Para Sempre Alice: o humano, o inesperado e o agora. - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática Para Sempre Alice: o humano, o inesperado e o agora.

Para Sempre Alice: o humano, o inesperado e o agora.

2016/09/30 | Nenhum comentário | |


 “Assim a gente faz. Finge que manda na morte. Faz que controla a vida. Tem lista de desejos e prioridades. Como se fosse ser atendido.

O lugar se chama Prainha. A água parece uma piscina. Você entra, crente que domina a situação. De repente tudo muda. Aparece correnteza para a direita, para a esquerda e redemoinhos no meio. Não é assim também a vida?
As pessoas se vão. A gente tenta segurar, pega na mão. A mão escapa. A gente urra de dor. Geme. Chora. Se desespera. Ai a vida, essa caprichosa. Não tem pena do que faz com a gente?
Mas a morte não vem de castigo. Acho que a morte só vem. Está aí. Faz parte do combo. Entre a porta de entrada e a de saída, aproveite! Seja bom. Faça amigos. Deixe marcas. Borde almas”.
Trechos do texto de Mônica Bayeh sobre a morte do ator Domingos Montagner (Adaptado).


E foi com ele que encerramos, na última semana, a roda de conversa sobre o filme Para Sempre Alice (2015). Esse foi o terceiro – e muito rico – encontro que nasceu da amizade entre O Espaço e a Vínculo Psicologia.

Direto, duro e triste, Para Sempre Alice conta a história de uma renomada professora de linguística que, aos 50 anos e no auge da carreira, é diagnosticada com Alzheimer precoce.




Alice tem muito a nos dizer e sua história oferece reflexões que vão além da patologia e do diagnóstico e nos colocam frente a frente com os problemas relacionados à vida – e à morte. 

Durante o encontro, partilhamos das diversas percepções que o filme despertou em cada um, dividimos histórias e vivências e refletimos sobre outras inúmeras questões. Mas, principalmente, tivemos, através da boa conversa, a oportunidade de, mais uma vez, sair do automático, olhar pra dentro de nós mesmos e nos conhecer um pouquinho mais.

Por isso há sempre um texto depois. Para estender esse momento a você, quero colocar aqui os três pontos que mais me chamaram atenção na nossa conversa.

Então se você não assistiu o filme, pause o texto aqui para assisti-lo e depois volte para conversamos. =)

A troca genuína é uma das bases do O Espaço e na roda de conversa não existe um mediador ou um guia, somos participantes dividindo os seus mundos, assim sendo, este texto não é uma posição oficial, mas o olhar de um dos presentes.

E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto.



roda de conversa o espaço para sempre alice
povo bunituu!!


O desafio do Mal de Alzheimer


O Alzheimer é, sem dúvidas, uma das doenças mais tristes. É realmente muito difícil ter alguém querido sofrendo desse mal ao seu lado. É angustiante conviver com alguém que amamos perdendo as suas memórias, esquecendo-se da própria história, esquecendo-se de quem é.

É compreensível que, tamanha a dor, algumas pessoas não consigam ficar por perto e tenham que se afastar.

Mas e o paciente?

Para Sempre Alice é o primeiro a colocar em foco aquele que Alzheimer e não somente quem está ao seu redor. E isso é muito significativo.

Como ele se sente? Ele ainda está lá? Se ele vai esquecer logo depois, então de que vale cada momento?

mal de alzheimer para sempre alice


Em certa altura, a família de Alice está discutindo o seu futuro, como se ela não estivesse ali. Todos falam dela na terceira pessoa, ignorando a sua existência no mesmo ambiente.

O Alzheimer é uma doença que faz com que o seu portador deixe de responder como ele é. O seu esquecimento causa constrangimentos e testa a paciência das pessoas.

Contudo precisamos entender que aquela pessoa que a gente ama e respeita ainda está ali. Que ela também se sente constrangida nessas situações. Que ela não é a doença e nem os seus sintomas. Que ela continua sendo a mesma pessoa. E que apesar de esquecer, cada momento vivido tem o seu valor.

