algumas frases típicas de quando fazemos algumas coisas que não gostaríamos de ter feito:

  • "Isso foi burrice!";
  • "Como pude fazer uma coisa tão idiota?"; "O que há de errado comigo?";
  • "Estou sempre pisando na bola";
  • "Isso foi tão egoísta!"


Aprendemos a nos julgar como se a nossa atitude fosse errada ou ruim e como se, por isso, merecêssemos sofrer pelo que fizemos.

“É trágico que tantos de nós fiquemos enredados no ódio por nós mesmos, em vez de nos beneficiarmos dos erros, que mostram nossas limitações e nos guiam em direção ao crescimento. Mesmo quando às vezes”

Podemos sim “aprender uma lição” a partir do autojulgamento severo, mas qual a energia do aprendizado e da mudança? Como fica nossa autoestima?

“Eu gostaria que a mudança fosse estimulada por um claro desejo de melhorar nossa vida e a dos outros em vez de por energias destrutivas como a vergonha ou a culpa”.

“Se o modo como nos avaliamos nos faz sentir vergonha, e, em consequência disso, mudamos nosso comportamento, estaremos permitindo que nosso crescimento e aprendizado sejam guiados pelo ódio por nós mesmos. A vergonha é uma forma de ódio por si próprio, e as atitudes tomadas em reação à vergonha não são livres e cheias de alegria. Mesmo que nossa intenção seja a de nos comportarmos com mais gentileza e sensibilidade, se as pessoas sentirem a vergonha ou a culpa por trás de nossas ações, será menos provável que elas apreciem o que fazemos do que se formos motivados puramente pelo desejo humano de contribuir para a vida”.

Para Marshall, existe uma palavra em especial com enorme pode infligir medo ou culpa: o verbo dever.

  • “Eu deveria ter feito aquilo”.
  • “Eu deveria saber”.


É um verbo que nos faz resistir ao aprendizado, uma vez que ele implica que não temos escolha. Deveria ter feito isso e pronto. O ser humano tende a resistir a qualquer tipo de exigência, porque a exigência ameaça a nossa autonomia. Temos a forte ncessidade de termos escolhes.

tudo é questão de escolha
tenho que é um verdadeiro fardo!

Uma outra expressão semelhante é o “tenho de”:
  • Eu realmente tenho de parar de fumar.
  • Eu tenho que fazer alguma coisa a respeito.

Nós não nascemos para ceder a tirania, mesmo que seja tirania interna. E quando a gente cede, o movimento vem de uma energia que carece de alegria de viver.

Traduzindo Julgamentos sobre si mesmo e exigências internas.


“Julgamentos de si mesmo, assim como todos os julgamentos, são expressões trágicas de nossas necessidades insatisfeitas”.

“Quando continuamente nos comunicamos com nós mesmos por meio de julgamentos, culpa e exigências internas, não surpreende que a auto-imagem corresponda ao sentimento de que somos ‘mais parecidos com uma cadeira do que com um ser humano’”.

Uma das premissas da CNV é entender que julgar alguém como errado ou agindo mal, na verdade significa que essa pessoa não está agindo em harmonia com as nossas necessidades. O mesmo vale para os julgamentos internos que fazemos a nós mesmos.

O desafio nesses momentos em que estamos fazendo algo pouco enriquecedor a nós mesmos, é conseguirmos uma autoavaliação que busque uma mudança:

  1. na direção em que gostaríamos de ir, e
  2. por respeito e compaixão para com nós mesmos, em vez de por ódio, culpa ou vergonha.


O luto na CNV 


Na CNV, o processo de luto ajuda-nos a entrar em conexão plena com as necessidades insatisfeitas e com os sentimentos gerados quando fomos menos que perfeitos. É uma experiência de arrependimento que nos ajuda a aprender com o que fizemos, sem nos odiarmos.

É muito difícil pensar o tempo todo só em termos de necessidades. Mas, da mesma forma que aprendemos a traduzir julgamentos, podemos reconhecer quando o diálogo interno é negativo e mudar o foco da atenção para as necessidades subjacentes.

