Raiva: das emoções negativas, a mais sedutora. - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática Raiva: das emoções negativas, a mais sedutora.

Raiva: das emoções negativas, a mais sedutora.

2016/08/12 | Nenhum comentário | |

Roberto tinha acabado de comprar um carro zero. Lindo, cheiro de novo, encantador. Ele se perdia admirando sua mais nova aquisição, uma obra de arte em forma de veículo. “Poucas pessoas entendem este sentimento”, dizia Roberto.

Maravilhosamente bonito por dentro e por fora, ele finalmente realizara seu grande sonho.

Com o melhor seguro em mãos e toda papelada pronta, Roberto sai para seu primeiro passeio. Ainda ficando íntimo da sua nova máquina, ele decidira dar umas voltas pelas ruas da vizinhança.

Foi quando, logo na primeira esquina, um carro velho e acelerado avançou uma parada obrigatória, jogando de forma imprudente e derrapando na pista, fazendo uma conversão perigosa e esbarrando no novo possante de Roberto, deixando um arranhão feio e grosso.

No banco do motorista, um jovem inconseqüente que foge em uma velocidade alucinante. Roberto não conseguiu anotar a placa.

Como você reagiria no lugar de Roberto? Pense por um segundo.

Raiva camaro amarelo
Putss.. o camaro amarelo não...




 A energia cega contra o mal


Imagine agora uma outra história, Pedro: alguém o fecha bruscamente na estrada. A sua primeira reação então é: “que merda!” Em seguida, o discurso interior: “sem noção, babaca, poderia ter causado um acidente, tomara que ele se foda”.

Pedro começa a apertar o volante com tanta força que os seus dedos ficam brancos, seus músculos travam e o coração dispara. Sua cara fica travada e os seus dentes rangendo. Seu corpo está pronto para enfrentar um inimigo.

Ele havia reduzido a velocidade a fim de evitar o acidente que a fechada poderia causar, quando o veículo que estava atrás buzina.

Pedro, então, explode.

Pateta raiva
!#!@!#@!


Assim começa o ciclo sem fim de um trânsito caótico, cheio de brigas, mortes e acidentes.

Das emoções negativas, a raiva é a mais sedutora. Ao contrário da tristeza, ela oferece uma sensação de força e de poder, traz consigo energia e exaltação.

Mas essa energia é ilusória, destrutiva e cega.

O cérebro constrói uma cadeia de pensamentos furiosos que servem de justificativa para a raiva. Um monólogo interior enche a cabeça de argumentos forçados para que se dê razão a reação emocional.
Como se fosse preciso e necessário, como se a raiva fosse a resposta mais óbvia para aquele momento.

Dolf Zillmann, psicólogo da Universidade do Alabama, numa série de detalhadas pesquisas, avaliou de maneira precisa a anatomia da raiva. Ele descobriu que o disparador universal dessa emoção é a sensação de estar em perigo, preparando o corpo para uma reação imediata.

Ataque de raiva
Alerta!! Uma ameaça a minha integridade!


Contudo, o perigo vai além de uma ameaça física direta: uma ameaça a auto-estima ou à dignidade – tratamento injusto ou  grosseiro, insulto ou humilhação, frustração na busca de um objetivo importante – são disparadores mais freqüentes.

Esses gatilhos possuem um efeito duplo no cérebro. Durante dois minutos, uma onda de energia é liberada deixando o corpo suficientemente pronto para uma boa briga ou para uma fuga rápida, reações respostas às situações de perigo.

Ao mesmo tempo, outra onda atua sobre todo o sistema nervoso criando um plano de alerta para riscos futuros. Esse alerta tem um alcance maior do que os dois minutos enérgicos, podendo durar horas e até mesmo dias, deixando o corpo de prontidão para uma nova ameaça.

Com certeza essa foi uma ferramenta de defesa do corpo fundamental para perpetuação da espécie humana.

