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Comunicação não-violenta, Capítulo 6: pedindo aquilo que enriquecerá nossa vida

2017/12/12 | Nenhum comentário | |


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Quando as pessoas confiam que o nosso compromisso maior é com a qualidade do relacionamento e que nossa expectativa é usar o processo para atender a necessidade de todos, então elas podem confiar que fazemos verdadeiros pedidos, e não exigências camufladas

Fazer um pedido – não uma exigência – de maneira clara e específica é o último dos quatros componentes da CNV. Nesse capítulo estudaremos como podemos expressar nossos pedidos de modo que os outros estejam mais dispostos a responder compassivamente a nossas necessidades.

Usando uma linguagem de ações positivas.


Em primeiro lugar, é preciso que saibamos expressar o que de fato estamos pedindo e não o que não estamos pedindo.

Ruth Bebermeyer levanta a questão em uma de sua canções:
Como é que você faz um “não faça”? Tudo que sei é que sinto “Não vou”.
Quando a gente pede um “não fazer”, as pessoas ficam confusas quanto ao que realmente está sendo pedido. Além disso, a solicitação negativa pode provocar resistência em seu ouvinte.

“Num seminário, uma mulher, frustrada porque o marido estava passando tempo demais no trabalho, descreveu como seu pedido tinha se voltado contra ela: ‘Pedi que ele não passasse tanto tempo no trabalho. Três semanas depois, ele reagiu anunciando que havia se inscrito num torneio de golfe!’. Ela havia comunicado a ele com sucesso o que ela não queria – que ele passasse tanto tempo no trabalho -, mas tinha deixado de pedir o que ela realmente queria. Solicitada a reformular seu pedido, ela pensou por um minuto e disse: ‘Eu queria ter-lhe dito que desejava que ele passasse pelo menos uma noite por semana em casa com as crianças e comigo’.”

Além de utilizarmos uma linguagem positiva, devemos evitar frases vagas, abstratas ou ambíguas e formular nossas solicitações na forma de ações concretas que os outros possam realizar.


Lassie, vá buscar ajuda!
Lassie! Vá buscar ajuda!!
No quadrinho acima, a cadela interpretou o vá pedir ajuda como procurar psicanálise, mas é provável que o homem se afogando estivesse se referindo a outro tipo de ajuda.

Marshall ilustra:

Um pai e o filho de 15 anos vieram se aconselhar comigo. "Tudo o que quero é que você comece a demonstrar um pouco de responsabilidade", alegou o pai. "É pedir demais?" Sugeri que especificasse o que o filho precisaria fazer para demonstrar a responsabilidade que ele queria. Depois de uma discussão sobre como tornar mais clara sua solicitação, o pai respondeu envergonhado: "Bem, isso não soa muito bem, mas quando digo que quero responsabilidade, o que quero mesmo dizer é que desejo que ele faça o que eu digo sem questionar – que pule quando eu disser para pular, e que faça isso sorrindo". Ele então concordou comigo que, se o filho se comportasse daquela maneira, estaria demonstrando obediência, e não responsabilidade.

Assim como esse pai, muitas vezes usamos uma linguagem vaga e abstrata para indicar como queremos que as outras pessoas se sintam ou sejam, sem especificar uma ação concreta que os outros possam fazer para alcançar aquele estado. Nesse sentido, a linguagem vaga e abstrata pode mascarar um jogo interpessoal de opressão.

Fazendo pedidos conscientemente.


Às vezes a gente expressa um desconforto e espera erroneamente que o ouvinte compreenda o pedido que está embutido. Por exemplo, uma mulher poderia dizer ao marido: "Estou aborrecida porque você se esqueceu de comprar a cebola que pedi para o jantar”. Embora pareça óbvio para ela um pedido para voltar à loja, o marido pode pensar suas palavras foram ditas apenas para que ele se sentisse culpado.

Igualmente problemática é a situação oposta: quando as pessoas fazem seus pedidos sem primeiro comunicar os sentimentos e necessidades por trás deles.