“Quando a consciência se concentra naquilo que de fato precisamos, somos naturalmente impelidos a agir em direção a possibilidades mais criativas para que aquela necessidade seja atendida. Ao contrário dos julgamentos moralizadores de quando nos culpamos, que tendem a obscurecer tais possibilidades e a perpetuar um estado de autopunição”.

 Perdoando a nós mesmos


“Perdão a nós mesmos na CNV: conectar-nos com a necessidade que estávamos tentando atender quando tomamos a atitude da qual agora nos arrependemos”.

Estamos sempre a serviço de necessidades e valores. Isso é verdadeiro tanto se a ação atender à necessidade quanto se não atender a ela, fazendo-nos comemorar ou arrepender.

No arrependimento, podemos nos perguntar:

  • "Quando me comportei da maneira da qual agora me arrependo, qual de minhas necessidades eu buscava atender?"


O perdão a nós mesmos ocorre no momento em que a conexão empática acontece. Somos então capazes de reconhecer que nossa escolha foi uma tentativa de servir à vida, mesmo que o processo de luto tenha nos mostrado como ela falhou em atender a nossas necessidades.

a compaixão começa dentro de você
Um processo que pode ser aliviador.

“Um aspecto importante da autocompaixão: sermos capazes de ter empatia por ambas as partes de nós mesmos: a parte que se arrepende de uma ação passada e a parte que executou aquela ação”.

Não faça nada que não seja por prazer


“Queremos agir motivados pelo desejo de contribuir para a vida, e não por medo, vergonha ou culpa”.

Essa parece ser uma ideia realmente radical. Mas é essencial a autocompaixão. Quando temos consciência do propósito enriquecedor para a vida que está por trás de uma ação que fazemos, então até o trabalho duro contém um elemento de prazer.
Toda atividade que poderia ser prazerosa deixa de sê-lo se for executada por obrigação, medo, dever, culpa ou vergonha, e acabará gerando resistência.

Substituindo o “tenho de fazer” por “escolho fazer”


Marshall nos oferece um pequeno e poderoso exercício que nos ajuda a substituir o “tenho de” pelo “escolho fazer”.

Primeiro passo:


O que você faz em sua vida que você não sente ser prazeroso? Relacione num pedaço de papel todas as coisas que você diz a si mesmo que tem de fazer, qualquer atividade que você deteste mas faz assim mesmo, porque percebe que não tem escolha.

Segundo passo:


Depois de completar a lista, reconheça claramente para si mesmo que você está fazendo essas coisas porque escolheu fazê-las, não porque você tem de fazê-las. Coloque a palavra escolho na frente de cada item que você listou.

Terceiro passo:


Depois de ter reconhecido que você escolheu fazer uma atividade específica, entre em contato com a intenção por trás da escolha completando a frase: "Escolho ____ porque quero _____”.

Esse pode ser um passo difícil de identificar inicialmente. Mas uma vez que identificamos, podemos mudar a natureza da nossa energia de ação.

“A cada escolha que você fizer, esteja consciente de que necessidade ela atende”.

Cultivando a consciência da energia por trás de nossas ações.


Ao explorar o terceiro passo do exercício, podemos descobrir que existem alguns valores importantes pra nós por trás das escolhas que fazemos. Ganhamos clareza a respeito da necessidade que está sendo atendida. E aquilo pode se tornar prazeroso, mesmo que envolva trabalho duro, desafios e frustrações.

Contudo, na sua lista, você pode descobrir algumas motivações como:

Por dinheiro:


Uma recompensa cultural extrínseca, o dinheiro não é uma necessidade, tal como definimos em CNV. Mas um dos inúmeros meios que se tem para atender uma necessidade humana.

As escolhas motivadas por um desejo de recompensa acabam custando caro: elas nos privam da alegria de viver que vem das ações que são baseadas na clara intenção de contribuir para uma necessidade humana.

Por aprovação:


Assim como o dinheiro, a aprovação também é uma espécie de recompensa extrínseca.