Nos tempos em que vivíamos nas cavernas, com comida escassa e predadores por todo lado, um segundo de atraso poderia significar fome ou morte.

Mas pra hoje o que temos é: raiva gera mais raiva. Por isso, se você teve um dia estressante no trabalho, estará mais propenso a ficar furioso em casa com a família ou vizinhos. Coisas banais como o barulho das crianças poderia fazê-lo explodir.

Ataque de raiva
BIIRRL!

 O homem das cavernas em ação


Devido ao fator sedutor promovido pelo alto nível de excitação e energia provenientes da raiva, é comum que se diga que é necessário extravasar.

Você precisa colocar pra fora.

Certa vez encontrei um amigo dos tempos de escola na academia. Apesar de músculos fortes, ele estava desenvolvendo uma série de exercícios de braço sem quase nenhuma carga.

Após um tempo de conversas rápidas nos intervalos entre as atividades, ele me confessou que durante um acesso de raiva acertou um murro forte na parede, quebrou a mão e estava perdendo gradativamente a força em seus dedos.

Ele estava frustrado e arrependido: alguns segundos de fúria e todo o desenvolvimento naquele esporte fora comprometido.

Estes segundos são chamados por Daniel Goleman, em seu livro Inteligência Emocional, de sequestro emocional.

Quando o cérebro emocional – sistema límbico – enxerga uma emergência e recruta o resto do cérebro para agir em um plano de urgência, bloqueando assim a parte racional – neocórtex – que não consegue observar o que está acontecendo e nem se decidir se este plano de urgência é ou não um bom plano.

Normalmente após um sequestro emocional, nós não sabemos o que realmente aconteceu e nem o porquê agimos daquela determinada forma.

Ataque de raiva
Chrisss...


Ira gera ira, uma situação que desperta a irritabilidade quando repetida diversas vezes num intervalo de tempo faz com que a raiva se acumule. Como um filho fazendo pirraça sem parar em um ambiente público. A intensidade vai aumentando, o próximo pensamento raivoso é pior que o anterior.

Nesse ponto, o cérebro emocional esquenta. A ira, aprisionando a razão, explode em violência. A mãe, sem saber o porquê, da um tapa no menino pirracento que olha assustado.

Quando, baseado em momentos anteriores, o pano de fundo da raiva já se desenhou no cérebro, o próximo movimento pode ser completamente desprovido de razão e indiferente a qualquer conseqüência, se aproximar da vingança e represália

O alto nível de excitação traz uma ilusão de poder e invulnerabilidade que inspira a agressão. A pessoa furiosa e sem orientação cognitiva busca como resposta a brutalidade.

Assim, estamos entregues a mais primitiva das reações. Fortes e cegos. O sequestro emocional foi realizado. O homem das cavernas está no controle.

E ele é violento demais, mas nem sempre fisicamente. Às vezes a violência verbal causa um estrago maior e muito mais difícil de sarar.

Raiva encurta sua existência.


Salvo as – raríssimas – situações em que pode salvar a sua vida, a raiva nunca é uma boa idéia. Sua permuta é desvantajosa: toda sua racionalidade e capacidade de ponderação por um pouco de energia e uma ilusão de poder.

Como se não bastasse, o acúmulo de ira pode provocar estresse e diversos problemas físicos.

Acessos de raiva freqüentes produzem quantidades gigantes de cortisol e adrenalina, eleva a pressão sanguínea, além de bloquear substâncias essenciais para a digestão e outras funções do corpo.

Com isso, você pode sofrer de problemas cardíacos, gastrointestinais, dores de cabeça, enxaquecas, mudanças hormonais, desidratação, ganho de peso, anorexia, bulimia e derrame cerebral.

Claro, isso não é regra e sentir raiva de vez em quando não vai fazer com que todas essas coisas apareçam, algumas a probabilidade é maior em quem já tem uma tendência genética ou possui outros hábitos ruins.

Outras, como anorexia e bulimia, podem ser causadas por excessiva raiva acumulada e reprimida e possuem uma freqüência maior em crianças e adolescentes.

