O Diletante, O Obsessivo e O Picareta... Qual deles é você? - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática O Diletante, O Obsessivo e O Picareta... Qual deles é você?

O Diletante, O Obsessivo e O Picareta... Qual deles é você?

2016/07/05 | Nenhum comentário | |

o fósforo da maestria, o espaço


Muito bem minhas amigas e meus amigos.

Este é mais um texto inspirado na obra Maestria, de George Leonard, também é uma sequência do artigo Como ser um Mestre em qualquer coisa.

E é com imenso prazer que eu vos escrevo.

Como vimos no texto anterior, para aprender de verdade uma habilidade nova, seja ela qual for, é necessário percorrer um longo caminho. Caminho este que nos coloca à prova, testa nossos limites e paciência.

O aprendizado se dá em picos, seguidos de pequenas recaídas e longos períodos de estagnação:

maestria, mastery, george leonard, o espaço
A jornada de um mestre


Se manter nesse caminho, é se manter no caminho do mestre. Fazendo escolhas saudáveis e se empenhando a cada dia. Porém, convenhamos, isso não é nada fácil.

Por passar a maior parte do tempo em estagnação, você se sentirá frustrado. A sensação de não estar saindo do lugar é doída. Por isso vivemos esperando uma pontada de clímax para conseguir sentir felicidade. A nossa caminhada é indesejada e vista com pesar.


A verdade é que não temos tempo pra apreciar esses períodos. O mundo nos cobra resultados o tempo todo. Sólidos e imediatos. E nós nos cobramos ainda mais.

Não conseguimos saborear as etapas do processo, nem o processo em si. Não conseguimos planejar um trabalho próspero baseado em longo prazo.

Queremos atingir a excelência pra ontem. Ou não serve. E assim, à procura de fórmulas mágicas, nos auto-sabotamos.

 -- Conheça nosso texto Como ser um Mestre em qualquer coisa e entenda a curva da maestria em detalhes.

O caminho da excelência não oferece recompensas rápidas e fáceis, por isso buscamos atalhos ou escapes em outras trilhas.

Na esmagadora maioria das vezes, a auto-sabotagem se personifica em três curiosos personagens: o diletante, o obsessivo e o picaretaMuito familiares, estou certo de que você se reconhecerá em pelo menos algum deles.

Conhecê-los é provavelmente conhecer a si mesmo, jogar a luz do entendimento à forma como você reage a situações dificultosas e ter a opção de transformar essas reações, quando indesejadas, em ações positivas.

Ampliar o autoconhecimento é ampliar a capacidade de decisão frente à vida!

Vamos lá:

O Diletante


Começando com o tipo deslumbrado, sonhador e, às vezes, exibido.

O diletante é aquele que sempre se entusiasma com a novidade. Ele se interessa por cada esporte, atividade, carreira, oportunidade ou relacionamento com brilho nos olhos.

Ama os rituais de início, comprar os equipamentos novos, ler coisas a respeito... Rapidamente se sente parte daquilo. Tira uma foto pro Insta, outra pro Snap...

Traça planos para o futuro, desenha na sua cabeça o enorme sucesso que vai alcançar com aquela atividade e começa cheio de gás.

Ao alcançar o primeiro pico da curva, ele se sente alegríssimo. Conta para a família, pros amigos e pras pessoas que vê na rua. Mal conseguindo pensar em outra coisa, o diletante fica ansioso pra estar em contato com sua atividade.

Mas em seguida, vem a primeira queda pós pico e a estagnação. E com elas, o nosso amigo vai se murchando. Desanimado, o diletante vai perdendo o encanto e buscando justificativas que desqualificam aquele objetivo.

Essas justificativas são racionalizações, desculpas lógicas que dão ao diletante a chance de abandonar aquela atividade de consciência limpa.

Logo ele inicia outra, com idêntica empolgação e tudo se repete.

Ser um diletante é como querer iluminar a vida com uma caixinha de fósforos. Você acende um palito, ele brilha intensamente e em alguns segundos se vai. Você acende outro. E mais um.

Em todos eles, você pensa que está acendendo uma boa vela. Mas não está. Então você culpa o palito, abre a caixinha e pega o próximo.

O Diletante, Maestria O Espaço
Os pulos do Diletante


Nos Esportes:


Ele está constantemente namorando um novo esporte. Ama comprar os quimonos, as luvas, os tênis, faz planos, pensa na primeira maratona que vai conseguir correr, pensa na sua faixa preta, no corpo sarado.

O diletante sonha com as conquistas, mas sem nenhuma robustez. Não pensa no sacrifício e na dedicação. Não imagina que irá suar.

Com a primeira estagnação, a motivação vai sumindo e ele começa a perder as aulas e os treinos. “Não foi assim que imaginei poxa”, o inconsciente grita sem ele perceber.

As racionalizações surgem para dar voz a “diletada”.

“Isso não é pra mim”. “É pesado demais”. “É leve demais”. “É violento demais”. “É chato demais”. “É regrado demais”. “É competitivo demais”. “É não-competitivo demais”.