Still Alice, o nome do filme em inglês. Ainda Alice, ao pé da letra. Eu continuo sendo Alice, apesar de tudo!

O nosso desafio é buscar não somente a cura, mas em paralelo encontrar meios de humanizar o tratamento. Acredito que aos poucos estamos assimilando isso e que muitas boas pessoas oferecem um cuidado transbordando amor e respeito.

Porém a exceção, apesar de nos inspirar, só confirma a regra.

O documentário Alive Inside – Astory of Music and Memory (Vivo por dentro – uma história de música e memória, em tradução livre) mostra que, como sociedade, ainda não vencemos essa barreira. Evidencia a dificuldade de se adotar medidas no sentido humano. Enquanto todos os esforços das entidades oficiais se voltam aos números, valores, preços, remédios, etc..

A verdade é que nossa cultura aprecia o belo, o jovem e o útil. E quando alguém deixa de ser útil, descartamos. Como uma sociedade de robôs, você existe enquanto é produtivo.

Só que nós somos humanos e quem descarta hoje é descartado amanhã, provavelmente abandonado em algum asilo.

Você vai morar em um novo lar que de lar nada tem. Macas, agulhas, remédios e portas trancadas. Estou em um hospital ou em uma prisão? Quando vim parar aqui? Você não consegue se lembrar. De vez em nunca, alguém vem te visitar, mas você não lembra quem é. Você vai se fechando e fechando, como uma flor que murcha sem água.

Entender que o humano vem antes do belo, do jovem e do útil é o nosso desafio e estamos fechado com ele aqui no O Espaço, portanto me comprometo a trazer pessoas que possuem histórias relacionadas ao Alzheimer, a demência e a velhice em si.


O instante de tempo chamado vida.


Alice era uma pessoa de muitos recursos, tinha bons hábitos, praticava atividade física e de hobby, um jogo de palavras. Um diagnóstico de Alzheimer precoce nessas condições é, no mínimo, inesperado.

Mas assim é a vida. Inesperada. Por mais que a gente se esforce muito para controlá-la.

Vivemos como se nunca fôssemos morrer. Rodeamo-nos de coisas irrelevantes e usamos essas mesmas coisas como obstáculos que nos impedem de ir ao encontro daquilo que realmente importa para nós.

Enquanto esperamos o futuro, lamentamos o passado. E o presente? O presente é para fazer planos e esperar.

Aquele futuro há de chegar!

Ele nunca chega. A morte vem primeiro e quando nos damos conta, esquecemos de viver.

Baita tabu é a morte. Você já pensou na sua? E na daquela pessoa que você ama? O estômago até embrulha.

Que papo ruim! Tá amarrado!
Isola cara! Bate na madeira!

A gente chama até pela superstição.

Tudo para tentar escapar do que é inescapável. E quando acontece, não estamos preparados. E aí, desavisados, estamos contrariados e revoltados. A conseqüência natural da vida se torna um absurdo, uma injustiça.

Mas é possível mesmo se preparar assim para tal fatalidade? Essa é difícil responder.

O que dá pra fazer é viver agora. Viver com plenitude. Mas viver com plenitude hoje! Saber que os planos, os sonhos e os objetivos, apesar de importantes, só existem no futuro – ou no passado – e que só se está vivo no presente. Só hoje, só agora é que dá pra sentir, respirar, tocar, cheirar, ver, ouvir, sorrir... Viver.

mal de alzheimer para sempre alice


O que dá pra fazer é perdoar. Perdoar tudo o que ficou para trás. Perdoar os outros e, principalmente, perdoar a si mesmo. Tirar os pesos dos ombros e olhar para frente. Dá pra erguer a cabeça. O remorso e a nostalgia só existem no passado, mas só se está vivo hoje.

Só hoje é possível viver. É possível enxergar o outro na sua complexidade e singularidade, é possível quebrar a barreira do ego, é possível partilhar boas experiências, é possível construir empatia, é possível colaborar e é possível amar.

Mas só hoje. Todos os dias um novo hoje nasce e, com ele, uma nova oportunidade de viver. O que dá pra fazer é parar de esperar o amanhã.

Carpe diem!



Comunicar com o mundo.


Para Sempre Alice não é daqueles filmes que começam lentamente, tendo picos e reviravoltas. Ao contrário, é forte e acelerado do início ao fim, assim como a doença prematura da protagonista.

A falta de memória é angustiante e, depois da última cena, todos sentimos o baque. As tensões por que passa Alice, certamente, adicionaram uma pitada de bons questionamentos à roda.

mal de alzheimer para sempre alice


Será que está tudo bem comigo? Quais os sintomas iniciais do Alzheimer? O filme nos deixa impressionados e acaba por tocar num evidente sintoma do modo de vida que praticamos. O modo da sobrecarga de informação, da distração infinita e da ansiedade por satisfação ininterrupta.

A facilidade da tecnologia nos permite estar conectados 24 horas por dia. Acostumamos a receber mais informação do que podemos processar e não conseguimos mais nos desligar.

Tentando fazer com que o cérebro trabalhe num sistema multitarefa – como um navegador cheio de abas abertas -, nós não conseguimos nos concentrar, nada merece 100% da nossa atenção. Tudo é muito volátil e a sensação é de que alguma coisa está sendo deixada para trás, parece que estamos sempre esquecendo alguma coisa.

Se desconectar é quase uma ameaça a existência. Estamos viciados.


Toda manhã meu despertador toca às 6h30. Antes que eu arraste meu corpo molenga de debaixo da segurança do meu cobertor quentinho, pego meu celular, deixo-o a centímetros do meu rosto e começo a ver qualquer coisa que perdi durante a noite. Isso não é só o começo da minha rotina matinal, mas também um comportamento rotineiro durante o resto do meu dia — checando, coletando e consumindo conteúdo obsessivamente até eu fechar os olhos e tentar desconectar meu cérebro para dormir. Esse comportamento é chamado de infomania, definido como “desejo compulsivo de checar ou acumular notícias e informações, comumente via celular ou computador.

Quem é que não sofre desse mal hoje?

Porém esse problema não é da tecnologia, esse é um problema das pessoas. Preferimos estar distraídos e entretidos porque não conseguimos lidar com os altos e baixos que é a vida.

Como pessoas mimadas, nós não suportamos lidar com a realidade na forma que ela se apresenta. Procurando fazer da vida uma sequência infinita de momentos de alegria, nós vivemos irritadiços, impulsivos, distraídos, engolindo informação barata para fugir de se comunicar com o mundo.

Se o sinal fecha na minha vez, são 45 intragáveis segundos em que a vida é um infortúnio, até que ele se abra novamente.

Porque se distrair tanto? Porque não deixamos o mundo falar?

A TV vende a fórmula da felicidade como uma sequência de ápices e bons momentos:

A criança soprando a velinha do bolo de aniversário.
A turma super feliz depois do trabalho indo beber aquela cerveja servida por modelos.
O rapaz fazendo a barba e atraindo mulheres lindas.

mal de alzheimer para sempre alice
Imagine só esse café as 7 da manhã de uma terça-feira.
A propaganda da margarina ensina.

Clímax após clímax após clímax...

Com as redes sociais a coisa piorou um pouquinho. Agora somos nós trocando momentos de clímax uns com os outros. Você acorda pela manhã e já tem um “feed de felicidade” cheio de novidades em duas ou três redes sociais.

Assumindo isso como a verdadeira vida feliz, como replicar essa sensação de ápices contínuos em nossa realidade?

Não dá. E que bom que não dá! A vida é uma longa caminhada. Se nos deixarmos interagir plenamente, poderemos encontrar beleza de verdade em cada passo.

O cume da montanha é incrível, mas podemos nos permitir aproveitar a escalada, não é? Desligar o modo distração permanente e registrar verdadeiras memórias no nosso coração.


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Grande abraço!!


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