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Um processo direcional na vida, por Carl Rogers

2018/08/22 | Nenhum comentário | |


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do livro "Um Jeito de Ser"...



A prática, a teoria e a pesquisa deixam claro que a abordagem centrada no cliente baseia-se na confiança em todos os seres humanos e em todos os organismos. Há provas advindas de outras disciplinas que autorizam uma afirmação ainda mais ampla. Podemos dizer que em cada  organismo,  não  importa  em  que  nível,    um  fluxo  subjacente  de  movimento  em direção à realização construtiva das possibilidades que lhe são inerentes. Há também nos seres  humanos  uma  tendência  natural  a  um  desenvolvimento  mais  completo  e  mais complexo. A expressão mais usada para designar esse processo é “tendência realizadora”, presente em todos os organismos vivos.

Quer falemos de uma flor ou de um carvalho, de uma minhoca ou de um belo pássaro, de  uma maçã ou de uma pessoa, creio que estaremos certos ao reconhecermos que a vida é um processo ativo, e não passivo. Pouco importa que o estímulo venha de dentro ou de fora, pouco  importa  que o  ambiente  seja  favorável  ou  desfavorável.  Em  qualquer  uma  dessas condições, os comportamentos de um organismo estarão voltados para a sua manutenção, seu crescimento e sua reprodução. Essa é a própria natureza do processo a que chamamos vida. Esta tendência está em ação em todas as ocasiões. Na verdade, somente a presença ou ausência desse processo direcional total permite-nos dizer se um dado organismo está vivo ou morto. 

A tendência realizadora pode, evidentemente, ser frustrada ou desvirtuada, mas não pode ser  destruída  sem  que  se  destrua  também  o  organismo.  

Lembro-me  de  um  episódio  da minha  meninice,  que  ilustra  essa  tendência.  A  caixa  em  que  armazenávamos  nosso suprimento  de  batatas  para  o  inverno  era  guardada  no  porão,  vários  pés  abaixo  de uma pequena janela. As condições eram desfavoráveis, mas as batatas começavam a germinar — eram brotos pálidos e brancos, tão diferentes dos rebentos verdes e sadios que as batatas produziam  quando  plantadas  na  terra,  durante  a  primavera.  Mas  esses  brotos  tristes  e esguios cresceram dois ou três pés em busca da luz distante da janela. Em seu crescimento bizarro e vão, esses brotos eram uma expressão desesperada da tendência direcional de que estou  falando.  Nunca  seriam  plantas,  nunca  amadureceriam,  nunca  realizariam  seu verdadeiro potencial. Mas sob as mais adversas circunstâncias, estavam tentando ser uma planta. 

a tendência auto atualizante



A vida não entregaria os pontos, mesmo que não pudesse florescer. Ao lidar com clientes cujas  vidas  foram  terrivelmente  desvirtuadas,  ao  trabalhar  com  homens  e  mulheres  nas salas  de  fundo  dos  hospitais  do  Estado,  sempre  penso  nesses  brotos  de  batatas.  As condições  em  que  se  desenvolveram  essas  pessoas  têm  sido  tão  desfavoráveis  que  suas vidas quase sempre parecem anormais, distorcidas, pouco humanas. E, no entanto, pode-se confiar que a tendência realizadora está presente nessas pessoas. A chave para entender seu comportamento é a luta em que se empenham para crescer e ser, utilizando-se dos recursos que acreditam ser os disponíveis. Para as pessoas saudáveis, os resultados podem parecer bizarros e inúteis, mas são uma tentativa desesperada da vida para existir. Esta tendência construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem centrada na pessoa.

