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Comunicação não-violenta, Capítulo 3: observar sem avaliar

2017/11/14 | Nenhum comentário | |

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“Observem! Há poucas coisas tão importantes, tão religiosas, quanto isso”. Pastor Frederick Buechener

comunicação não violenta capitulo 3

Observar sem avaliar


O primeiro dos 4 componentes da CNV consiste em necessariamente separar a observação da avaliação.

Observar é uma forma importante e autêntica de expressar claramente a outra pessoa como estamos. No entanto, quando a observação traz junto a ela avaliação, diminuímos a possibilidade de que os outros ouçam a mensagem que desejamos lhe transmitir. Em vez disso, é provável que eles recebam como crítica e, assim, tentem se defender contra o que é dito.

Aqui mais uma vez, vale lembrar o caráter solucionador da CNV de se obter aquilo o que se necessita. Não-violência não é benevolência ou caridade, mas sim um caminho compassivo de enorme potencial na resolução de conflitos de todo tipo.

A CNV não nos obriga a permanecermos completamente objetivos, abrindo mão da ação de avaliar. Mas ela pede que mantenhamos essa separação entre avaliação e observação. Trata-se de linguagem dinâmica e que desestimula generalizações, isto é, quando a avaliação for necessária, que ela não seja estática e redutora, mas sim que privilegie o momento, se baseando nas observações específicas de cada contexto.

Exemplo:


·         Você é generoso demais. (Verbo ser empregado de maneira estática sem indicar que a pessoa que avalia aceita a responsabilidade pela avaliação).

Funcionaria melhor se:

·         Quando vejo você dar para os outros todo o dinheiro do almoço, acho que está sendo generoso demais. (Assumindo uma avaliação focada em um momento e contexto específico).

Observar sem avaliar na comunicação não violenta
Observar e DESjulgar

Durante o grupo de estudos, percebemos que esse capítulo oferece um conceito que, na maior parte das vezes, é razoavelmente simples de entender. No entanto, é extremamente difícil colocá-lo em prática. Misturar observação e julgamento é um comportamento naturalizado a nós, participantes, e acredito que também esteja enraizado na nossa cultura.

Nesse sentido, durante o capítulo, somos introduzidos ao pensamento do semanticista Wendell Johnson:

"Nossa linguagem é um instrumento imperfeito, criado por homens antigos e ignorantes. É uma linguagem animista, que nos convida a falar a respeito de estabilidade e constâncias, de semelhanças, normalidades e tipos, de transformações mágicas, curas rápidas, problemas simples e soluções definitivas. No entanto, o mundo que tentamos simbolizar com essa linguagem é um mundo de processos, mudanças, diferenças, dimensões, funções, relações, crescimentos, interações, desenvolvimento, aprendizado, abordagem, complexidade. E o desencontro entre este nosso mundo sempre em mutação e as formas relativamente estáticas de nossa linguagem é parte de nosso problema".

Outros exemplos em que temos a oportunidade de nos expressar melhor:


observar sem avaliar exemplos
Julgar é tão naturalizado que a gente nem se perguntar o porquê..

Exercício: Observação x Avaliação


Esse é um exercício que Marshall propõe no final do capítulo para “determinar sua habilidade de discernir entre observações e avaliações, faça o exercício a seguir”. Circule *anote* o número de qualquer afirmação que seja uma observação pura, sem nenhuma avaliação associada.

  1. Ontem, João estava com raiva de mim sem nenhum motivo.
  2. Ontem à noite, Lúcia roeu as unhas enquanto assistia à Novela.
  3. Marcelo não pediu minha opinião durante a reunião.
  4. Meu pai é um homem bom.
  5. Maria trabalha demais.
  6. Luís é agressivo.
  7. Cláudia foi a primeira da fila todos os dias desta semana.
  8. Meu filho freqüentemente deixa de escovar os dentes.
  9. Antônio me disse que eu não fico bem de amarelo.
  10. Minha tia reclama de alguma coisa toda vez que falo com ela. 