Isso é especialmente verdadeiro quando o pedido assume a forma de uma pergunta: "Por que você não vai cortar o cabelo?"

Essa pergunta pode facilmente ser entendida pelos jovens como uma exigência ou um ataque, a menos que os pais se lembrem de primeiro revelar seus próprios sentimentos e necessidades: "Estamos preocupados, porque seu cabelo está ficando tão comprido que pode impedir você de ver as coisas, especialmente quando está em sua bicicleta. Que tal cortá-lo?"
Quanto mais claros formos a respeito do que queremos obter, mais provável será que o consigamos.
Entretanto, é mais comum que as pessoas conversem sem estar conscientes do que estão pedindo. As pessoas podem dizer que não estão pedindo nada, no entanto, Marshall nos diz que sempre que dizemos algo a alguém, estamos pedindo algo em troca.

Pode ser simplesmente uma conexão de empatia - um reconhecimento verbal ou não-verbal de que nossas palavras foram compreendidas. Ou podemos estar pedindo honestidade: saber qual é a reação honesta do ouvinte a nossas palavras. Ou ainda podemos estar pedindo uma ação que satisfaça a nossas necessidades. Quanto mais claros formos a respeito do que queremos da outra pessoa, mais provável será que nossas necessidades sejam atendidas.


Pedindo um retorno.


A mensagem que enviamos nem sempre é a mensagem que é recebida.
Geralmente dependemos de pistas verbais para determinar se nossa mensagem foi compreendida da maneira que queríamos. Mas, se não temos certeza de que foi recebida como pretendíamos, podemos solicitar claramente uma resposta que nos diga como a mensagem foi ouvida, a fim de evitar qualquer mal-entendido.

Em algumas ocasiões, apenas um “está claro?” é suficiente. Em outras, precisamos do que um “Sim, entendi” para estarmos seguros de que a mensagem foi recebida. Aqui, podemos pedir ao outro que repetia com suas palavras o que acabara de ouvir. Temos então uma oportunidade de reformular partes de nossa mensagem de modo que resolva qualquer discrepância que possamos ter notado no retorno que recebemos.

Pode ser que, num primeiro momento, isso soe estranho. Pode ser que o outro interprete como uma afronta a sua capacidade auditiva ou interpretativa. Quando isso acontecer, podemos nos utilizar da CNV mais uma vez para mostrar o quanto é importante é para nós ter a confiança de que conseguimos emitir realmente a sutileza da mensagem.

Pedindo honestidade.


Quando nos expressamos abertamente e vulnerável, e recebemos a compreensão que desejávamos, é comum que fiquemos ansiosos para saber qual a reação da outra pessoa ao que dissemos. Geralmente, esperamos a honestidade em algum desses três caminhos:

Queremos saber qual sentimento foi estimulado pelo que foi dito. O que poderia ser perguntando: “Gostaria que você me dissesse como se sente a respeito do que acabei de falar e suas razões para sentir-se assim”

Queremos saber qual a opinião do interlocutor em relação ao que foi dito. Nesse caso é importante especificar o lugar dessa opinião: "Gostaria que você me dissesse se prevê que minha proposta terá sucesso e, caso contrário, o que você acha que pode impedir seu sucesso", em vez de simplesmente:

"Gostaria de saber o que acha”.

Queremos saber se o ouvinte está disposto a tomar determinada atitude.

O que poderia ser feito da seguinte maneira: “Gostaria de saber se você está disposto a adiar a reunião desta semana”.

Fazendo pedido a um grupo.


Reunir-se em um grupo de discussão nem sempre é fácil. Se o objetivo e a motivação das nossas intervenções não estiver claro, a reunião pode facilmente se perder e criar um sentimento geral de que estar ali é uma grande perda de tempo.

Ao contar uma história ao grupo, por exemplo, é comum de os outros presentes também compartilharem vivências semelhantes e a reunião se estender sem chegar a lugar algum. Basta algumas interações improdutivas para que horas de grupo se arrastem indefinidamente e não satisfaçam a necessidade de nenhum presente. Frustração geral e muito comum.

