Into the Wild - Prolongando um momento de reflexão. - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática Into the Wild - Prolongando um momento de reflexão.

Into the Wild - Prolongando um momento de reflexão.

2016/06/21 | 7 comentários | |


Na natureza Selvagem - ônibus mágico



Você acabou de formar na faculdade com notas excelentes que o qualificam a dar continuidade aos estudos em uma das melhores universidades do mundo. E, para isso, você conta com uma boa reserva financeira, que fará tudo correr da maneira mais tranqüila possível.


Um grande potencial, uma carreira brilhante se desenha, a exemplo de seu próprio pai. 


Um jantar para celebrar com a família. Seus pais, satisfeitos e muito orgulhosos, lhe oferecem um carro novo para recompensar todo o seu esforço. 

Belo cenário, não? O que você faria em seguida?


Recusar o presente, mas recusar com veemência mesmo! Você não precisa de um carro novo! Não precisa de mais coisas! Doar todas as suas reservas para a caridade. Queimar o resto de dinheiro que sobrou. Abandonar o carro velho.

Abandonar o próprio nome. Cair na estrada sem deixar nenhum rastro. Em busca de respostas. Em busca da verdade, da sua verdade. Em busca do que acredita. 


Procurar a sua “revolução espiritual”, longe das amarras de uma sociedade doente. Experimentar a mais extrema forma de liberdade. Alcançar a felicidade plena vivendo Na natureza selvagem.


Foi isso o que fez Christopher Mccandless. E foi assim que nasceu Alexander Supertramp.


É mais ou menos isso o que conta o filme Into the Wild (2007). Dirigido por Sean Penn, uma adaptação do livro de mesmo nome de Jon Krakauer que conta a história das aventuras de Chris – ou Alex – pela América do Norte do início dos anos 90.


Por suas motivações, por sua visão de mundo, pelos encontros que tem durante o seu caminho e todas as vivências presentes nele, pelo seu jeito de pensar e viver o mundo, pelo desfecho de sua jornada e tudo o que aprendeu com ela...


Por isso tudo e talvez um pouco mais é que o filme é, de várias maneiras, provocante. Seja admirando sua ousadia ou rejeitando seu jeito exagerado de encarar a vida, Chris nos leva a reflexões acerca de nossa própria existência.


A Roda de Conversa.


No meio de um mundo acelerado, são valiosos os momentos que conseguimos parar e considerar a nossa vida, as escolhas que estamos fazendo e o caminho que percorremos. 

Então porque não prolongar estes momentos um pouco mais? Foi pensando nisso que nós nos juntamos com a Vínculo Psicologia para realizar uma Roda de conversasobre o filme.


Na natureza Selvagem - Roda de Conversa
Diga Supertraaammpp!

Pessoas diferentes, com diferentes questões e percepções, instigadas de várias maneiras juntas para bater um papo sobre a obra de Penn.


A idéia era prolongar este momento um pouco mais, mas com bastante diversidade, em um formato livre, sem roteiro, sem condução. Apenas pessoas dividindo e somando. Dividindo experiências e somando vida.


Uma amiga havia perguntado se faríamos uma filmeterapia. Outra se exibiríamos o filme. Mas na verdade, nós só queríamos conversar. Horizontalmente. E extrair o que há de melhor nisso.


Na natureza Selvagem - Roda de conversa


De que vale a vida, senão as trocas?

E como trocamos! Com o ambiente acolhedor preparado pela Vínculo, ficamos à vontade para troca positiva que vem através da conversa. Do falar e do escutar. Entregamos um pouquinho e saímos com um pouquinho a mais. E isso é prazeroso demais.


Mas se foi tão bom, então porque não damos uma última prolongadinha? É por isso que escrevo este texto!


Gostaria muito de poder colocar aqui tudo o que foi dito na roda, mas é impossível pela quantidade de informações que trocamos.

Ao invés disso, separei três grandes coisas que abordamos lá, que me marcaram e que considero como três pontos altos do nosso encontro (três entre muitos outros).


Se você ainda não viu o filme, recomendo que pare esta leitura aqui para assistir. Depois traga suas percepções para, quem sabe, prolongarmos mais uma vez ali na sessão dos comentários?



1) Um jovem que não se encaixava.

“Ao invés de amor, dinheiro, fé, fama, justiça… dê-me a verdade”.


Disse Chris, citando Thoreau, quando perguntado à respeito do cuidado de seus pais.


É muito claro que Chris carregava um enorme ressentimento para com seus pais. Um casal que, para ele, vivia de aparências, mentiras e vaidade. Um casal que, apesar de bem sucedido financeiramente, não se importava em machucar os filhos em meio às tantas batalhas egocêntricas dentro de casa. Mas que fazia questão de se mostrar a família perfeita fora dela.


Chris tinha na figura dos pais, o retrato das relações mentirosas e via tudo isso refletido em uma sociedade contaminada, à qual havia decidido abandonar.

“Há dois anos ele caminha pelo mundo sem telefone, piscina, carros, nem cigarros. A liberdade máxima. Um extremista. Um viajante esteta cujo lar é a estrada. E agora, depois de dois anos errando, vem a última e maior aventura. A batalha culminante para matar o falso ser interior e concluir com vitória, a revolução espiritual. Sem continuar a ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha solitário pelo mundo para se perder em meio à natureza.”



Envenenados pela civilização, somos reféns do ego, das conquistas, títulos e posses.