As células do ouriço marinho


Não sou o único a ver na tendência à auto-realização a resposta fundamental à questão do que faz um organismo “pulsar”. Goldstein (1974), Maslow (1954), Angyal (1941, 1965), Szent-Gyoergyi  (1974),  entre  outros,  defenderam  concepções  semelhantes  e  exerceram influências sobre meu modo de pensar. Em 1963, ressaltei que esta tendência implica num desenvolvimento  em  direção  à diferenciação  dos  órgãos  e  das  funções;  implica  em crescimento através da reprodução. Szent-Gyoergyi afirma não poder explicar os mistérios do  desenvolvimento  biológico  “sem  supor  um impulso‟  natural,  na  matéria  viva,  em  direção  ao  aperfeiçoamento”  (p.  17).  O  organismo,  em  seu  estado  normal,  busca  a  sua  própria realização, a auto-regulação e a independência do controle externo.  Mas será que esta concepção é confirmada por outros tipos de dados? Dispomos de alguns trabalhos, na Biologia, que  fundamentam o conceito de tendência auto-realizadora. 

Hans Driesch  realizou,    muitos  anos  atrás,  um  experimento,  replicado  com  outras  espécies, tendo como sujeitos ouriços do mar. Driesch separou as duas células que se formam após a primeira divisão do ovo fertilizado. Se tivessem se desenvolvido normalmente, é claro que cada  uma  delas  teria  se  transformado  em  uma  parte  do ouriço,  sendo  que  ambas  seriam necessárias à formação da criatura inteira. Portanto, parece igualmente óbvio que quando as duas  células  são  cuidadosamente  separadas  e  conseguem  crescer,  cada  uma  delas responderá apenas pela parte do ouriço que  lhe cabe. Mas esta suposição desconsidera a tendência  direcional  e  autorealizadora,  característica  de  todo  crescimento  orgânico. 

Segundo o resultado encontrado, cada célula, conservada viva, se transforma em uma larva de ouriço do mar, inteira — um pouco menor do que o comum, mas normal e completa. 

Escolhi este exemplo porque se assemelha muito à minha experiência com indivíduos em relações  de  terapia  individual,  na  facilitação  de  grupos  intensivos,  na  promoção  da “liberdade  para  aprender”  junto  a  alunos,  nas  salas  de  aula.  Nessas  situações,  fico impressionado  com  a  tendência  que  todo  ser  humano  exibe  em  direção  à  totalidade, em direção à realização de suas potencialidades.  A  psicoterapia ou a experiência grupal não surtiram efeitos quando tentei criar no indivíduo algo que ainda não estava lá; no entanto, descobri que se criar as condições que permitem o crescimento, essa tendência direcional positiva leva a resultados positivos. Aquele cientista, diante do ouriço dividido, estava na mesma situação. Ele não podia determinar que a célula se desenvolvesse nessa ou naquela direção, mas quando se concentrou na tarefa de criar as condições para sua sobrevivência e seu crescimento, a tendência ao crescimento e a direção do crescimento, provenientes do interior  do  organismo,  tornaram-se  evidentes.  Não  consigo  imaginar  uma  analogia  mais adequada  para  as  situações  de  terapia  e  de  grupo.  Quando  consigo  criar  um  fluido amniótico psicológico surge movimento para a frente, de natureza construtiva. 


(...)

Sabe-se hoje que o “código  genético” não contém todas as informações  necessárias à especificação das características do organismo maduro. Ao invés disso, contém um conjunto de regras que determinam as interações  entre as células em divisão. A quantidade de informações necessárias à  codificação das regras é  muito menor do  que a que se faz necessária à orientação de cada aspecto do desenvolvimento maturacional. “Assim, a informação pode ser gerada dentro do sistema organísmico — a informação pode crescer.” (Pentony, p. 9, grifo meu.) Daí se conclui que as células de ouriço marinho trabalhadas por Driesch estão, sem dúvida, seguindo as regras codificadas e, consequentemente, estão aptas a se desenvolverem de modo original, sem uma especificação prévia ou rígida. 
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Comunicação não-violenta, capíutlo 9: conectando-se compassivamente com nós mesmos

2018/04/19 | Nenhum comentário | |






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Como parar de se odiar

“Que nós nos tornemos a mudança que buscamos no mundo”. Mahtma Gandhi

A CNV, como vimos, contribui para os nossos relacionamentos com família, amigos, no trabalho e na política. Porém, sua utilidade mais importante seja na maneira que tratamos a nós mesmos, no desenvolvimento da autocompaixão.