O problema está justamente no “de vez em quando”, tendo em vista que a fúria anterior é combustível para a próxima fúria. É por isso que devemos sempre vigiar e ter atenção com a freqüência em que deixamos esta emoção tomar conta.


Desarmando a bomba


Desarmando a bomba


Pois bem, está claro para nós que extravasar a raiva não é a melhor das opções. Porém reprimi-la também não é. O que deveríamos fazer então?

O segredo é desarmar a bomba, cortando o mal por sua raiz.

Vimos que a sustentação da raiva vem de uma cadeia de pensamentos furiosos que justifique todo o ódio, para que se dê vazão e se exploda como se fosse algo natural e bem elaborado.

Essa cadeia de pensamentos pode ser simples, assim como pode se estender a histórias mais desenvolvidas, que tentam justificar uma emoção alimentada em longo prazo.

Nos dois casos, estes pensamentos são base da raiva e a idéia é desconstruí-los. A sacada é perceber que eles são, salvo raras exceções, falsas racionalizações.

Separei três pensamentos dos mais comuns para analisarmos. De algum modo, quase todo julgamento de raiva passa por eles. Até mesmo os mais complexos.

Vamos a eles:
                                                                            

1) Isso me irrita. Isso é irritante.


Algumas pessoas nos irritam apenas pelo simples fato de existirem.

- Mas o que é que eu fiz?
- Nasceu.

Quando o santo não bate.

Outras parecem que fizeram curso de “como encher o saco”. O famoso chato. Aquele que adora cutucar e testar os limites de todos ao redor.

autocontrole


Mas onde está a sua paz?

Está na lata do seu carro novo? Está no silêncio da vizinhança? Na ausência do idiota? No sono da criança?

A sua paz está dentro de você ou está lá fora?

Quem ou o quê você concede o direito de te perturbar?

Há pessoas que concedem a tudo e todos. Basta que o semáforo feche. Basta que o elevador demore. Basta 1 minuto de espera.

Se sentir provocado é uma escolha. Escolhe mal quem tem uma tranqüilidade frágil.

A paz é como o reflexo da nossa imagem em um lago. Cada pedrinha que deixo cair é a perturbação daquela imagem.

Só posso me ofender, se não me conhecer. É o que diz o professor Leandro Karnal.

Se me conheço, se sei dos meus caminhos, meus passos, minhas limitações, o que me fortalece e o que ainda preciso trabalhar. Então qual a razão de me ofender?

Ao aceitar uma ofensa, eu revelo que não me conheço o suficiente. Que aquele que me ataca acaba de me mostrar uma verdade, a qual não era sabida por mim.

Ao rejeitar uma ofensa, eu desarmo aquele que me ataca. Não o restará nada mais além de sentar-se ao meu lado e compartilhar comigo.


2) Você não podia ter feito isso comigo. Isso é um absurdo/inaceitável. Jamais faria isso com você.


Este é um tipo muito comum: a raiva que nasce das expectativas.

Todos nós criamos expectativas e idealizamos as coisas, isso é normal e ok. Mas devemos estar preparados para a realidade, que provavelmente virá de forma diferente da que esperamos.

Às vezes esperamos que as pessoas se encaixem no mundo que a gente cria. Queremos que elas tenham a mesma postura que nós teríamos em relação à elas, queremos que elas ajam da forma que julgamos ser a mais correta pra elas em relação a nós e aos outros.

Só que isso nunca acontece.

Cada um enxerga a vida à sua maneira, cada um tem seus valores, princípios e padrões. E é muito difícil caminhar dentro desses padrões sem oscilar e passar por diversos deslizes. Erramos muito dentro da nossa própria perspectiva.

Ora, se eu vacilo dentro da minha própria perspectiva, como posso esperar qualquer comportamento de alguém que tem uma perspectiva e uma história de vida completamente diferente da minha?