~~ Respostas

.
.
1. Se você circulou esse número, discordamos. Considero "sem nenhum motivo" uma avaliação. Também considero uma avaliação inferir que João estava com raiva. Ele podia estar magoado, amedrontado, triste ou outra coisa. Exemplos de observações sem avaliação poderiam ser "João me disse que estava com raiva" ou "João esmurrou a mesa".

2. Se você circulou esse número, estamos de acordo em que se fez uma observação à qual não estava associada nenhuma avaliação.

3. Se você circulou esse número, estamos de acordo em que se fez uma observação à qual não estava associada nenhuma avaliação.

4. Se você circulou esse número, discordamos. Considero "homem bom" uma avaliação. Uma observação sem avaliação poderia ser "Durante os últimos 25 anos, meu pai tem doado um décimo de seu salário a obras de caridade".

5. Se você circulou esse número, discordamos. Considero "demais" uma avaliação. Uma observação sem avaliação poderia ser "Maria passou mais de sessenta horas no escritório esta semana”.

6. Se você circulou esse número, discordamos. Considero "agressivo" uma avaliação. Uma observação sem avaliação poderia ser "Luís bateu na irmã quando ela mudou de canal".

7. Se você circulou esse número, estamos de acordo em que se fez uma observação à qual não estava associada nenhuma avaliação.

8. Se você circulou esse número, discordamos. Considero "freqüentemente" uma avaliação. Uma observação sem avaliação poderia ser "Esta semana, meu filho deixou duas vezes de escovar os dentes antes de dorm ir".

9. Se você circulou esse número, estamos de acordo em que se fez uma observação à qual não estava associada nenhuma avaliação.

10. Se você circulou esse número, discordamos. Considero "reclama" uma avaliação. Uma observação sem avaliação poderia ser "Minha tia telefonou para mim três vezes esta semana, e em todas falou de pessoas que a trataram de alguma maneira que não a agradou".

Até o próximo capítulo!



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O que estou fazendo aqui?

2017/10/28 | Nenhum comentário | |




Por 
Rafa Henrique


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Gostaria de dividir meu espaço com vocês, leitores. Para começar, irei me apresentar.

Meu nome é Rafael, e sou graduado em Engenharia de Energia pela PUC Minas, e estou recentemente fazendo um mestrado em Planejamento em Sistemas Energéticos pela Unicamp.

Acompanho  O Espaço há bastante tempo e por isso decidi colaborar com o site, porque acredito que o mundo precisa desta transformação. Irei compartilhar a minha visão sobre esta necessidade.

Durante a minha trajetória acadêmica, aprendi bastante sobre a interdisciplinaridade. Da mesma forma que sua importância na engenharia, e em outros projetos na vida real. Logo, é importante a junção de vários conhecimentos para a consolidação de um grande projeto. Tanto que nos tempos atuais, a interdisciplinaridade é bastante reforçada. 

Um exemplo na engenharia é criar projetos que tenham não apenas ganhos econômicos, mas também sociais e ambientais. Eu inclusive sou muito instigado a ver e criar uma conexão nestes três pontos em meu mestrado.

A Interdisciplinaridade, neste caso, seria forma de conectar várias disciplinas em um único tópico. Ela é, em si interessante por ter um desafio ao trabalhar nestas conexões. Quanto maior este número de conexões, maior o fluxo de informações adquiridos para um trabalho mais solido.

Na formação humana, estas conexões tem esse mesmo objetivo. Aumentando este número de conexões, aumenta-se as possibilidades de uma melhor construção no caráter humano. Juntando determinados valores, como as emoções, a comunicação, a escuta, a empatia e o ego, é possível utilizar os mesmos para auxílio na moldagem de sua formação. E até mesmo facilita a pessoa a encontrar uma melhor e mais eficiente saída sobre determinada situação. É como se diz: é preferível escolhas mais complexas porem eficientes, do que escolhas mais simples porém ineficientes.

Resposta fácil e errada ou complexa e certa
Respostas: simples e erradas ou complexas e certas?

Porém, mesmo que eu tenha obtido uma melhor visão de como utilizar essas conexões, vejo muitas pessoas ao meu redor que ao meu ver, não sabem utiliza-las direito. Em filosofia, por exemplo, os alunos são ensinados a abandonar o “Senso Comum”. O senso comum é visto na ciência como uma visão limitada, cheia de preconceitos, além de conservadora. Isso é devido a forma que as pessoas ainda o usam, ao invés de refletir em torno do mesmo.