“Quando internamente somos violentos para com nós mesmos, é difícil ter uma compaixão verdadeira pelos os outros”.

Lembrando como somos especiais


“Quando conceitos críticos a respeito de nós mesmos impedem que vejamos a beleza que temos dentro de nós, perdemos a conexão com a energia divina que é nossa origem. Condicionados a nos vermos como objetos - e como objetos cheios de falhas -, será surpreendente que muitos de nós acabemos tendo uma relação violenta com nós mesmos”?

Essa relação violenta com nós mesmos fica evidente na hora de nos autoavaliarmos e é importante que consigamos encontrar compaixão nesses momentos.

Autocompaixão como praticar
Autocompaixão

Gostaríamos que todas as nossas atitudes fossem atitudes enriquecedoras da vida, mas esse nem sempre é o caso, então aprendemos a nos avaliar com ódio, ao invés de buscar o aprendizado. A CNV pode nos ajudar a olhar para os eventos e condições de maneira que nos ajudem a aprender e a fazer escolhas duradouras que sirvam ao nosso propósito.

Avaliando a nós mesmos quando fomos menos que perfeitos


Algumas frases típicas de quando fazemos algumas coisas que não gostaríamos de ter feito:

  • "Isso foi burrice!";
  • "Como pude fazer uma coisa tão idiota?"; "O que há de errado comigo?";
  • "Estou sempre pisando na bola";
  • "Isso foi tão egoísta!"


Aprendemos a nos julgar como se a nossa atitude fosse errada ou ruim e como se, por isso, merecêssemos sofrer pelo que fizemos.

“É trágico que tantos de nós fiquemos enredados no ódio por nós mesmos, em vez de nos beneficiarmos dos erros, que mostram nossas limitações e nos guiam em direção ao crescimento. Mesmo quando às vezes”

Podemos sim “aprender uma lição” a partir do autojulgamento severo, mas qual a energia do aprendizado e da mudança? Como fica nossa autoestima?

“Eu gostaria que a mudança fosse estimulada por um claro desejo de melhorar nossa vida e a dos outros em vez de por energias destrutivas como a vergonha ou a culpa”.

“Se o modo como nos avaliamos nos faz sentir vergonha, e, em consequência disso, mudamos nosso comportamento, estaremos permitindo que nosso crescimento e aprendizado sejam guiados pelo ódio por nós mesmos. A vergonha é uma forma de ódio por si próprio, e as atitudes tomadas em reação à vergonha não são livres e cheias de alegria. Mesmo que nossa intenção seja a de nos comportarmos com mais gentileza e sensibilidade, se as pessoas sentirem a vergonha ou a culpa por trás de nossas ações, será menos provável que elas apreciem o que fazemos do que se formos motivados puramente pelo desejo humano de contribuir para a vida”.

Para Marshall, existe uma palavra em especial com enorme pode infligir medo ou culpa: o verbo dever.

  • “Eu deveria ter feito aquilo”.
  • “Eu deveria saber”.


É um verbo que nos faz resistir ao aprendizado, uma vez que ele implica que não temos escolha. Deveria ter feito isso e pronto. O ser humano tende a resistir a qualquer tipo de exigência, porque a exigência ameaça a nossa autonomia. Temos a forte ncessidade de termos escolhes.

tudo é questão de escolha
tenho que é um verdadeiro fardo!

Uma outra expressão semelhante é o “tenho de”:
  • Eu realmente tenho de parar de fumar.
  • Eu tenho que fazer alguma coisa a respeito.

Nós não nascemos para ceder a tirania, mesmo que seja tirania interna. E quando a gente cede, o movimento vem de uma energia que carece de alegria de viver.

Traduzindo Julgamentos sobre si mesmo e exigências internas.


“Julgamentos de si mesmo, assim como todos os julgamentos, são expressões trágicas de nossas necessidades insatisfeitas”.