A consciência do Bas.


Na Índia, quando as pessoas recebem a resposta que desejavam em conversas que elas mesmas iniciaram, elas dizem: "Bas!" Isso significa: "Você não precisa dizer mais nada. Estou satisfeito e já estou pronto para passar a outro assunto". Embora não tenhamos uma palavra como essa em nosso idioma, ainda podemos nos beneficiar de desenvolver e promover a "consciência do bas" em todas as nossas interações.


Pedido versus Exigência


Qual a melhor maneira de identificarmos se estamos fazendo um pedido ou uma exigência? Se aceitamos receber um “não” entendendo que isso é um “sim” para alguma outra necessidade do outro, então estamos fazendo um pedido. Se não aceitamos que ele diga não, então trata-se de uma exigência.


Como ousa me dizer não! Exigências!
Como ousa me dizer não?? Exigências e suas justificações.

Pedidos são interpretados como exigências, quando os outros acreditam que serão culpados ou punidos se não atenderem. Quando as pessoas ouvem uma exigência, elas enxergam duas opções: submissão ou rebelião.
Nos dois casos, quem fez o pedido é visto como coercitivo e a chance de se receber um retorno compassivo é reduzido fortemente.
“Quanto mais tivermos culpado, punido ou acusado os outros quando não atenderam a nossas solicitações no passado, maior será a probabilidade de que nossos pedidos sejam agora entendidos como exigências”.
Se José diz a Maria: “Estou me sentindo solitário, gostaria que você saísse comigo essa noite”.

Isso seria pedido ou exigência?

"José, estou muito cansada. Se você quer ter companhia, que tal encontrar outra pessoa para sair com você esta noite?" Se José disser: "É tão típico de você ser assim egoísta!", então isso é uma exigência.

Quanto mais interpretarmos como rejeição o não-atendimento de nossas solicitações, mais provável será que nossos pedidos sejam entendidos como exigências.

Pessoas que têm uma trajetória na qual recebem exigências a todo momento, tendem a ver os nossos pedidos da mesma forma. Também acontece quando ocupamos alguma posição de autoridade. A maneira mais poderosa de comunicar que o que estamos fazendo é um pedido genuíno é oferecer nossa empatia quando as pessoas não atendem a nossa solicitação:

“Se estivermos preparados para demonstrar uma compreensão empática do que impede que a pessoa faça o que pedimos, então, por minha definição, fizemos um pedido, e não uma exigência”.

Definindo nosso objetivo ao fazer pedidos.


A CNV não é uma ferramenta para mudar as pessoas e obter o que queremos.

O processo foi desenvolvido para aqueles que querem que os outros mudem e nos atendam, mas somente se escolherem fazer isso de livre vontade e compaixão.
O objetivo da CNV é estabelecer um relacionamento baseado na sinceridade e na empatia.
“Quando os outros confiam que nosso compromisso maior é com a qualidade do relacionamento, e que esperamos que esse processo satisfaça às necessidades de todos, então elas podem confiar que nossas solicitações são verdadeiramente pedidos, e não exigências camufladas”.

É mais difícil manter isso em mente quando ocupamos posições de autoridade, como pais, professores e chefes, e acreditamos precisar influenciar pessoas para obter resultados comportamentais.

Também é preciso ficar atento aos pensamentos que fazem nosso pedido automaticamente se tornar uma exigência:
  •       Ele deveria se arrumar sozinho.
  •       Espera-se que ela faça o que eu peço.
  •       Eu mereço um aumento.
  •       Tenho motivos para querer que eles fiquem até mais tarde.
  •       Tenho o direito de ter mais tempo de folga.
Quando formulamos nossas necessidades dessa maneira estamos fadados a julgar os outros quando eles não fazem o que pedimos.

Exercício


Será que concordamos com Marshall?

Para verificar se concordamos a respeito da clara expressão dos pedidos, circule o número em frente de qualquer uma das frases a seguir em que a pessoa esteja claramente solicitando que alguma ação especifica seja feita.