Nossa cultura nos treina a ter fome de recompensas. São atributos utilizados para nos motivar desde a escola.

Trabalhamos duro para comprar amor e saciar nosso ego. Ser o “bom aluno”, o “bom funcionário”, o “bom filho”, a “boa mãe”, a “boa chefe”... Conquistar as recompensas e troféus e evitar a punição que cabe aos maus. Sempre dependentes do feedback externo.

O reconhecimento de que escolhemos usar nossa capacidade para servir à vida e que fizemos isso com sucesso nos traz a verdadeira alegria de celebrar a nós mesmos de uma maneira que a aprovação dos outros nunca poderá nos oferecer.

Para evitar uma punição:


“Alguns de nós pagam imposto de renda para evitar a punição. Como consequência, é provável que nos aproximemos disso com certo grau de ressentimento. Eu me lembro, porém, de como em minha infância meu pai e meu avô pensavam de modo diferente. Eles haviam emigrado da Rússia para os Estados Unidos e tinham vontade de apoiar um governo que eles acreditavam. Imaginando as muitas pessoas cujo bem-estar estava sendo garantido pelo dinheiro de seus impostos, eles sentiam um sincero prazer ao mandarem seus cheques para o governo americano”.

Um exemplo de difícil aplicabilidade no Brasil atual, no entanto, suficientemente ilustrativo.

Para evitar a vergonha:


Existem tarefas que escolhemos fazer simplesmente para evitar a vergonha. Sabemos que, se não as fizermos, acabaremos sofrendo um severo julgamento sobre nós mesmos. Essa motivação, geralmente, faz com que detestemos aquilo.

 Para evitar culpa:


Às vezes agimos por medo de não satisfazer a expectativa do outro e isso é extremamente desgastante.
Há um mundo de diferença entre fazer alguma coisa pelos outros para evitar a culpa e fazê-la por causa de uma clara consciência de nossa própria necessidade de contribuir para a felicidade de outros seres humanos. A primeira alternativa representa um mundo cheio de infelicidade; a segunda, um mundo cheio de prazer.

Por dever:


Segundo Marshall, uma linguagem que nega a possibilidade de escolha, é uma linguagem perigosa. E isso faz todo o sentido. Foi esse tipo de linguagem burocrática que permitiu obediência cega e passividade por parte dos solados e agentes diante do cruel e desumano holocausto nazista, por exemplo.

Há sempre uma opção. E pode parecer radical, mas é possível fazer as coisas somente por prazer. Acredito que à medida que nos engajamos de momento a momento no prazer de enriquecer a vida - motivados somente pelo desejo de enriquecê-la - nos compadecemos de nós mesmos.

Esteja consciente das ações motivadas pelo desejo por dinheiro ou pela aprovação dos outros, ou pelo medo, vergonha ou culpa. Saiba o preço que você paga por elas.

Até o próximo capítulo!





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Relacionamentos abusivos: o que é, como acontece e como você pode se ajudar ou ajudar alguém.

2018/03/08 | Nenhum comentário | |


Relacionamentos abusivos


Você está sofrendo violência em seu relacionamento?
Conhece alguém que está e gostaria de ajudar?

Essa é uma questão de saúde pública delicada, importante e que afetas muitas mulheres no nosso país.

Pollyanna Abreu, psicóloga especializada em Terapia Comportamental (análise do comportamento), veio ao O Espaçoo pra falar um pouquinho pra gente sobre relacionamentos abusivos. Um tema de saúde pública delicado, importante e que afeta muitas mulheres.

A Polly se dedica e desenvolve muitos trabalhos sobre o tema. Ela está aqui no grupo com a gente e também atende em Belo Horizonte.

E-mail: pollyannaabr@gmail.com
Cel.: 31 99283-8113

Ela nos traz muita informação interessante. Informação que pode ajudar a salvar e libertar alguém que precisa. Por isso gostaria de te pedir para compartilhar com o máximo de pessoas que conseguir, ok?

Segundo relatório da ONU, 1 em cada 3 mulheres no mundo vai sofrer violência algum momento de sua vida.  Alguém próximo pode estar precisando receber este material.