“Quando continuamente nos comunicamos com nós mesmos por meio de julgamentos, culpa e exigências internas, não surpreende que a auto-imagem corresponda ao sentimento de que somos ‘mais parecidos com uma cadeira do que com um ser humano’”.

Uma das premissas da CNV é entender que julgar alguém como errado ou agindo mal, na verdade significa que essa pessoa não está agindo em harmonia com as nossas necessidades. O mesmo vale para os julgamentos internos que fazemos a nós mesmos.

O desafio nesses momentos em que estamos fazendo algo pouco enriquecedor a nós mesmos, é conseguirmos uma autoavaliação que busque uma mudança:

  1. na direção em que gostaríamos de ir, e
  2. por respeito e compaixão para com nós mesmos, em vez de por ódio, culpa ou vergonha.


O luto na CNV 


Na CNV, o processo de luto ajuda-nos a entrar em conexão plena com as necessidades insatisfeitas e com os sentimentos gerados quando fomos menos que perfeitos. É uma experiência de arrependimento que nos ajuda a aprender com o que fizemos, sem nos odiarmos.

É muito difícil pensar o tempo todo só em termos de necessidades. Mas, da mesma forma que aprendemos a traduzir julgamentos, podemos reconhecer quando o diálogo interno é negativo e mudar o foco da atenção para as necessidades subjacentes.

“Quando a consciência se concentra naquilo que de fato precisamos, somos naturalmente impelidos a agir em direção a possibilidades mais criativas para que aquela necessidade seja atendida. Ao contrário dos julgamentos moralizadores de quando nos culpamos, que tendem a obscurecer tais possibilidades e a perpetuar um estado de autopunição”.

 Perdoando a nós mesmos


“Perdão a nós mesmos na CNV: conectar-nos com a necessidade que estávamos tentando atender quando tomamos a atitude da qual agora nos arrependemos”.

Estamos sempre a serviço de necessidades e valores. Isso é verdadeiro tanto se a ação atender à necessidade quanto se não atender a ela, fazendo-nos comemorar ou arrepender.

No arrependimento, podemos nos perguntar:

  • "Quando me comportei da maneira da qual agora me arrependo, qual de minhas necessidades eu buscava atender?"


O perdão a nós mesmos ocorre no momento em que a conexão empática acontece. Somos então capazes de reconhecer que nossa escolha foi uma tentativa de servir à vida, mesmo que o processo de luto tenha nos mostrado como ela falhou em atender a nossas necessidades.

a compaixão começa dentro de você
Um processo que pode ser aliviador.

“Um aspecto importante da autocompaixão: sermos capazes de ter empatia por ambas as partes de nós mesmos: a parte que se arrepende de uma ação passada e a parte que executou aquela ação”.

Não faça nada que não seja por prazer


“Queremos agir motivados pelo desejo de contribuir para a vida, e não por medo, vergonha ou culpa”.

Essa parece ser uma ideia realmente radical. Mas é essencial a autocompaixão. Quando temos consciência do propósito enriquecedor para a vida que está por trás de uma ação que fazemos, então até o trabalho duro contém um elemento de prazer.
Toda atividade que poderia ser prazerosa deixa de sê-lo se for executada por obrigação, medo, dever, culpa ou vergonha, e acabará gerando resistência.

Substituindo o “tenho de fazer” por “escolho fazer”


Marshall nos oferece um pequeno e poderoso exercício que nos ajuda a substituir o “tenho de” pelo “escolho fazer”.

Primeiro passo:


O que você faz em sua vida que você não sente ser prazeroso? Relacione num pedaço de papel todas as coisas que você diz a si mesmo que tem de fazer, qualquer atividade que você deteste mas faz assim mesmo, porque percebe que não tem escolha.

Segundo passo:


Depois de completar a lista, reconheça claramente para si mesmo que você está fazendo essas coisas porque escolheu fazê-las, não porque você tem de fazê-las. Coloque a palavra escolho na frente de cada item que você listou.