Apesar disto, vejo muitas pessoas que ainda utilizam este “senso comum”, não só na Engenharia, mas também em sua formação humana. Isso é possível devido aos julgamentos prévios, ao Fla-Flu político, dentre outros. É uma situação triste, mas felizmente hoje consigo ter uma visão mais ampla e racional. 

E é claro, não só na Engenharia, mas também em outros cursos, e até mesmo pessoas fora da Universidade estão sujeitas a utilizar este senso comum. Com isso, percebi que existe um senso comum na vivência social, pelas respostas “prontas” das pessoas em determinado tema. Como por exemplo, o famoso bordão de “bandido bom é bandido morto”.

Desta forma, venho a propor aqui em meu espaço, minha visão sobre vários assuntos, além de contar algumas das minhas experiências. Sobre minha vivência, sobre o que eu penso sobre um tema. É claro, nunca fugindo desta temática que é o uso destas conexões para moldar uma visão mais concreta.

Confesso que já tive minha visão limitada sobre determinados assuntos. Porém, foi com o uso destas conexões em minha formação humana que pude alterar minha opinião, até mesmo me arrependendo de algumas coisas que já fiz ou até falei. Apesar destes erros, sinto feliz pois parece que eu fui liberto de uma prisão na qual parecia que não existia saída. Isso ajudou até mesmo em meu amadurecimento. E já adianto que não é fácil sair desta bolha que limita a nossa visão.

Espero que tenham gostado.


Sobre o Autor:
Rafael Henrique Engenheiro de Energia pela PUC-MG, e fazendo mestrado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela UNICAMP. Já fez intercâmbio em Flagstaff (EUA) pelo CsF, além de trabalhar por um ano na ONG Engenheiros sem Fronteiras Núcleo BH. Crê que a Engenharia pode criar uma grande transformação no mundo em aspectos econômicos, ambientais, políticos e sociais, da mesma forma que as demais ciências.
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Se conselho fosse bom...

2017/10/25 | Nenhum comentário | |

Texto originalmente publicado na Escola de Empatia.

só preciso de alguém que espere comigo...

Você já se sentiu atropelado quando tentou se abrir com alguém?


Acontece quando alguém tenta nos ajudar sem entender essencialmente o que estamos passando e o que estamos sentindo. As pessoas trazem rapidamente uma associação qualquer e uma resposta solucionadora, entregando alguma espécie de aspirina emocional.

E é natural que seja assim. É comum, por exemplo, que crianças, ao verem um coleguinha chorando, peçam ajuda as próprias mamães para que se aproximem e aliviem a dor do amigo.

Ou seja, esse incômodo em relação à dor do outro vem antes mesmo de entendermos exatamente que a relação com nossos papais e mamães é única e que o coleguinha não faz parte daquele universo.

Nós não gostamos de ver quem a gente gosta em posição de sofrimento. E, por isso, a reação primeira de alguém que se abre conosco é a tentativa de alívio rápido. Reduzindo a experiência do outro, forçando comparações e oferecendo conselhos... 

Veja só, às vezes parece que estamos querendo ajudar, mas acabamos por ser um tanto egoístas, não é? Queremos aliviar para o outro para que o alívio venha até a nós.

  • “Isso é bobagem, a sua vida é ótima”.
  • “Pelo menos não aconteceu aquilo outro, poderia ser bem pior”.
  • “Mas sua vida é ótima, não venha com esses dramas”.
  • “Já passei por coisas muito piores, daqui a pouco você nem se lembra disso”.

obrigado pelo conselho incrível
Obrigado pelo conselho incrível!

São algumas das frases prontas às quais recorremos na hora de acudir aquela pessoa em dificuldade.

Quando isso acontece, a outra pessoa se sente incompreendida. Julgada e encurralada, ela perde em autoestima e encontra uma menor motivação para buscar soluções.