Informação é liberdade.



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Perguntaram ao Marshall Rosenberg o que é o amor. E a resposta...

2018/02/27 | Nenhum comentário | |


Marshall Rosenberg em o que é o amor



Tradução do francês por Maristela Lima


- O que é o amor?


Comunicação Não-Violenta desenvolveu-se precisamente para responder a esta questão. O que é o amor? Como nós podemos viver o amor? Minha visão das coisas é que nós demonstramos reciprocamente amor quando nos conectamos uns aos outros com empatia, quando mostramos ao outro o que nos emociona, quando nos asseguramos que a conexão estabelecida com o outro é fundada apenas e unicamente na necessidade de dar e receber compaixão. 

A maioria de nós define o amor de uma maneira totalmente diferente; nós pensamos que amor é um sentimento. Se olharmos com atenção exatamente o que acontece quando você pergunta ao seu parceiro amoroso: “Você me ama?”, constatamos que estamos, na verdade, fazendo outra pergunta: “Você tem sentimentos de carinho por mim? Seu coração bate por mim?”. E os sentimentos não têm nada de estático, eles podem evoluir de um momento a outro. É por isso que a resposta mais honesta à questão “Você me ama?”, é uma outra questão:

“Você quer saber o que eu sinto agora, neste momento? Ou você quer que eu faça extrapolações para avaliar quantos minutos eu vou pensar em você em termos de carinho e ternura ao longo dos próximos meses?”
.

Claro, uma reação assim corre um grande risco de provocar sentimentos de irritação ou raiva em seu parceiro, que gostaria de ter clareza: “E então? Você tem ou não estes sentimentos por mim?”. Na realidade, é impossível reagir a esta pergunta com uma resposta universalmente válida. A única resposta honesta está ligada a certo contexto e a um momento específico.

Vários casais se violentam falando de amor sem saber exatamente o que eles entendem por “amor”.(…) Muitas pessoas precisam atravessar cinco relações infelizes antes de compreender que nunca sua necessidade de amor será preenchida se elas buscam um/a parceiro/a que satisfaça todos os seus desejos antes de elas mesmas saberem o que querem. E aí, nós tocamos apenas em uma das numerosas estratégias destrutivas que nossa cultura nos ensinou para abordar o amor, a intimidade e a sexualidade.(…)


E como eu posso me dirigir ao ser amado dizendo “Eu te amo”, sem temer os efeitos colaterais que minha pergunta poderia provocar?


Eu me lembro da primeira vez em que me perguntei isso: mas como então posso dizer “eu te amo”? Estava sentado em minha mesa de trabalho e redigia um texto que eu deveria apresentar em breve sobre o tema. Eu fui à cozinha pegar algo para beber e encontrei minha filha pintando sobre a mesa. Senti vontade de me debruçar sobre ela, como tinha o hábito de fazer, e de lhe dar um beijo dizendo “eu te amo”. Mas eu parei e ouvi uma vozinha em mim: “Se você pensa realmente que ama sua filha, tente formular seus sentimentos de maneira que ela possa realmente ouvi-los. O que você gostaria de celebrar? O que minha filha remexe no fundo de mim tão fortemente? Ela está apenas lá, na mesa da cozinha, pintando”. E eu me lancei: 

– Marla, quando eu vejo você sentada aí, pintando, eu…

E eu procurava os sentimentos que me habitavam. Seria tão simples dizer “eu te amo” porque isso evitaria me colocar em conexão comigo mesmo. Agora, seria preciso aprofundar meus sentimentos. E foi o que fiz. Quando tive clareza de meus sentimentos e necessidades, senti uma imensa felicidade, muito mais forte do que antes. Então, eu lhe disse:

– Quando eu vejo você sentada aí, pintando, eu sinto uma intensa alegria de viver na companhia de um ser tão maravilhoso: isso preenche tão bem esta intensa necessidade de conexão que me habita.

Eu pude ver então, no fundo de seus olhos, que minhas palavras lhe trouxeram muito mais prazer que se eu tivesse lançado um “eu te amo” qualquer. Isto feito, eu também desvendei muito mais coisas de meu mundo interior. Eu só posso recomendar ardentemente que você também faça esta experiência. Comporte-se das duas maneiras e pergunte às pessoas de seu convívio o que elas pensam das duas atitudes, e qual elas preferem. 

Mas eu preciso também lhe prevenir para as consequências desta mudança. Se uma pessoa tomou gosto pela expressão detalhada de sentimentos, você pode guardar os seus “eu te amo”; eles não significam mais nada. Quando eu falo à minha companheira “eu te amo”, ela me atira: “Ah, não, eu quero a versão integral!”.


A bela imagem de um casal unido para a vida toda tem sentido para você?






Para mim, se duas pessoas têm trocas regulares e honestas sobre sua maneira de ver as coisas e suas intenções, elas têm muito mais chances de ver sua relação durar a vida toda do que se elas não o fazem. É bom que dois seres conversem periodicamente sobre suas necessidades e sobre as estratégias que eles usam individualmente ou em comum para satisfazê-las. Se eles estão atentos a tudo que poderia bloquear seu desejo de proximidade e sua aspiração a manter uma conexão acolhedora entre eles, a base de sua relação torna-se tão sólida e gostosa de viver que cada um deles decidirá, livremente, dia após dia, continuar.

 
Se o amor não é um sentimento, o que é então o amor? É uma necessidade?


Quando eu falo de “amor”, eu entendo duas coisas distintas. Primeiramente, utilizo a palavra amor como expressão de uma atitude espiritual. Quando eu me reconecto a esta dimensão espiritual, o amor diz respeito ao conjunto da humanidade, a todos os seres vivos sobre esta Terra, às árvores, ao mar, ao ar, à energia divina. 

O prazer de estar ao serviço da vida é a fonte de uma de nossas necessidades mais fundamentais. Regar uma planta e se alegrar de vê-la crescer… eis como eu concebo o amor. Esta dimensão espiritual do amor se aplica também aos seres humanos. Eu posso amar uma pessoa com este amor, mesmo se ela não me é particularmente simpática ou mesmo se eu não gosto dela. E, apesar de tudo, eu posso contribuir para que tudo vá bem para ela. Nossa mais bela maneira de cuidar de nós mesmos é de dar aos que estão a nossa volta apreciações profundas. 

Do contrário, cada vez que nós chamamos alguém de imbecil, nós pagamos um preço muito alto, pois isto é como dizer que nós vivemos num mundo repleto de imbecis. Se eu me decido a ver prioritariamente a beleza de cada um, é a mim mesmo que eu trato com amor. Esta mensagem não é minha: todas as religiões a trouxeram, cada uma a sua maneira: “Não julgue para que não seja julgado… Ame ao seu próximo como a si mesmo…”. Eu tenho a escolha de servir a vida me apoiando nesta atitude interior. Cada um dos meus gestos parte de meu único prazer de entrar em contato com todos os seres vivos, e não de uma obrigação qualquer, um sentimento de culpa, ou porque está escrito na bíblia. Fazendo isto, eu contemplo uma de minhas necessidades mais importantes: de sentido. Eis minha primeira definição de amor.

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Comunicação não-violenta, capítulo 8: o poder da empatia

2018/02/16 | Nenhum comentário | |




O poder da empatia em curar e conectar


“A empatia nos permite ‘perceber’ nosso mundo de uma maneira nova e ir em frente”. Carl Rogers

Nesse capítulo, aprendemos como buscar empatia pode nos ajudar nas mais diversas e inusitadas situações.


Empatia que cura


Marshall conta que uma de suas amigas, Laurence, descreveu como ficou aborrecida quando o filho de 6 anos saiu correndo enraivecido enquanto ela ainda falava com ele. Isabelle, sua filha de 10 anos, que a havia acompanhado a um seminário recente de CNV, observou: "Então você está com muita raiva, mamãe. Você gostaria que ele conversasse quando está com raiva, e não que fosse embora correndo". Laurence ficou maravilhada de como, ao ouvir as palavras de Isabelle, ela sentiu uma imediata diminuição da tensão e, mais tarde, conseguiu ser mais compreensiva com o filho, quando ele voltou.