Terceiro passo:


Depois de ter reconhecido que você escolheu fazer uma atividade específica, entre em contato com a intenção por trás da escolha completando a frase: "Escolho ____ porque quero _____”.

Esse pode ser um passo difícil de identificar inicialmente. Mas uma vez que identificamos, podemos mudar a natureza da nossa energia de ação.

“A cada escolha que você fizer, esteja consciente de que necessidade ela atende”.

Cultivando a consciência da energia por trás de nossas ações.


Ao explorar o terceiro passo do exercício, podemos descobrir que existem alguns valores importantes pra nós por trás das escolhas que fazemos. Ganhamos clareza a respeito da necessidade que está sendo atendida. E aquilo pode se tornar prazeroso, mesmo que envolva trabalho duro, desafios e frustrações.

Contudo, na sua lista, você pode descobrir algumas motivações como:

Por dinheiro:


Uma recompensa cultural extrínseca, o dinheiro não é uma necessidade, tal como definimos em CNV. Mas um dos inúmeros meios que se tem para atender uma necessidade humana.

As escolhas motivadas por um desejo de recompensa acabam custando caro: elas nos privam da alegria de viver que vem das ações que são baseadas na clara intenção de contribuir para uma necessidade humana.

Por aprovação:


Assim como o dinheiro, a aprovação também é uma espécie de recompensa extrínseca.

Nossa cultura nos treina a ter fome de recompensas. São atributos utilizados para nos motivar desde a escola.

Trabalhamos duro para comprar amor e saciar nosso ego. Ser o “bom aluno”, o “bom funcionário”, o “bom filho”, a “boa mãe”, a “boa chefe”... Conquistar as recompensas e troféus e evitar a punição que cabe aos maus. Sempre dependentes do feedback externo.

O reconhecimento de que escolhemos usar nossa capacidade para servir à vida e que fizemos isso com sucesso nos traz a verdadeira alegria de celebrar a nós mesmos de uma maneira que a aprovação dos outros nunca poderá nos oferecer.

Para evitar uma punição:


“Alguns de nós pagam imposto de renda para evitar a punição. Como consequência, é provável que nos aproximemos disso com certo grau de ressentimento. Eu me lembro, porém, de como em minha infância meu pai e meu avô pensavam de modo diferente. Eles haviam emigrado da Rússia para os Estados Unidos e tinham vontade de apoiar um governo que eles acreditavam. Imaginando as muitas pessoas cujo bem-estar estava sendo garantido pelo dinheiro de seus impostos, eles sentiam um sincero prazer ao mandarem seus cheques para o governo americano”.

Um exemplo de difícil aplicabilidade no Brasil atual, no entanto, suficientemente ilustrativo.

Para evitar a vergonha:


Existem tarefas que escolhemos fazer simplesmente para evitar a vergonha. Sabemos que, se não as fizermos, acabaremos sofrendo um severo julgamento sobre nós mesmos. Essa motivação, geralmente, faz com que detestemos aquilo.

 Para evitar culpa:


Às vezes agimos por medo de não satisfazer a expectativa do outro e isso é extremamente desgastante.
Há um mundo de diferença entre fazer alguma coisa pelos outros para evitar a culpa e fazê-la por causa de uma clara consciência de nossa própria necessidade de contribuir para a felicidade de outros seres humanos. A primeira alternativa representa um mundo cheio de infelicidade; a segunda, um mundo cheio de prazer.

Por dever:


Segundo Marshall, uma linguagem que nega a possibilidade de escolha, é uma linguagem perigosa. E isso faz todo o sentido. Foi esse tipo de linguagem burocrática que permitiu obediência cega e passividade por parte dos solados e agentes diante do cruel e desumano holocausto nazista, por exemplo.

Há sempre uma opção. E pode parecer radical, mas é possível fazer as coisas somente por prazer. Acredito que à medida que nos engajamos de momento a momento no prazer de enriquecer a vida - motivados somente pelo desejo de enriquecê-la - nos compadecemos de nós mesmos.