  1.  Quero que você me compreenda.
  2. Gostaria que você me dissesse uma coisa que eu fiz de que você gostou.
  3. Gostaria que você sentisse mais confiança em si mesmo.
  4. Quero que você pare de beber.
  5. Gostaria que você me deixasse ser eu mesma.
  6. Gostaria que você fosse honesto comigo a respeito da reunião de ontem.
  7. Gostaria que você dirigisse dentro do limite de velocidade.
  8. Gostaria de conhecer melhor você.
  9. Gostaria que você demonstrasse respeito por minha privacidade.
  10. Gostaria que você preparasse o jantar mais vezes.



Respostas:


1. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, a palavra compreenda não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. Em vez disso, a pessoa poderia ter dito: "Quero que você repita para mim o que você me ouviu dizer".

2. Se você circulou esse número, concordamos em que a frase expressa claramente o que a pessoa está pedindo.

3. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, a expressão "sentir mais confiança" não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você fizesse um treinamento em pensamento afirmativo, que acredito que aumentaria sua autoconfiança”.

4. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, a expressão "parar de beber" não expressa claramente o que a pessoa quer, e, sim, o que ela não quer. Ela poderia ter dito: "Quero que você me diga quais de suas necessidades a bebida satisfaz e que conversemos sobre outras maneiras de satisfazer essas necessidades”.

5. Se você fez um círculo em volta desse número, não concordamos. Para mim, a expressão "me deixar ser eu mesma" não expressa claramente uma ação especifica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Quero que você me diga que não vai abandonar nosso relacionamento, mesmo que eu faça algumas coisas de que você não goste".

6. Se você fez um círculo ao redor desse número, discordamos. Para mim, a expressão "ser honesto comigo" não expressa claramente uma ação especifica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Quero que você me diga como se sente a respeito do que eu fiz e o que gostaria que eu tivesse feito de modo diferente".

7. Se você fez um círculo em volta desse número, concordamos que a frase expressa claramente o que a pessoa está pedindo.

8. Se você fez um círculo ao redor desse número, não concordamos. Para mim, essa frase não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você me dissesse se estaria disposto a se encontrar comigo para almoçar uma vez por semana".

9. Se você fez um círculo ao redor desse número, discordamos. Para mim, a expressão "demonstrar respeito por minha privacidade" não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você concordasse em bater na porta antes de entrar em meu escritório”

10. Se você fez um círculo ao redor desse número, não estamos de acordo. Para mim, a expressão "mais vezes" não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você preparasse o jantar toda segunda-feira à noite”.

Até o próximo capítulo!




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Comunicação não-violenta, Capítulo 5: assumindo a responsabilidade por nossos sentimentos

2017/12/05 | Nenhum comentário | |




 “As pessoas não são perturbadas pelas coisas, mas pelo modo que as veem”. Epicteto

Comunicação não violenta Capítulo 5: assumindo a responsabilidade pelos nossos próprios sementes

 Ouvindo uma mensagem negativa: 4 opções


Segundo Marshall, o que os outros fazem pode ser estímulo para nossos sentimentos, mas não a causa. No terceiro componente da CNV, reconhecemos e tomamos consciência da raiz desses sentimentos. Esse componente tem grande potencial transformador, nos traz autonomia e é muito importante.

Quando alguém nos envia uma mensagem negativa, seja verbal ou não, podemos receber de 4 maneiras.

Se alguém, com raiva, diz, por exemplo: “Você é a pessoa mais irresponsável que eu já vi”.

Podemos receber:

1. Culpando a nós mesmos

·         “Ah eu deveria ser mais cuidadoso”.
Aceitamos o julgamento pagando um preço caro, as custas de nossa autoestima.

2. Culpando os outros

·         “Você não tem o direito de dizer isso, estou sempre me esforçando por aqui”.
·         “Mas olha só quem está falando”.
Esse é um caminho que comumente traz um sentimento de raiva.