“Um dos aspectos mais gratificantes de meu trabalho é ouvir como as pessoas usaram a CNV para fortalecer sua capacidade de se conectar com empatia aos outros”.

No entanto, ele ressalta que, quando estamos inseridos em uma estrutura hierarquizada, como acontece em alguns ambientes de trabalho, por exemplo, há uma tendência a ouvir ordens e julgamentos daqueles que estão em posições superiores. E, por isso, é preciso um esforço maior para ter empatia para com essas pessoas e não receber tudo no pessoal.


Empatia e a capacidade de ser vulnerável


A CNV realmente pode ser desafiadora pra muitos de nós. Ela nos pede o expressar de nossos sentimentos e necessidades em momentos que, por vezes, são delicados. Situações que, por exemplo, temos medo de perder o controle ou a autoridade e tentamos passar uma imagem rígida.

Contudo, essa tarefa pode se tornar menos pesada, quando nos conectamos em empatia com o outro. Nesse momento, percebemos sua humanidade e estamos em contato com qualidades que temos em comum.

Quanto maior a empatia que temos com a outra pessoa, mais seguros nos sentimos para partilharmos.

Quando a pessoa tem em seu histórico situações em que ouviu sentimentos como “isso me magoou” apenas para sinalizar desaprovação, pode ser que, num primeiro momento, ela relute em aceitar a nossa vulnerabilidade, por receio de isso ser usado com o intuito de desaprová-la.

Nesse momento, podemos receber essa desconfiança como a necessidade que ela representa e nos aproximar empaticamente.

“Nós ‘dizemos muita coisa’ ao escutarmos os sentimentos e necessidades das outras pessoas”.



Usando a empatia para afastar o perigo


A capacidade de oferecer empatia a pessoas em situações tensas pode afastar o risco potencial de violência.

Aqui, temos o exemplo de uma professora num decadente centro urbano que escolheu deliberadamente ficar depois da aula para ajudar um aluno, embora os outros professores a tivessem alertado do perigo de ficar até tarde no edifício. Quando um estranho entrou em sua sala e o seguinte diálogo se seguiu:

usando a empatia para afastar o perigo


Ela entregou a bolsa aliviada. Mais tarde descreveu como, a cada vez que oferecia empatia ao rapaz, ela podia senti-lo menos determinado a prosseguir com o estupro.

Aqui também, Rosenberg conta que, em um centro de recuperação química, uma de suas alunas foi agredida por um usuário que estava sob efeito de drogas que a derrubou no chão exigindo um quarto.

Ela, então, segurou o impulso de dizer: “mas não temos nenhum quarto”. E, em vez disso, usou o que aprendeu no seminário de CNV:

“Parece que você está realmente com raiva e quer ter um quarto”.

Ele respondeu gritando: “Posso ser viciado, mas, por Deus, mereço respeito! Estou cansado de ninguém me respeitar. Meus pais não me respeitam. Eu vou ser respeitado!”

Ela concentrou-se em seus pensamentos e necessidades e disse: Você está farto de não obter o respeito que deseja?”

A conversa se seguiu por mais 35 minutos, nos quais, a mulher não via mais o agressor como monstro, mas como um ser humano cuja linguagem e comportamento às vezes escondem sua natureza humana. Ela conseguiu o guiar a outro centro, o qual havia quartos disponíveis.

Ofereça sua empatia, em vez de falar “mas ...” para uma pessoa com raiva.

O curioso é que a mulher depois voltou aos seminários para tentar incorporar CNV junto à sua família. Marshall chama este de um caso poderoso para ilustrar o quanto pode ser difícil responder com empatia aos membros da nossa própria família!


Empatia ao ouvir um “Não!” de alguém


Buscar empatia diante do não de alguém nos protege de toma-lo como pessoal.