Esteja consciente das ações motivadas pelo desejo por dinheiro ou pela aprovação dos outros, ou pelo medo, vergonha ou culpa. Saiba o preço que você paga por elas.

Até o próximo capítulo!





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Relacionamentos abusivos: o que é, como acontece e como você pode se ajudar ou ajudar alguém.

2018/03/08 | Nenhum comentário | |


Relacionamentos abusivos


Você está sofrendo violência em seu relacionamento?
Conhece alguém que está e gostaria de ajudar?

Essa é uma questão de saúde pública delicada, importante e que afetas muitas mulheres no nosso país.

Pollyanna Abreu, psicóloga especializada em Terapia Comportamental (análise do comportamento), veio ao O Espaço pra falar um pouquinho pra gente sobre relacionamentos abusivos. Um tema de saúde pública delicado, importante e que afeta muitas mulheres.

A Polly se dedica e desenvolve muitos trabalhos sobre o tema. Ela está aqui no grupo com a gente e também atende em Belo Horizonte.

E-mail: pollyannaabr@gmail.com
Cel.: 31 99283-8113

Ela nos traz muita informação interessante. Informação que pode ajudar a salvar e libertar alguém que precisa. Por isso gostaria de te pedir para compartilhar com o máximo de pessoas que conseguir, ok?

Segundo relatório da ONU, 1 em cada 3 mulheres no mundo vai sofrer violência algum momento de sua vida.  Alguém próximo pode estar precisando receber este material.

Informação é liberdade.

Abaixo, transcrição completa da entrevista:




Então, o que é um relacionamento abusivo?  Quais os tipos de abuso?


Abuso verbal/psicológico e/ou fisicamente: desde um chacoalhão, um aperto mais forte no braço, beliscão, até tapas na cara, espancamento, ameaça com facas e outros objetos, pressionar ou obrigar o parceiro a ter relações sexuais ou impedir o controle de natalidade/uso de preservativo e perseguição, cárcere privado, tortura e  feminicídio ( termo que designa o assassinato de um mulher por razões estritamente de gênero).

A violência psicológica também pode ocasionar a morte da vítima, seja porque o maltrato evolui à agressão física ou porque a própria vítima se mata de tão deprimida que fica.

Existe também o abuso de ordem financeira/patrimonial se caracteriza, quando o parceiro proíbe o outro de trabalhar, controla o gasto do dinheiro, proíbe o acesso a contas bancárias, não envolve em planejamento financeiro, entre outras ações.

Começou a ser reconhecido também o abuso de ordem tecnológica, que se manifesta pelo controle das redes sociais, como, por exemplo, dizer quem se pode adicionar ou não ao perfil, pela insistência em obter senhas pessoais das redes do parceiro (a), monitoramento de celular e outras ações.

Existem dois cenários: a mulher que está em um relacionamento ou  já esteve em um ou a mulher que já esteve em vários, então ela tem um padrão de se relacionar assim.

Quem tem um padrão de sair de um relacionamento abusivo e ir para outro, teve uma família desajustada e cresceu com sua capacidade de se relacionar e de sentir prejudicada. Sempre tem atração por homens que não têm nada a  oferecer, e que não querem o que ela tem a oferecer-lhes.

Ela acha o homem instável é excitante, o não-confiável é desafiante, o imprevisível é romântico, o imaturo é charmoso. Ela não tem atração por homens com quem não tem conflitos, acha ele tediosos e bobos.

Esta determinada a salvá-lo através da força do seu amor.

Apesar de focar hoje nas mulheres em um relacionamento abusivo vale ressaltar que não tem classe social, gênero, raça ou orientação sexual.

relacionamento abusivo como saber se estou em um

Quais são os sinais/ situações de que você esta em um relacionamento abusivo? Como perceber?


As vezes para a mulher é muito difícil admitir que algo esta errado no relacionamento ou até mesmo perceber que esta em um.