Eu sou a minha formação, sou a minha carreira, o meu sucesso. Sou a minha religião, sou a minha inteligência, sou a minha esperteza. Eu sou quantidade de pessoas que enganei, a quantidade de mulheres que me deitei, a quantidade de homens que rejeitei.

Mas essas são coisas do ego e o ego mascara as nossas relações.
Faz com que elas sejam hierarquizadas. Faz com que olhemos sempre para cima ou para baixo. Nunca na mesma altura. Sempre comparando.

Faz com que, a partir disso, sejamos arrogantes e mentirosos, e que sintamos vergonha, medo, desprezo e raiva. Sempre nos comparando. Confundindo quem somos com o que temos. Sempre querendo mais.

Mascarando, assim, o contato verdadeiro entre os seres. É o teatro social. Criando uma barreira pra aquilo que poderia vir a ser uma troca genuína, uma relação sincera.


Sem fugir para o Alasca, cabe a pergunta para dentro de nós mesmos: até que ponto o ego determina as minhas ações?




2) Coragem e Covardia, o paradoxo

Chris se mostra extremamente corajoso em suas ações. Por tudo o que ele faz após a formatura até o fim de seus dias.


E essa coragem é representada de uma forma muito forte e simbólica quando ele, no início de sua jornada, resolve enfrentar o seu medo de água e pula no mar.


Nesse sentido, a água continua ter um significado expressivo durante todo o filme: ao descer as correntezas sem os devidos equipamentos de segurança e sem preparação; ao cruzar o rio e encontrar o ônibus mágico; ao tentar cruzá-lo de volta para deixar o Alasca.

Ele decidiu fazer diferente. Encarar o desconhecido. Arriscar. Em busca do que realmente acreditava. Optou por fugir da cautela. Nada podia pará-lo. Muita força, ele ia sempre adiante.



Mas lhe faltou coragem para uma coisa: enfrentar realmente os problemas que o incomodavam dentro de casa. E é aí que mora o grande paradoxo. 


Ao terminar o ensino médio, Chris descobre a que talvez seja a maior mentira contada por seus pais: a história de amor deles e o belo casamento.


Na verdade, seu pai já era casado, sua mãe era uma amante e ele e sua irmã, filhos bastardos.


Entretanto, ele escolheu não confrontá-los. Escolheu fingir que não sabia e se manter em silêncio. Escolheu, ainda que indiretamente, alimentar o ódio e o ressentimento.


Quer dizer que tudo se tratava então de uma grande fuga? Chris foi assim, corajoso ou covarde?

Riquíssimos debates nascem dessas questões.


O que não podemos negar é que essa fuga também foi uma forma de comunicação poderosa e que, por fim, surtiu efeito. 


Talvez não houvesse outra forma de fazê-lo...


3) A felicidade que se encontra na jornada.

Viver na Natureza era o grande objetivo de Chris. Viver longe da civilização e suas amarras, a verdadeira liberdade , a alegria na apreciação das coisas criadas por Deus. 


Ele precisava chegar ao Alasca. E ali experimentaria a felicidade. Ali se desintoxicaria. Ali, e somente ali, ele seria pleno.


Percebe mais um paradoxo? Percebe como isso se aproxima do jeito em que a sociedade ansiosa e contaminada busca felicidade?


Veja como estamos sempre esperando para ser feliz, sempre esperando para alcançar algo. Estude e forme-se, então será feliz. Arrume um emprego e então será feliz. Seja bem sucedido e então será feliz. Case-se e então será feliz. Tenha filhos e então será feliz. Aposente-se e então será feliz.


Passamos a maior parte da vida navegando descontentes. Esperando que o destino final nos ofereça alguma espécie de plenitude


Assim nos esquecemos de aproveitar cada passo da caminhada, aproveitar a jornada e sentir-se completo com ela.


E só depois de chegar lá é que percebemos o tanto que a caminhada foi bonita. “Eu era feliz e não sabia”.


E foi mais ou menos essa a conclusão de Chris no Alasca, seu destino. Só então entendeu que havia experimentado felicidade verdadeira na sua caminhada, com as pessoas que conheceu.

Com as pessoas que afetou e foi afetado, sem ego, sem mentiras e sem vaidade, ele compartilhou genuinamente com aquelas pessoas.

Ele entendeu que teve uma vida feliz.


Teria Chris caído na mesma armadilha que nós caímos todos os dias?


Eu, sinceramente, não sou capaz de responder essa. E você?


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Grande abraço!

7 comentários:

  1. Ótimas questões, principalmente sobre o que determina as nossas ações. Sempre penso o quanto determinada ação é uma vontade minha ou apenas algo imposto sem que eu perceba. Será que conseguimos distinguir ou será tudo a mesma coisa ?

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    1. Excelente questão! O que está por trás dos nossos desejos?

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  2. Filme muito provocante, confesso que terminei de assistir e fiquei meio "abobada", muitas coisas se passam na cabeça. Achei Chris obcecado por suas ideias como mtas pessoas da sociedade em geral que só serão felizes após formar, conseguir um emprego, casar, para ele, só alcançaria a felicidade se chegasse ao Alasca. Muito rico o texto levantou questões que não havia parado para refletir. Parabéns ! =)

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    1. Que bom que gostou!! Realmente o Chris nos passa essa impressão.
      Volte sempre =))

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    2. Que bom que gostou!! Realmente o Chris nos passa essa impressão.
      Volte sempre =))

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