Então, sendo assim, como poderíamos agir realmente em favor daquele que busca o nosso apoio? A melhor maneira se dá através de uma comunicação empática genuína, mas isso não é nada fácil. É preciso que respeitemos o outro, e a sua relação com a experiência partilhada, e que confiemos na sua capacidade de encontrar o melhor caminho dentro dessa experiência, que é única e particular.

Nesse sentido, separei três atitudes que facilitam esse processo:

1) Aceitar a experiência do outro.


Por mais que tenhamos passado por alguma coisa parecida, o que o outro vive é só dele. E se ele reclama de dor é porque dói. Mesmo que não faça sentido para nós, mesmo que pareça pequeno. Aceitá-lo verdadeiramente é fundamental. Ele se sentirá compreendido, adequado e motivado a buscar respostas para si.

2) Confiança e respeito.


No momento em que alguém se abre conosco, dividindo vivências e revelando sentimentos, essa pessoa está se expondo e ela só faz isso porque confia em nós. Temos que fazer dessa confiança, uma recíproca. É importante acreditar que ela é capaz de escolher os melhores caminhos para si e que para isso, talvez ela precise passar por esse processo dolorido. É importante que respeitemos também o seu processo, sendo um lugar de apoio e carinho.

3) A comunicação empática.


É aqui que tudo se materializa. Aceitar, respeitar e confiar começam com a escuta honesta. Interessar-se pelo outro, procurar por sua perspectiva e tentar se colocar no lugar dele, como se fosse ele próprio, comunicando todo o processo. Comunicando a busca pelo outro, com paráfrases, com confirmações e afirmações da percepção, para finalmente comunicar a compreensão.


Se inscreva no nosso canal do YouTube para mais reflexões como essa.

Grande abraço!



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Comunicação não violenta, Capítulo 2: a comunicação que bloqueia a compaixão

2017/10/24 | Nenhum comentário | |




“Não julgueis, para que não sejas julgado. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados”. Mateus 7,1

A comunicação que bloqueia a compaixão

Existem certas formas específicas de linguagem e comunicação que bloqueiam a compaixão e contribuem para um comportamento violento em relação aos outros e a nós mesmos. Para elas, Marshall utiliza a expressão “Comunicação Alienante da Vida”.

Pela definição, alienação é o estado de ignorância da realidade e dos fatores subjetivos e objetivos que condicionam sua maneira de ser.

Vamos a elas:

Julgamentos moralizadores


O julgamento moralizador é uma forma de comunicação extremamente alienante. Subentendem uma natureza errada ou maligna nas pessoas que não agem em consonância com valores que são nossos.

Ter valores e princípios é ok e desejável. Trata-se de juízo de valor e é chave importante para se navegar nas águas da vida.

O problema está em projetar esses valores no outro – um ser único, complexo e infinito, que tem seus próprios princípios e segue a vida à sua maneira particular – e aplicar um julgamento moralizador, colocando em cheque a natureza daquele ser.

Assim, nos afastamos do outro e de suas necessidades, nos afastamos de nós mesmos e dos nossos sentimentos e reduzimos a nossa compreensão acerca do todo, do ambiente que nos faz.

Culpa; Insulto; Depreciação; Comparação; Rotulação; Crítica; Diagnósticos;
Se minha esposa deseja mais afeto do que estou lhe dando, ela é “carente e dependente”. Mas se quero mais atenção do que me dá, então ela é “indiferente e insensível”.

Todas as análises de outros seres humanos são expressões trágicas de nossos próprios valores e necessidades.

Julgamento é uma expressão das proprias necessidades
Julgar é expressar necessidade não atendida.


Trágicas. Pois se expressar de tal forma só produz sofrimento. Coloca o outro em posição defensiva e cria nele grande resistência em nos atender. E se, por acaso, ele aceita agir dentro dos nossos valores, será, provavelmente, por medo, culpa ou vergonha.

E, no fim, pagamos um preço caro. A pessoa que reage a nós por medo, culpa ou vergonha, vai, aos poucos, perdendo sua boa-vontade para conosco, sentindo ressentimento e menos autoestima.
Certa vez, o poeta Rumi escreveu:

“Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”.