Temos vários indicativos de que você possa estar em um relacionamento abusivo: ciúme e possessividade exagerados; controle sob as suas decisões e ações; querer te isolar até mesmo do convívio com amigos e familiares; desqualificação da companheira e a humilhação, a impressão é a de que você nunca fala nada de bom e está sempre completamente equivocada, você começa a questionar sua própria compreensão da realidade, será que to louca? As ações dele fazem você se sentir estranha ou questionar se o que aconteceu foi normal. E as vezes o parceiro fala que você é louca, que ninguém nunca vai te amar como ele, que você não vai encontrar ninguém.

Pode ser que ele queira que você troque de roupa. Que tire seu batom vermelho. Ou não goste que você tenha amigos homens. Ou, ainda, tente controlar onde você "pode" e "não pode" ir e com quem.

 

Ele faz você sentir que a culpa por ele ser agressivo ou ameaçador é sua.


Você não tá a fim de transar, mas ele insiste. Ou então você "acaba cedendo" porque quer agradá-lo. Ele faz você se sentir culpada ou na obrigação de satisfazê-lo. E pode acontecer o estupro mesmo.

Durante alguma briga, ele te segurar com força deixando as marcas dos dedos deles nos seus braços, ou quando ele tenta te abraçar à força quando você não quer mais ficar perto dele.

 

A mulher acaba cedendo as vontades dele para evitar brigas.


E tem alguns processos que acontecem e dificultam o reconhecimento de abuso: nem tá tão ruim assim, posso suportar mais ainda. Confundir ciúmes e controle com cuidado também não ajuda.

relacionamento abusivo como identificar


Ciclo da agressão

 

O Ciclo da agressão é um ciclo bastante perigoso: acontece a violência física e/ou verbal, vem a briga onde ele é agressivo ou explosivo, depois vem o período de lua de mel onde ele promete que não vai mais fazer/ falar isso. É quando ele se mostra arrependido, chora, diz que sabe que fez merda, promete que vai mudar, que vai fazer terapia, te dá presentes, fala o quanto te ama, te valoriza, te ouve, muda de sapo para príncipe. Nesse momento ele é incrível. Da a sensação que ele mudou de verdade ou que foi uma agressão isolada. É nessa hora que a mulher desiste de denunciar o abusador ou desiste de sair do relacionamento.


Nesse período, parece que vai ficar tudo bem. Mas pode demorar horas, dias, um mês, um ano: o ciclo da agressão sempre dá a volta. Mas, entre uma volta e outra, as agressões podem se tornar piores.  Da agressão verbal pode ir para a física, e do tapa na cara pode ir para o espancamento e feminicidio.

O cara abusador é bom em outras coisas, tem atitudes generosas, é simpático, trabalhador, inteligente, um bom amigo, com todas as outras pessoas, ele é ótimo, mas é extremamente violento com a companheira, no espaço privado.

Isso torna a cena confusa. A dúvida acaba quando você se vê em um hospital, precisando de atendimento médico, após receber chutes e socos na cabeça.

Às vezes a situação fica muito pior e incontrolável antes que a mulher admita que precisa de ajuda e dai as coisas começam a melhorar.

Dados

Uma em cada três jovens já vivenciou algum tipo de abuso em suas relações amorosas. A violência física, sexual ou psicológica continua a marcar a vida de três em cada 10 nordestinas. 

Realizado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com o Instituto Maria da Penha, mostrou que 4 em cada 10 mulheres crescidas em um lar violento acabam sofrendo a mesma violência na fase adulta, Ao mesmo tempo, 40% dos parceiros que cometem agressões também residiram em lares violentos. Fenômeno definido pelos pesquisadores como "transmissão inter-geracional de violência doméstica".

Segundo o Mapa da Violência 2015 | Homicídio de Mulheres no Brasil, duas a cada três vítimas de violência atendidas pelo SUS são mulheres.

relacionamentos abusivos como enfrentar


Negras e pobres sofrem mais violência: com o aumento da renda, a vulnerabilidade da mulher diminui. 