Com isso, ele está psicologicamente livre para se aproximar de outro esporte. Pode ser que no próximo vá um pouco mais longe, pode ser que não.

No trabalho:



O diletante costuma ter um extenso currículo. Entra com tudo nas entrevistas e testes. Projeta salários, subidas de cargo, espera crescer rapidamente.

Tem vários negócios em mente, quer empreender, espera fazer logo o seu primeiro milhão. Quer transformar a comunidade e enriquecer no processo.

Bem intencionado, mas ao se deparar com o mundo real... a frustração é inevitável. “Esse negócio não dá dinheiro, o lucro é muito baixo”. “O custo é alto”. “Não vai dar certo nunca”. “Esse emprego não dá futuro”. “Essa carreira não combina com o meu jeito”.

Enfrentar ou procurar outra coisa? O diletante vai sempre pra segunda opção. No fim, nunca realiza nada.


Nos relacionamentos:



Aqui nós temos um especialista na conquista. As pessoas diletantes adoram o jogo da paquera. A atmosfera envolvida, o mistério, o charme, as jogadas. As histórias e os truques são divertidos.

Na primeira esfriada pós-paquera, que é natural, ele rapidamente começa a olhar ao redor.

Para buscar a maestria em uma relação, é necessário mudar a si mesmo. Crescer, aprender e mudar, através dos prazeres e das dificuldades que envolvem estar em um relacionamento.

Mas isso é trabalhoso. É muito mais fácil pular para a próxima cama e recomeçar o processo.

O diletante se julga um aventureiro, um conhecedor do mundo e das novidades, contudo, na verdade, ele está mais próximo de ser uma eterna criança. Não amadurece. Os relacionamentos mudam, ele continua o mesmo.


O Obsessivo


Sabe aquela pessoa que tem o sangue no olho pra conseguir o que deseja? Mas de uma maneira violenta mesmo?

Aqui vale ressaltar que há diferença sutil entre ambição e obsessão.

Para o obsessivo só importam os resultados, custe o que custar. E o mais rápido possível, ele tem pressa. Assim como o diletante, ele não consegue apreciar o processo.

O obsessivo é maquiavélico.

Por mais consciente que você esteja em seu processo, depois de um pico, haverá sempre uma queda e uma estagnação eminente.

Mas o obsessivo não aceita essas etapas. Ele as burla. Trapaceia – muitas vezes contra ele próprio. Usa tudo o que tem disponível ao seu redor.

Sendo um oportunista nato, ele está sempre a procura de atalhos e muitas vezes desconsidera as conseqüências que esses atalhos podem trazer.

Ele não respeita o tempo de todas as coisas, os seus limites físicos, as pessoas que o cercam e etc.

No curto prazo, ele alcança alguns avanços descontrolados e que resultam, inevitavelmente, em uma queda brusca lá na frente. Fracasso certo.

Na analogia da caixinha de fósforos, ele acende o palito faz qualquer coisa para mantê-lo aceso, até queimar as próprias mãos.

obsessivo, maestria, mastery, o espaço
Sem escrúpulos, o obsessivo utiliza-se de tudo para tentar evitar uma estagnação. O resultado é inexorável

Nos esportes:


O obsessivo fica depois da aula. Conversa com o professor. Procura vídeos no Youtube. Quer fazer aulas extras. Não entende o valor do descanso ativo. Da recuperação.

Começa uma dieta radical. Ele adora dietas radicais, daquelas que você fica uma semana bebendo água.

Namora com os anabolizantes e outras substâncias perigosas, de uma maneira desregulada.

O obsessivo força a barra.

E também flerta com as lesões. Podendo ter que interromper seus treinos e retomar do zero, ou, pior, adquirir um problema crônico e nunca mais conseguir voltar para aquela atividade.

No trabalho:


Aqui, o obsessivo costuma ser o perfil desejado, infelizmente.

A busca destrutiva por metas cada vez maiores e em menos tempo que fazem com o que o gráfico do lucro cresça exponencialmente, ignorando todo e qualquer outro aspecto.

O lucro não é uma variável importante, ele é a única variável.

Sacrifica-se o funcionário, sua saúde mental e física, o meio ambiente, sonegam-se impostos, burlam tudo o que for possível para manter o crescimento a preço do que for necessário.

No seu emprego, o obsessivo não se importa de passar por cima dos seus colegas de trabalho, ele usa de todos os artifícios que tem em mãos para alcançar o que deseja. Os fins sempre justificam os meios.

Nos relacionamentos:


Na contramão do diletante, na primeira esfriada pós conquista, o obsessivo não começa a olhar ao redor, ao contrário, ele olha ainda mais pra dentro da relação, a procura de alguma coisa que possa evitar aquele processo natural.

Assim, ele se utiliza de coisas cada vez mais espalhafatosas pra manter a “chama” acesa. Presentes, surpresas, brigas, dramas, ciúmes... Tudo toma uma dimensão maior. A sua busca é através do exagero. Ele é apressado e, por diversas vezes, carente. Costuma ter a chantagem como uma arma.

Normalmente a relação termina de forma desastrosa, causando muito sofrimento às duas partes.