Existe uma tendência de entender como rejeição quando alguém nos diz não. Se isso acontecer, é provável que nos sintamos magoados e sem entender realmente o que se passa com a outra pessoa.

Mais uma vez, vale lembrar, a CNV nos tira da alienação que a nossa linguagem nos coloca. Entender que o não do outro carrega um sim para seus próprios sentimentos e necessidades, faz com que tenhamos clareza do que ele está precisando quando nos diz “não”.

Como ousa a me dizer não?!



Empatia para reanimar uma conversa morna



Você com certeza já esteve também em uma conversa daquelas meio mornas. Acontece quando estamos ouvindo palavras sem sentir nenhuma conexão com quem fala ou quando alguém começa a falar sem parar e sem dar chance aos outros de participar da conversa.

“A vitalidade se esvai da conversa quando perdemos a conexão com os sentimentos e necessidades que ocasionaram as palavras de quem fala, e com as solicitações associadas a essas necessidades. Isso é comum quando as pessoas conversam sem ter consciência do que estão sentindo, necessitando ou pedindo. Em vez de nos envolvermos numa troca de energia vital com outros seres humanos, percebemos que nos tornamos cestas de lixo para suas palavras”.

E qual seria o momento certo para interromper uma conversa e trazê-la de volta a vida? O mais rápido o possível.

Quanto mais esperarmos em uma conversa sem vida, mais difícil fica de sermos educados na intervenção.

Mas é importante que saibamos claramente qual é a nossa intenção nesse momento. Não se trata de querer dominar a conversa, mas sim de ajudar quem fala a se conectar a energia vital por trás das palavras que estão sendo ditas.

“Assim, se uma tia está repetindo a história de como vinte anos atrás o marido a abandonou com dois filhos pequenos, podemos interromper dizendo: ‘Então, tia, parece que a senhora ainda está magoada e gostaria de ter sido tratada de modo mais justo’.”

As pessoas não têm consciência de que frequentemente é de empatia que elas precisam. Elas também não percebem que a maneira que é mais provável se receber empatia quando se expressa sentimentos e necessidades, em vez de remoer histórias antigas de suas dificuldades no passado.

Outra maneira de reanimar uma conversa é expressar abertamente o desejo de nos conectar mais profundamente com a outra pessoa.

Parece estranho e inadequado interromper alguém. Mas é mais respeitoso que elas saibam o que estamos sentindo do que fingir um falso interesse, além de também ser um sinal de consideração. A gente prefere palavras que enriquecem a vida do outro e não que sejam um fardo pra eles, não é verdade?

Além do mais, se a conversa que ouvimos nos é tediosa, a chance de ela estar sendo tediosa para quem fala é muito grande. Um teatro social desgastante que não precisa acontecer.


Empatia pelo silêncio


Ter empatia pelo silêncio escutando os sentimentos e necessidades por trás dele.

O silêncio diz muita coisa e a gente pode e deve tentar entender qual a necessidade por trás de quem o faz. Concentrando no que se passa dentro dela. Ao nos concentrarmos nos possíveis julgamentos por trás daquele silêncio, podemos criar monstros horríveis dentro de nós, nos alienando para a realidade que ali está posta.

Certa vez, Marshall recebeu em seu consultório uma paciente de 20 anos que estava há três meses muda, depois de passar por tratamentos psiquiátricos com remédios fortes e choques. Nos dois primeiros encontros, ele tentou fazer observações empáticas, intercalando as com a expressão de seus próprios sentimentos e preocupações. Mas não conseguia nenhuma resposta.

No terceiro dia, ele fez o mesmo, porém dando a mão para a menina. Sentiu uma leve reação. Já no quarto dia, ela o trouxe um bilhete escrito:

"Por favor, ajude-me a dizer o que tenho por dentro".

A partir daí, as coisas começaram a caminhar vagarosamente. Depois de um ano ela enviou uma cópia do seu diário com os dizeres:



Impressionante depoimento. Impressionante também o poder curativo da empatia, você também não acha?

Até o próximo capítulo!




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