Quanto mais próximo é o outro, mais eu quero que ele se adéqüe a minha realidade. Quero moldar e controlar o outro e ao mesmo tempo quero que ele continue sendo uma pessoa feliz.

Parece até cômico, não é mesmo? Às vezes as pessoas que mais amamos podem nos decepcionar.

Se você fica bravo constantemente com essas pessoas, isso é um sinal de que você pode ser uma pessoa mimada. Alguém que tenta controlar os outros através da raiva, do drama e dos ressentimentos.

Talvez você tenha tido tudo na mão até aqui, porém o mundo real não é assim, cedo ou tarde você vai precisar encará-lo.

As pessoas são imprevisíveis e nós não temos o menor controle sobre elas. Se você as ama, aceite-as como são e ajude-as a crescer dentro da própria perspectiva delas. Isso sim é amor verdadeiro.

Abra a sua mente e liberte-se do seu mundo de conto de fadas. A vida real não é o rancho da pamonha. Não faça nada esperando que o outro te retribua da mesma forma. Não espere receber o mesmo que você entrega, pois isso não é amor, é barganha.


3) Isso não vai ficar assim. Vai ter volta.


Essa é uma raiva que vem de uma profunda mágoa, flerta com a vingança e nos joga na escuridão.

Um provérbio budista diz:

 “Raiva é como encher as mãos de brasas para tentar queimar alguém”.

Se você vai conseguir queimar este alguém, eu não sei. Mas que vai queimar as próprias mãos, sem sombra de dúvidas. Inclusive é a primeira coisa que acontece.

“É como beber veneno e esperar que o outro morra”.

O fato é que o outro pode simplesmente rejeitar a nossa raiva. Rejeitar a brasa que arremessamos. Ele pode simplesmente não se importar.

- Você é um grande merda!
- Ok, tudo bem.

E aí, como em uma golada, o veneno desceu rasgando... pra nada!

Independente do que tenha acontecido, segurar o rancor e a mágoa só lhe faz mal. Só lhe tira o brilho da vida e lhe faz envelhecer mais precocemente.

É difícil escrever essas coisas em um texto de abordagem tão ampla. Cada um tem a sua história e sabe de si, mas dar o troco nunca é o caminho.

A vingança não traz paz, ao contrário, nos afunda na escuridão mais e mais.

 Extra: Empatia, o melhor remédio:


Para todo caso, trabalhar a empatia eleva a inteligência e a capacidade emocional.

Do grego,  -in – para dentro-pathos – sentimento.  Empatia é a capacidade psicológica de tentar compreender sentimentos e emoções das outras pessoas.

Ou em outras palavras, é o tentar se colocar no lugar do outro.

Aquela criança chata, talvez seja apenas uma criança. Isso é maturidade emocional. Aquele rapaz chato, talvez esteja sofrendo de carência, talvez te admire e gostaria de ter um pouco de sua atenção.

Alguém que foi imprudente no trânsito, pode ser que esteja em uma emergência médica, pode ser seu primeiro dia ao volante sozinho.

Em toda história, há sempre o outro lado. Nós, por incrível que pareça, não somos o centro do universo.

Exercitar esta maturidade é fundamental para ter mais lucidez e dispensar o chamado à raiva, que prejudica nosso corpo, nossa mente e nossas relações.



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Conclusão


A raiva é uma emoção que tem o seu glamour. Usada como peça chave para captar a atenção das pessoas na TV, explosões de raiva estão presentes nas novelas quase que o tempo todo e em grande parte da programação. 

Nas famílias, no trânsito e no ambiente de trabalho, a resposta raivosa é a resposta número um. É o que se deve fazer quando - você entende que - a razão está do seu lado.

A nossa intenção não é de transformar a todos em monges da paz interior, mas sim chamar a atenção pra esse sentimento que é tão prejudicial e dizer que ele não é tão charmoso assim no fim das contas.

Oferecer uma reflexão que pode trazer um pouco mais de autocontrole e autoconsciência.

Espero que tenha gostado!

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