3. Escutar nossos próprios sentimentos

·         “Quando escuto você dizer que sou a pessoa mais irresponsável, fico magoado, porque preciso de algum reconhecimento de meus esforços em cuidar das coisas”.
Ao focarmos a atenção em nossos próprios sentimentos e necessidades, nos conscientizamos de que nosso atual sentimento de mágoa deriva da necessidade de que nossos esforços sejam reconhecidos

4. Escutar os sentimentos e necessidades dos outros.

·         "Você está magoado porque precisa de mais zelo ao seu redor”?
Virar o foco para os sentimentos e necessidades da outra pessoa, tais como expressos naquele momento e, assim, encontrar conexão.

QUatro formas de lidar com uma mensagem difícil
As duas últimas são mais interessantes.


Aceitamos a responsabilidade, em vez de culpar outras pessoas por nossos sentimentos, ao reconhecermos nossas próprias necessidades, desejos, expectativas, valores ou pensamentos. Observe a diferença entre as seguintes expressões de desapontamento:

EXEMPLO 1

A: "Você me desapontou ao não aparecer na noite passada."
B: "Fiquei desapontado quando você não apareceu, porque eu queria conversar a respeito de algumas coisas que estavam me incomodando."

Na frase A, a pessoa atribui a responsabilidade pelo desapontamento somente à atitude da outra pessoa. Em B, o sentimento de desapontamento é reconhecido no desejo da própria pessoa que fala, o qual não está sendo atendido

EXEMPLO 2

A: "Fiquei realmente irritado por eles terem cancelado o contrato."
B: "Quando eles cancelaram o contrato, senti-me realmente irritado, porque fiquei pensando que aquilo tinha sido de uma irresponsabilidade absurda."

Na frase A, a pessoa atribui sua irritação exclusivamente ao comportamento da outra pessoa, ao passo que, na frase B, ela aceita a responsabilidade por seus sentimentos, ao reconhecer o pensamento por trás deles. Ela reconhece que seu modo recriminatório de pensar havia gerado sua irritação.

Entretanto, a CNV encoraja a pessoa a ir além, identificando o que ela está querendo, qual desejo, expectativa ou necessidade não foi atendida? Quanto mais formos capazes de relacionar nossos sentimentos às nossas próprias necessidades, mais fácil será para os outros reagir compassivamente. Para relacionar seus sentimentos ao que ela estava querendo, a pessoa da frase B poderia ter dito:
 "Quando eles cancelaram o contrato, fiquei realmente irritado, porque eu tinha esperanças de recontratar os empregados que dispensamos no ano passado".

Fazer distinção entre doar de coração e ser motivado pela culpa


Atribuir o sentimento a outras pessoas é criar motivação pela culpa. Dizer: “mamãe fica triste quando você vai mal na escola”, significa inferir que a criança é a causa da felicidade da mãe. Isso pode ser confundido com preocupação positiva: parece que a criança se preocupa e se sente mal de ver a mãe sofrer, mas na verdade ela age, se agir, para evitar culpa.

Alguns padrões de linguagem ajudam a mascarar a responsabilidade por nossos sentimentos:

1. O uso de expressões e pronomes impessoais, como algo e isso:

·         “Algo que realmente me enfurece é quando erros de ortografia aparecem em nossos folhetos para o público"
·         “Isso me aborrece muito".

2. Afirmações que somente mencionam as ações de outros:

·         “Quando você não me liga em meu aniversário fico magoado";
·         "Mamãe fica desapontada quando você não termina de comer”.

 3. O uso da expressão "Sinto-me [uma emoção] porque" seguida de uma pessoa ou pronome pessoal que não eu.

·         “Sinto-me magoado porque você disse que não me amava".
·         "Sinto-me zangado porque a supervisora não cumpriu sua promessa".

 --- Expressaríamos melhor, no entanto, assumindo a responsabilidade, talvez assim:

1.      "Sinto-me realmente enfurecido quando erros de ortografia como esse aparecem em nossos folhetos para o público por que eu quero que nossa companhia projete uma imagem profissional.
2.      "Mamãe fica desapontada quando você não termina de comer, porque eu quero que você cresça forte e saudável"
3.      Sinto-me zangado por a supervisora não ter cumprido sua promessa, porque eu contava com aquele fim de semana para visitar meu irmão".



As necessidades na raiz dos julgamentos


Como já vimos, julgamentos, críticas, diagnósticos e interpretações dos outros são todas expressões alienadas e trágicas de nossas necessidades.
Quando uma esposa diz: "Você tem trabalhado até tarde todos os dias desta semana; você ama o trabalho mais do que a mim", ela está dizendo que sua necessidade de contato íntimo não está sendo atendida.

Quando expressamos nossas necessidades indiretamente, através do uso de avaliações, interpretações e imagens, é provável que os outros escutem nisso uma crítica e, por isso, tendem a investir sua energia na autodefesa ou no contra-ataque.

Se desejamos obter uma reação compassiva dos outros, expressar nossas necessidades interpretando ou diagnosticando o comportamento deles é jogar contra nós mesmos. Em vez disso, quanto mais diretamente conseguirmos conectar nossos sentimentos a nossas próprias necessidades, mais fácil será para os outros reagirem a estas com compaixão.

Infelizmente, a maioria de nós nunca foi ensinada a pensar em termos de necessidades. Estamos acostumados a pensar no que há de errado com as outras pessoas sempre que nossas necessidades não são satisfeitas. Assim, se desejamos que os casacos sejam pendurados no armário, por exemplo, podemos classificar nossos filhos de preguiçosos por deixá-los sobre o sofá.

Marshall nota em sua experiência que no momento em que as pessoas começam a conversar sobre o que precisam, em vez de falarem do que está errado com as outras, a possibilidade de encontrar maneiras de atender às necessidades de todos aumenta enormemente.

Eis algumas necessidades humanas universais:

Necessidades que todos nós compartilhamos.
Necessidades que todos nós compartilhamos.

A dor de expressarmos nossas necessidades versus A dor de não as expressarmos.


Se não valorizarmos nossas necessidades, os outros também podem não valorizá-Ias.

Num mundo onde somos frequentemente julgados severamente por identificarmos e revelarmos nossas necessidades, fazer isso pode ser bastante assustador.

As mulheres, em especial, estão sujeitas a críticas. Durante séculos, a imagem da mulher amorosa tem sido associada ao sacrifício e à negação de suas próprias necessidades, com o objetivo de cuidar dos outros. Devido ao fato de as mulheres serem socialmente ensinadas a considerar o cuidado com os outros como sua maior obrigação, elas muitas vezes aprenderam a ignorar as próprias necessidades.

Por ter medo de pedir o que precisa, uma mulher pode simplesmente deixar de dizer que ela teve um dia cheio, está cansada e gostaria de ter algum tempo à noite para si mesma; em vez disso, suas palavras saem como se fossem uma causa judicial: "Você sabe, não tive um momento para mim mesma o dia todo. Passei todas as camisas, lavei as roupas da semana toda, levei o cachorro ao veterinário, fiz o jantar, fiz a marmita do almoço e liguei para todos os vizinhos para avisar da reunião do bairro, então [implorando] ... que tal se você ... ?
Um pedido que reforça a crença de que elas não têm nenhum direito legítimo a suas necessidades e de que estas não são importantes.

mulher heropina
Amo, logo nego minhas necessidades.

"Não!", vem a resposta. O melancólico pedido provoca resistência de seus ouvintes, em vez de compaixão. Argumentar de um lugar em que ela “deveria” ou “mereceria” gera dificuldade em se ouvir e valorizar necessidades por trás dos pedidos.

No final, a mulher é novamente persuadida de que suas necessidades não importam, sem perceber que elas foram expressas de tal maneira que seria improvável obter uma reação favorável.

Da escravidão à libertação emocional.


No desenvolvimento em direção a um estado de libertação emocional, a maioria de nós parece passar, nos diz Marshall, por três estágios na maneira como nos relacionamos com os outros:

Estágio 1 - Escravidão emocional: vemos a nós mesmos como responsáveis pelos sentimentos dos outros.


Acreditamos que somos responsáveis pelos sentimentos dos outros. Achamos que devemos nos esforçar constantemente para manter todos felizes. Se eles não parecem felizes, sentimo-nos responsáveis e compelidos a fazer alguma coisa a respeito. Isso pode facilmente nos levar a ver as próprias pessoas que são mais próximas de nós como fardos.

Estágio 2 – Ranzinza: sentimos raiva, não queremos mais ser responsáveis pelos sentimentos dos outros.


Nessa fase, tomamos consciência do alto custo de assumir a responsabilidade pelos sentimentos dos outros e por tentar satisfazê-los em detrimento de nós mesmos. Quando percebemos quanto de nossa vida perdemos e quão pouco respondemos ao chamado de nossa própria alma, podemos ficar com raiva.

Às vezes reagimos e queremos ignorar totalmente tudo o que não seja nosso. Chutamos o balde. O que pode gerar sofrimento também, mas já é um passo adiante em relação a escravidão emocional.

Estágio 3 – Libertação emocional: assumimos a responsabilidade por nossas intenções e ações.


Na terceira etapa, a libertação emocional, respondemos às necessidades dos outros por compaixão, nunca por medo, culpa ou vergonha.

Aceitamos total responsabilidade por nossas intenções e ações, mas não pelos sentimentos dos outros. Nesse estágio, temos consciência de que nunca poderemos satisfazer nossas próprias necessidades à custa dos outros.

A libertação emocional envolve afirmar claramente o que necessitamos, de uma maneira que deixe óbvio que estamos igualmente empenhados em que as necessidades dos outros sejam satisfeitas.
Isso é CNV.

Exercício - Reconhecendo necessidades


Para praticar a identificação de necessidades, faça um círculo ao redor do número (ou memorize) em frente de todas as afirmações abaixo em que a pessoa estiver assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

  1. Você me irrita quando deixa documentos da empresa no chão da sala de conferências.
  2. Fico com raiva quando você diz isso, porque quero respeito e ouço suas palavras como um insulto.
  3. Sinto-me frustrada quando você chega atrasado.
  4. Estou triste por você não vir para jantar, porque eu estava esperando que pudéssemos passar a noite juntos.
  5. Estou desapontado porque você disse que faria aquilo e não o fez.
  6. Estou desmotivado porque gostaria de já ter progredido mais em meu trabalho.
  7. As pequenas coisas que as pessoas dizem às vezes me magoam.
  8. Sinto-me feliz porque você recebeu aquele prêmio.
  9. Fico com medo quando você levanta a voz.
  10. Estou grato por você ter me oferecido uma carona, porque eu precisava chegar em casa antes das crianças.

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Respostas de Marshall Rosenberg para o exercício.


1. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, essa afirmação implica que o comportamento da outra pessoa é exclusivamente responsável pelos sentimentos de quem falou. Ela não revela as necessidades ou pensamentos que estão contribuindo para os sentimentos dessa pessoa. Para tanto, a pessoa poderia ter dito: "Fico irritado quando você deixa documentos da companhia no chão da sala de conferências, porque quero que nossos documentos sejam guardados em segurança e fiquem acessíveis':

2. Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

3. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades ou ensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito: "Sinto-me frustrada quando você chega atrasado, porque eu esperava que conseguíssemos poltronas na primeira fila”.

4 Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

5. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades ou pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito: "Quando você disse que faria aquilo e depois não o fez, fiquei desapontada, porque eu gostaria de poder confiar em sua palavra':

6. Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

7. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades ou pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia er dito."Às vezes quando as pessoas dizem algumas coisinhas, fico magoado, porque ser valorizado, não criticado”.

8.Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades e pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito'. "Quando você recebeu aquele prêmio, fiquei feliz, porque eu esperava que você fosse reconhecido por todo o trabalho que dedicou àquele projeto”.

9. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades e pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito. "Quando você levanta sua voz, fico com medo, porque digo para mim mesma que alguém pode se ferir aqui, e preciso ter a certeza de que todos estamos seguros”

10. Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.




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