Acontece que a comunicação alienante da vida não é alienante atoa: nos prende num mundo de ideias sobre o certo e o errado, com um vocabulário rico em classificar e dicotomizar as pessoas e seus atos.

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A relação entre violência e linguagem é tema de interesse científico. É percebido que existe consideravelmente menos violência em culturas nas quais as pessoas pensam em termos de necessidades humanas do que em outras nas quais as pessoas se rotulam entre “boas” e “más”.

“Na raiz de toda violência – verbal, psicológica ou física, entre familiares, tribos ou nações -, está um tipo de pensamento que atribui a causa do conflito ao fato de os adversários estarem errados”.


Fazendo comparações


Comparar é mais uma forma de julgar e alienar-se.

A simples comparação estética é suficiente para provocar tristeza. Quando, então, entramos no campo de conquistas e realização pessoal, a tristeza se transforma em grande frustração.

Nesse sentido, vale ressaltar o enorme papel alienador da TV, da propaganda e principalmente das redes sociais, nos inundando, constantemente, de pessoas realizadas celebrando o auge da vida. Reduzindo a nossa realidade única e infinita em parâmetros superficiais.


Negação de responsabilidade


Aqui temos uma linguagem capaz de gerar uma alienação sem precedentes. Negar a responsabilidade é limitar o discernimento, o senso-crítico e a tomada de decisão, causando sofrimento a nós mesmos e aos outros.

  •        “Tenho que fazer isso”;
  •        “Faço isso porque o cliente exigiu”;
  •        “Fiz isso porque são as regras da casa”;
  •        “Só estou fazendo isso porque é minha obrigação como xxx”;


O fato é que pensamentos, sentimentos e ações são responsabilidades inteiramente pessoais e utilizar essa linguagem é um meio de esconder essas responsabilidades de nós mesmos.

É importante sempre reforçar que fazemos escolhas para atender a alguma necessidade específica nossa:

Um professor não avalia seus alunos através de provas porque tem que fazê-lo. Ele escolhe avaliar seus alunos dessa maneira para atender a sua necessidade de manter o seu emprego.

Trata-se de uma mudança estrutural poderosa na comunicação.
Eu ESCOLHO agir
Tirar um peso das costas.


A alienação pode mover massas em direção a violência, através da obediência cega e do conformismo social. Foi desse modo que o nazismo, por exemplo, usando uma linguagem burocrática, promoveu tantas barbaridades: o soldado massacrava e se isentava de culpa: tinha de fazê-lo, ordens superiores ou essa era a política institucional.

“Os horrores que já vimos, os horrores que ainda vamos ver, são sinal não de que os homens rebeldes aumentaram, e sim de que aumenta o número de homens obedientes e dóceis”.

Outras formas de comunicação alienante da vida


1. Comunicar desejos como exigências é outra forma de linguagem que bloqueia a compaixão. Exigir nada mais é que ameaçar com culpa ou punição.

Nunca conseguimos forçar as pessoas a fazer nada. Essa é uma lição de humildade no exercício do poder. O máximo que conseguimos é, por meio da punição, fazê-las desejar agir como queremos. Isso é alienante, desconectante e triste.

2. Há também o conceito de “merecimento”. Um ato ou pessoa boa merece ser recompensada e um ato ou pessoa ruim merece ser punido. Tal forma de pensar sugere que punição faz entender e repensar. No entanto, ela só comunica violência que, mesmo restringindo o ato, não deixa claro qual a mudança e seus benefícios.

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A comunicação alienante da vida é uma ferramenta de controle. A maioria de nós cresceu aprendendo a rotular, julgar, comparar e exigir. Uma educação que se baseia na ideia de deficiência humana inata, bem como a necessidade de controlar nossa natureza inerentemente indesejável. Aprendemos desde cedo a isolar o que se passa dentro de nós.

Esse é um valor de sociedades baseadas em hierarquia e dominação.

“A comunicação alienante da vida tem profundas raízes filosóficas e políticas”.


Até o próximo capítulo!






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Comunicação não-violenta, Capítulo 1: O cerne da CNV

2017/10/17 | Nenhum comentário | |




Do fundo do coração


Do fundo do coração, o cerne da CNV


“O que eu quero em minha vida é compaixão, um fluxo entre mim mesmo e os outros com base numa entrega mútua, do fundo do coração”.