O Picareta


Este é o famoso acomodado. O picareta se contenta com o razoável, com o mais ou menos.

Querendo evitar a fadiga, ele busca poupar suas energias e se dá por satisfeito ao atingir um nível razoável no que se propõe a fazer.

O que ele não sabe é que quanto mais energia vital ele poupa, mais energia vital ele vai sentir necessidade de poupar.

Quanto menos se faz, menos se quer fazer. Assim, ao atingir alguns pontos de evolução, o picareta entra numa eterna fase de estagnação.

Ele não considera mais continuar crescendo. Não sabe nem se é possível. Para ele está bom. Vai levando.

O picareta é mediano. Nota 60. 59,5 pra arredondar. Entregue a preguiça, a procrastinação e ao comodismo, ele não tem disposição para enfrentar os desafios que a jornada da Maestria lhe oferece.

É aquele violeiro que não estuda a teoria e mal sabe o nome dos acordes, mas já está tranqüilo se consegue sentar numa roda com os amigos e fazer um sonzinho.


Trazendo a analogia da caixinha mais uma vez: o picareta acende um fósforo, olha a sua volta, vê a estrada iluminada, relaxa e para de caminhar. A chama se apaga e ele nem se dá conta. A vida passa e ele nem se dá conta.

picareta, the hacker, maestria, mastery o espaço
"Já sei me virar com estas coisas, tá tudo certo" - Assim age o picareta.


Nos esportes:


O picareta não consegue seguir uma dieta saudável por muito tempo, dando sempre uma avacalhadinha não planejada. Ele também nunca consegue completar uma semana de treinos ou de aulas sem faltas.

É aquele cara do futebol que tem preguiça dos treinos táticos e físicos, ele quer se divertir e fazer uns gols nos treinos coletivos.

Dificilmente estende sua distância de corrida ou diminui o tempo dos seus percursos. Dificilmente, também, aumenta suas cargas na musculação ou aprimora suas séries. Os seus treinamentos não possuem a consistência necessária para essas coisas.

Eternamente no limite do razoável, em determinado momento, o seu corpo se acostuma com a falta de progressão e suas atividades passam a não valer de nada.

No trabalho:


No âmbito profissional, o picareta é aquele que falta às reuniões, chega atrasado e sai mais cedo sempre que possível. Faz o mínimo necessário para permanecer ali.

Só busca uma especialização ou atualização em último caso, quando a sua situação cômoda está em risco e, quando isso acontece, também não se incomoda em se especializar em uma área que não é de seu interesse, desde que isso mantenha o seu dinheirinho caindo na conta no fim do mês.

O picareta não pensa no crescimento de seu negócio, na sua expansão saudável, pelo contrário, ele está ok com um retorno razoável e pretende manter aquilo pra sempre. O problema é que o mundo muda muito rápido e as necessidades dos clientes também, assim seus negócios tendem ao fracasso.

Nos relacionamentos:


Conhecer e se deixar conhecer são movimentos não tão simples e que requerem coragem. Um relacionamento é uma excelente oportunidade de autoconhecimento, de aprendizado e de desenvolvimento. Mas não para o picareta! Este só quer um cantinho para se esconder dos seus problemas.

Não se importa em buscar e aprimorar o diálogo, a comunicação, o entendimento e outros fatores essenciais, desde que ele tenha a relação como uma fuga do que o incomoda lá fora.

Normalmente utilizando o parceiro como uma muleta emocional, o picareta não se incomoda em estagnar suas relações por vários anos. 

Fazendo o mínimo de esforço suficiente para manter as coisas como estão.

É fácil perceber que cedo ou tarde a coisa desmorona, assim como no trabalho, nos esportes ou em qualquer outra atividade.

Não da para ser um picareta para sempre.

 Aonde me encontro?


Claro que as coisas não são tão lineares assim. Uma pessoa pode estar, por exemplo, seguindo o caminho da excelência na prática de tocar piano e, ao mesmo tempo, e ser obsessiva na prática da meditação.

Um jovem pode se mostrar um mestre na relação com a sua família – qualidade tão raramente trabalhada – e um tremendo picareta em seus estudos.

Quando conseguimos descrever, colocar em palavras, o que somos ou como nos comportamos, trazemos a consciência aquelas reações que costumam ser automáticas. Isso faz com que tenhamos a opção de lutar e tentar fazer diferente.

Dessa forma, podemos caminhar na direção da pessoa que gostaríamos de ser.

Essa é a verdadeira força!

Por isso, eu te proponho uma auto-análise:

- Quais os pontos da minha vida eu gostaria de seguir com maestria?
- E como estou agindo diante deles?
- O que me atrapalha?
- Apresento, eu, um perfil obsessivo, diletante ou picareta?



Para finalizar, se a resposta dessa última foi positiva e se você acha difícil mudar esse quadro, então eu vou dividir com você dois textos aqui mesmo do Espaço, que podem ser de boa valia: 

Um dos primeiros aqui do blog, mais simples e objetivo.


Um pouco mais recente, um texto mais completo e detalhado.





__________________________________
Gostou?
Pare de picaretar, clique aqui e ajude O Espaço a crescer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário