Por que somos tão idiotas? As amarras do ego. - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática Por que somos tão idiotas? As amarras do ego.

Por que somos tão idiotas? As amarras do ego.

2016/09/20 | Nenhum comentário | |

ego, osho, as amarras do ego, porque somos idiotas egoistas e narcisitas



Você já teve aquela sensação que o mundo inteiro está meio... idiota? Que as pessoas estão, o tempo todo, fazendo coisas sem sentido?

Às vezes parece que ninguém consegue relaxar, se livrar das aparências, das tensões e das expectativas que os outros jogam em cima.

Às vezes parece que estão todos querendo se exibir, se mostrar, procurando por um destaque e se baseando, para isso, em conquistas e troféus no mínimo superficiais. Que estão a todo momento julgando e comparando.

Às vezes parece que ninguém consegue ser o que é.

Você já sentiu isso também? Dá até preguiça, né?

Talvez eu tenha uma resposta para tal fenômeno, talvez não.
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A primeira vez que essa “coisa” me incomodou foi durante o ensino médio, quando estudava em uma escola técnica federal, dessas que são referência no ensino da cidade.

A forma de ingresso para essa escola era um vestibular disputadíssimo e, naturalmente, existiam cursinhos preparatórios para a prova. As crianças eram matriculadas aos 14 anos e estudavam por um ano para tentar a vaga.

E lá estava eu, na sala do cursinho, acanhado, vindo de uma escola humilde, de um bairro periférico e com pouquíssimas experiências fora de casa. Lembro-me bem de ter ficado perdido no primeiro dia. Demorei a achar o lugar, mas tudo bem, também havia confundido o horário e estava duas horas adiantado. Fiquei sozinho na sala, cheio de receios, imaginando como seria.

As aulas foram correndo e fui me adaptando a dinâmica do curso. Estava me saindo bem. Durante todo o ano eu ouvia dos professores coisas como:

Só vai entrar os melhores dos melhores.
A melhor escola do Brasil não é pra qualquer um.
Entrar lá é difícil, mas sair é muito mais.

Até que na reta final da preparação, nos separaram entre os alunos que realmente tinham alguma chance e os que enfrentavam dificuldades. Na turma dos “bons” ainda ouvimos que nem 10% de nós teríamos sucesso.

Uma vez aprovado e dentro da nova escola, fui crescendo para acreditar que realmente era especial e diferente. Um acima da média.

Os professores diziam que iríamos nos formar para liderar pessoas mais velhas e mais cabreiras: os “peões”. Éramos inflados, dia após dia.

Uma nova identidade foi surgindo dentro de mim: o aluno da escola federal. E com ela, novas atitudes, pensamentos, valores e objetivos.

Assim senti, pela primeira vez que aquela “coisa” me guiava. 
Senti, pela primeira vez, a forte manifestação do meu ego.


Primeiro vem o ego


Essa historinha mostra um ego escancarado, fácil de notar. É como essas pessoas que vomitam os seus carros, as roupas e marcas que carregam ou até mesmo seus diplomas e conquistas profissionais.

f Mas nem sempre é tão gritante. A coisa pode ser mais complexa e mais sutil. Não estamos aqui para apontar as manifestações excêntricas dos outros, mas sim para fazer um exame pessoal e entender um pouco como nós podemos ser, de diversas maneiras, afetados.

Primeiro vem o ego.

Ao nascer, a primeira noção que uma criança tem de si mesma vem de fora. Ela sente o próprio corpo, mas não está consciente de quem é. A primeira consciência é uma consciência refletida.

Para Osho:

A criança não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que ela pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se a mãe aprecia a criança, se diz 'você é bonita', se ela a abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma.

Através do afeto, ela sente que tem importância, um novo centro começa a nascer, um centro refletido. A criança não sabe quem é, sabe apenas as reações que ela causa às pessoas ao seu redor.

Esse é o ego. A criança estabelece um senso de identidade baseada no feedback que recebe do outro, mesmo que esse feedback seja negativo. Uma criança rejeitada constrói um centro triste e ferido.

Quanto mais convívio, maior e mais complexo é o ego. Fenômeno cumulativo, inerente a quem vive em sociedade e um aprendizado fundamental. Um caminho necessário do autoconhecimento.

E essa é a parte mais difícil, enxergá-lo como caminho, não como solução.

O eu que se encontra atrás dos muros


Imagine que toda a sua essência está dentro de um recipiente.  Um copo. E essa essência não é igual a nenhuma outra nesse mundo. Ela é única. Uma essência incalculável, ilimitada e imensurável, bem como o valor que ela carrega.

Assim somos nós. Seres infinitos em possibilidades, feitos para amar e partilhar as incontáveis riquezas que temos em nosso interior:

ego universo o espaço
Como no universo, você pode dar zoom para sempre.
Haverá algo a mais.

Porém, primeiro vem o ego. A primeira imagem é o reflexo do que o outro pensa, a falsa identidade vai se moldando. A avaliação do outro é limitada, baseada em rótulos, comparações, julgamentos e adjetivos.

Você é recompensado quando os seus pais te aprovam ou é punido quando te reprovam. Através do ego existe o controle.

Então você olha para si e enxerga na superfície:
 
Ego o espaço
Bom menino, mau menino, bom menino...

A partir daí você começa a trabalhar para que essa visão da superfície seja a mais perfeita possível. Esforça-se para ser aceito e passa a valorizar as percepções externas como as coisas que te definem.

Chega a adolescência e as coisas do ego passam a ter grandes proporções: você quer fazer parte de um grupo - os rockeiros, os torcedores, os skatistas, os atletas, os igrejeiros, os twitteiros, os gamers... Os que tentam pela subversão, quebrando regras, usando drogas, depredando, pixando, etc..

Você tenta se adequar, adapta o visual, o linguajar, aprende um dialeto.

ego copo o espaço
Eu sou da academia, sai pra lá, seu "frango"!

A paquera é algo muito importante e você está preocupado e tem problemas com o seu corpo e sua reputação. Você tem vergonha dos seus pais e dos cuidados que eles têm para com você.

Peguei 7 na balada ontem
Dei 7 foras na balada ontem
Bebi uma garrafa de vodka sozinho


Assim, os jovens se unem, se separam, avaliam, medem, incluem e excluem. Disso tudo nascem coisas como bulliyng, anorexia, bulimia, pessoas de pouca idade depressivas e ansiosas.

A comunicação vai se distanciando, para todas as pessoas existe uma métrica. Ou ela é superior, ou ela é inferior a mim. Se for inferior dentro dos padrões que eu considero, a relação é de cima pra baixo e então eu a desprezo, mesmo que sutilmente, mesmo que internamente.

Mas se for superior, eu então me rebaixo, fico inseguro, tímido e penso em cada uma das minhas ações, para não parecer inadequado.

Quanto mais insegurança, mais ego eu procuro para me fortalecer. Quanto mais ego, mais insegurança. Nos valores definidos em pilares externos, sempre existirá alguém melhor. É uma corrida que todos perdem.
  
Na fase adulta, o ego passa a ser – na maioria das vezes – mais sutil, refinado e perigoso.

O dinheiro consegue suprir uma pequena parte dos vácuos deixados pelo ego adolescente. Pouco a pouco vamos entregando a nossa vida à perseguição de uma carreira que nos possibilita acumular cada vez mais.

o ego crescendo o espaço
Pode ser assim, mas pode ser de outro jeito também.


Mergulhados no ego que nos impede de tocar o mundo, seguindo atrás de troféus para engordar uma falsa identidade sempre incompleta, nós vivemos na base da comparação e dos valores superficiais.

No meio de tudo isso, onde é que os seres infinitos encontram espaço para compartilhar entre si? 

Qual mesinha de centro me define como pessoa? O nosso amigo em
Clube da Luta


Mal sabemos que eles existem.
Por isso sentimos o mundo tão idiota.



Um barquinho na tempestade


Enquanto nos alimentarmos dos feedbacks alheios, não estaremos livres para sentir o mundo plenamente. Amarramos a nossa identidade em pilares externos e esperamos que reconheçam a nossa importância.

Mas o externo é imprevisível e não há controle sobre ele. Quando as minhas bases e o que me define vem de fora, então eu sou um barquinho perdido em meio ao oceano: ora calmaria, ora tempestade; ora vento forte em qualquer direção, ora vento nenhum e não saio do lugar.


barquinho o espaço


Não há velas, remos e, principalmente, uma âncora sólida e forte.

Você dá tudo pelo ego em troca de proteção, segurança e um lugar no mundo. E ele te devolve instabilidade, frustração, uma auto-estima frágil e o vazio impreenchível, que faz com que você se entregue mais ainda. Uma bola de neve vai crescendo e engolindo sua essência mais pura.

Há aqueles que associam toda a sua existência a um valor externo específico, fazem qualquer coisa para manter este valor e quando aquilo sai de ordem, entram em colapso. É com alguma freqüência que temos notícia de pessoas que morrem e matam quando perdem o emprego ou o relacionamento acaba, por exemplo.

Uma hora o barco vira.


Não conseguimos nos conectar


É por isso que as pessoas estão tão fechadas. Porque o ego depende da resposta do outro. Não adianta apenas eu escalar, eu preciso mostrar ao outro e ele precisa me aprovar. Mas o outro também está escalando e quer a minha aprovação.

Já não somos mais capazes de viver uma experiência de troca através do simples diálogo.

Você fala e fala. Eu estou calado, mas não estou te ouvindo. Estou esperando a minha vez de falar. E numa rápida janela de oportunidade entre suas palavras, eu começo a articular as minhas. Você se cala, mas não está me ouvindo. Está pensando nas suas próximas sentenças, de olho em um gancho para encaixá-las e voltar à posição de quem se expressa.

Perdemos a capacidade de escutar


Nossas relações estão empobrecidas. Não somos capazes de nos desprender do ego para nos conectar com as pessoas. Estamos sempre em disputa, mesmo nas coisas mais simplórias.

Fingimos saber de todos os assuntos, mostrar desconhecimento em alguma coisa é assombroso e para tudo desenhamos uma opinião instantânea.

É preciso coragem para conhecer e se deixar conhecer. Abandonar os julgamentos e métricas, as primeiras e superficiais impressões e todo tipo de rótulo que limita a capacidade de compreender outro ser.

É preciso coragem para se interessar genuinamente por alguém. Para enriquecer a nossa experiência em vida.


E é preciso ainda mais coragem para amar. Ser um espaço que auxilia o outro a se descobrir, a se desvendar e interessar-se por isso. A partilha sincera que vem da conexão entre dois seres, isso é amor.

Mas o amor também foi tomado pelo ego. Tentamos controlar todos ao redor. Limitamos uns aos outros para mantermos uma imagem intacta. Utilizamos do ciúme, do drama e dos jogos psicológicos para nos sentirmos seguros atrás de nossas máscaras. Ninguém quer abrir mão.

O que chamamos de amor é mais uma ferramenta para manter nossos pares, amigos e família dentro de uma cerquinha engordando o falso centro refletido.

Vivemos, dessa forma, isolados. Eu não me relaciono com você. O meu ego se relaciona com o seu. Brigando sempre por espaço. E as conseqüências de um mundo que não é capaz de se conectar são trágicas:

Enquanto indivíduos, estamos amarrados, presos, tristes, solitários, egoístas, depressivos e aflitos. Enquanto sociedade, rejeitamos a nossa própria culpa, afogamos na lama, corrupção, polaridade, maniqueísmo e desesperança.

Do autoconhecimento e da análise pessoal


A morte do ego é um conceito forte das religiões orientais. A transcendência ou o nirvana. Mas este não é nosso objetivo aqui.

O Espaço é um lugar de práticas, feito por nós e para nós. Não queremos aqui transcender, mas crescer em autoconhecimento, entender como o mundo nos afeta e como o afetamos.

Acreditamos que cuidar do ego, dentre outros benefícios, aumenta a consciência perante a vida, proporciona maior capacidade de escolha e com isso maior protagonismo, ajuda a encontrar caminhos com verdadeiros propósitos, melhora as relações entre as pessoas e entre os grupos.

Quem cuida do ego entende que todo ser humano é uma obra perfeita por si só e dotada de infinitas possibilidades e, por isso, tem paz para viver com plenitude. A sua busca não é para se completar, é para se descobrir.

Mas então como posso cuidar do meu ego? Não posso gostar das coisas externas a mim?

É tênue a linha que separa o eu amo isso do isso me define como ser humano. Posso amar, admirar e orgulhar-me de qualquer coisa, mas preciso entender que a minha natureza e a natureza das pessoa vai muito além.

Só você pode identificar as formas mais fugazes de manifestação e controle do seu próprio ego. Por isso, eu lhe convido a fazer um exercício pessoal e diário através dos questionamentos e meditações, para que você possa, todo dia, despertar um pouquinho mais de consciência, levando assim a uma transformação positiva e sólida no longo prazo.

Como aquele copo tomado de cores, temos que cavar fundo para nos encontrar. O diálogo interno é fundamental e precisa ser sincero.


Aqui vão algumas questões gerais que podem te auxiliar a encontrar as suas próprias questões:

>> Amo o trabalho, relacionamento ou qualquer coisa difícil que conquistei à base de muito suor e muita luta, mas acabo me comparando as outras pessoas?
Exemplo: Quem trabalha menos ou em uma área que não considero útil é gente vagabunda e quem trabalha mais é gente boba e escrava.
>> E, na realidade, eu amo essa coisa porque ela me traz status e de alguma forma me sinto importante com ela? E quando isso se dissolve, me sinto sem lugar e sem respeito?
Exemplo: Dizia a todos os amigos que minha esposa era fiel e cuidadosa, mas ela me traiu. Sentia-me bonita e interessante por namorar um modelo famoso da região, mas ele me deixou.
>> Todas as ações levam o meu rótulo, como se eu fosse o centro do universo? Se você tem uma atitude diferente da atitude que eu espero, então tenho um nome pra você.
Exemplo: Se recebo atenção demais, então você é carente e pegajoso, se recebo atenção de menos, então você é frio e insensível.
>> Em uma conversa, eu sou capaz de me interessar pelo o que outro está dizendo ou logo associo aquilo a alguma coisa que me leve ao centro da história? 
Exemplo: Se o meu amigo está dividindo uma desgraça que lhe aconteceu, eu penso de imediato em uma desgraça maior para mostrar o quão rica é a minha experiência.
>> Evito fazer coisas que eu realmente gostaria de fazer por medo de manchar a minha imagem frente ao julgamento das pessoas.
Exemplo: Poxa vida, como gostei desse O Espaço! Mas não vou compartilhar não, parece coisa de gente doida.
>> Faço coisas legais apenas para receber o retorno positivo das pessoas? E quando esse retorno não vem me sinto frustrado, diminuído ou excluído? 
Exemplo: Meu estômago embrulha quando a foto/postagem que tanto preparei recebe poucos “likes”. Ou quando vão para uma festa sem me convidar, apesar de eu me esforçar para ser amigo daquele grupo. 
>> Assumo-me parte de um grupo que faz com que eu me sinta mais inteligente, poderoso, caridoso ou qualquer outra característica que reforce o meu senso de identidade? Desprezo quem se assemelha a um grupo oposto?
Exemplo: Sou cristão, portanto sou uma pessoa boa, o mundo seria melhor sem tantos ateus promíscuos. Sou ateu, portanto sou uma pessoa inteligente, o mundo seria melhor sem tantos cristãos burros.
Direita/esquerda, Cruzeiro/Atlético, exatas/humanas, biscoito/bolacha... Muitas pessoas abrem mão da sua individualidade para fortalecer o seu ego em um grupo que faça com que se sintam superiores.

De um modo geral, perseguimos tudo isso por não conseguirmos enxergar nossa completude. Incontáveis seriam as perguntas que poderíamos trazer nesse sentido. Porém acredito que essas são suficientes para nos nortear.

Espero que, tanto elas quanto o texto em si, tenham sido úteis de alguma forma, que você encontre os seus próprios caminhos e desperte mais consciência em sua vida.

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Essa foi uma abordagem ampla sobre o cuidado com ego, uma das bases do O Espaço. Mas também trabalharemos textos curtos e específicos, fique ligado!

Grande abraço!


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