Introdução


Nessa primeira parte do capítulo, somos introduzidos ao conceito de CNV. O termo “não-violência” vem de Ghandi e se refere à um estado compassivo natural, quando a violência se afasta do nosso coração.

Aqui, a linguagem e o uso das palavras afetam diretamente a capacidade de nos mantermos compassivos e exercem, assim, um papel crucial na construção de um ambiente favorável à troca humana e positiva.

“Embora possamos não considerar ‘violenta’ a maneira de falarmos, nossas palavras não raro induzem à mágoa e à dor, seja para os outros, seja para nós mesmos”

Uma maneira de concentrar a atenção


A CNV vem para fazer das respostas automáticas e repetitivas, respostas conscientes, firmemente baseadas no que estamos pensando, sentindo e necessitando.

Aprendemos a articular o que de fato desejamos e somos levados a nos expressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que damos aos outros atenção respeitosa e empática.

“Embora eu me refira à CNV como processo da comunicação, ela é mais do que isso. Num nível mais profundo, ela é um lembrete permanente para mantermos nossa atenção concentrada lá onde é mais provável acharmos o que procuramos”.

E aqui vale ressaltar o seu pragmatismo: é na expressão autêntica e na escuta empática que conseguimos verdadeiramente atender às nossas necessidades.

“À medida que a CNV substitui os velhos padrões de defesa, recuo ou ataque diante de julgamentos e críticas, vamos percebendo a nós e aos outros, assim como nossas intenções e relacionamentos, com um enfoque novo. A resistência, a postura defensiva e as reações violentas são minimizadas”.

Temos nessa parte do livro, exemplos práticos em que a CNV se fez útil na resolução de conflitos delicados, como entre povos no oriente médio, por exemplo.

O processo da CNV


Os quatros componentes da CNV são:

1. Observação:

·         O que de fato está acontecendo?
·         O que estamos vendo os outros fazendo ou dizendo é enriquecedor ou não para nossa vida?
·         É importante afastar os julgamentos e avaliações da observação.

2. Sentimento:

·         Como me sinto ao observar aquela ação? Magoado, triste, alegre, divertido, irritado, etc.

3. Necessidades:

·         Reconhecemos quais necessidades estão de fato ligadas ao sentimento já identificado.

4. Pedido:

·         Consciente dos três componentes anteriores, expressamos clara e honestamente como estamos, fazendo um pedido específico.


Os 4 componentes da Comunicação compassiva.
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Uma mãe poderia expressar da seguinte forma:

“Roberto, quando vejo suas bolas de meias sujas debaixo da mesinha(O), fico irritada(S), porque preciso de mais ordem no espaço que usamos em comum(N)”. Completando com o pedido claro: “você poderia colocar suas meias na lavadora”?

Ao invés de exigir com ameaças, violência, impondo medo, culpa e atacando a auto-estima do filho. Do tipo: 

violência x não-violência
Compare...

Pode parecer estranho ou difícil agora, mas ao longo do livro entenderemos melhor cada componente e como aplicá-la, não deixe de acompanhar cada capítulo para que tudo se internalize plenamente.

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Dito tudo isso, vale lembrar, a CNV, contudo, não é meramente uma linguagem e nem um conjunto de técnicas para usar palavras; a consciência e a intenção que a CNV abrange pode muito bem se expressar pelo silêncio, pela expressão facial e linguagem corporal. Os diálogos e exemplos do livro perdem algumas nuances como empatia silenciosa, narrativa, gestos, tom de voz, velocidade da fala, humor e etc.

“Na verdade, é possível realizar todas as quatro partes do processo sem pronunciar uma única palavra. A essência da CNV está em nossa consciência daqueles quatro componentes, não nas palavras que efetivamente são trocadas”.

Os exemplos que veremos ao longo do livro são essenciais para entendermos e absorvemoso processo. Mas, uma vez que isso está feito, precisamos adaptar todo o aprendizado à nossa realidade e ao nosso jeito único e particular de ser e agir.

Até o próximo capítulo!


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