O Nordeste é mais desassistido do que as regiões Sul e Sudeste no que tange às políticas para mulheres. Os homens também devem ser inseridos dentro das políticas públicas de combatem a violência doméstica. Uma política como esta, que tenta verificar o comportamento masculino e melhorar esse comportamento sem dúvida pode ser muito benéfica.

A pesquisa também revela que a violência doméstica prejudica a vida profissional das mulheres no Nordeste, o salário das mulheres vítimas dessa violência é 10% menor do que o de mulheres que não sofrem dessas opressões, além disso, a duração média no emprego é 21% menor quando comparadas com mulheres que não sofrem violência doméstica.

Entre 84 países, o Brasil é o sétimo no ranking de assassinatos de mulheres. Além disso, segundo o Ministério da Saúde, são de 40 a 50 mil atendimentos anuais devido à violência doméstica. Maior parte das mulheres assassinadas, no país, está na faixa dos 20 aos 39 anos. Dois terços dos casos denunciados foram os companheiros ou ex companheiros.

Quando a gente junta esses números e olha de forma estatística, você vê que não se trata de um problema doméstico, individual, mas sim de saúde pública, de educação. Tudo o que esta mulher está passando a vizinha tá passando, a mulher da rua de baixo está passando, a mulher de outro bairro está passando.

O que fazer então? Denúncias, tratamento e como ajudar


Educação, punição e proteção seriam a tríade a ser colocada em prática para evitar que mais mulheres sejam agredidas.

Conversar sobre, muito.. precisamos falar disso, em todos os lugares, para todos os tipos de pessoas. Mudar a forma como nossa cultura vê o amor. Tanto sofrer por amor como ser viciada num relacionamento são fatos romantizados por nossa cultura. De música popular a ópera, de literatura clássica a romances mais suaves, de novelas a peças teatrais e filmes aclamados pela crítica, somos rodeados de inúmeros exemplos de relacionamentos não recompensadores e imaturos que são glorificados e exaltados. Mais e mais esses modelos culturais dizem-nos que a intensidade do amor é medida pela dor que causa, e que aqueles que sofrem realmente amam realmente.

Infelizmente o nosso sistema penal ainda é muito frágil com os casos de violência doméstica. O motivo de ficar na relação abusiva pode estar associado ao medo!

Ainda assim é muito importante ir até a delegacia da mulher e fazer um boletim de ocorrência. (abuso psicológico é considerado tortura emocional, pode denunciar)

Você pode conversar com alguém de sua confiança, ligar para o 180, a Central de Atendimento à Mulher que funciona sete dias por semana e 24 horas por dia, ou procurar uma Delegacia da Mulher. Disque 100 (direitos humanos).

É de extrema importância iniciar terapia e procurar uma rede de apoio, grupos…

Perceber que não é a única a passar por aquela situação pode ser libertador. Nem sempre percebemos o que está acontecendo e falar pode te fazer entender melhor a situação. "Quando a mulher tenta falar e descrever as situações, ela percebe que aquilo não é normal ou natural", 

Conversar com amigas e familiares sobre o assunto. É importante difundir a informação entre as mulheres.

Como ajudar a minha amiga/irmã/colega?
Apoio incondicional e paciência, em primeiro lugar. Se você presenciar uma discussão e perceber algum desrespeito, tem que meter a colher, sim! Muitas vezes, a pessoa que maltrata não percebe que está passando dos limites. Como ela não costuma escutar a companheira, escutar alguém que está de fora pode ajudar.

Denuncias feitas, com rede de apoio, terapia a pessoa começa a se conhecer mais e se planejar ao invés de tentar mudar outra pessoa.

Se relacionar prestando atenção se gosta da pessoa, se passa bons momentos juntos, se acho que ele é uma pessoa agradável.
Viver uma vida saudável, satisfatória e serena, sem depender de outra pessoa para ser feliz. E ai é possível um amor verdadeiro com proximidade e compartilhamento verdadeiro.

Se você está em um relacionamento abusivo ou conhece alguém que está em um relacionamento abusivo, procure ajuda.


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