Em busca da sobriedade: uma história de coragem e lucidez. - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática Em busca da sobriedade: uma história de coragem e lucidez.

Em busca da sobriedade: uma história de coragem e lucidez.

2016/10/31 | 2 comentários | |

Em busca da sobriedade, O Espaço, Eron Maia, Dependência Química

Saudações!

Quero compartilhar com você a impressionante história do meu amigo Eron.

Eu o conheci na infância, época de jogar bola. Eron era o melhor goleiro do bairro. Era conhecido em todo canto por aqui. Quando se falava de futebol, montar times ou disputar campeonatos, o nome dele era sempre citado.

O tempo passou, crescemos e perdemos o contato. A época de bola se foi, deixando muita saudade. Eron sumiu, mas ainda era lembrado nos papos nostálgicos sobre infância.

- Lembra daquele campeonato da fecemg?
- Pow, lembro demais. Que sacode!
- Sim, foi até engraçado. Mas também o time não tinha goleiro.
- Pois é, se tivesse o Eron, dava pra ganhar. Lembra dele?
- Lembro uai! Pegava muito! Que que ele tá arrumando? 
- Também não sei. Sumidão.

Eis que anos depois, o Eron reaparece pra contar o que ele “estava arrumando”. E a história, meus amigos, é de arrepiar.

Ainda muito jovem, ele se tornou adicto e se perdeu no mundo do álcool e da cocaína. Passou a viver em função de sustentar o vício, o que fez com que ele passasse por inúmeras situações extremas, correndo, por diversas vezes, risco de morte.

Veja este inusitado trecho:

"... ele desceu da moto transtornado e a jogou no chão, isolou o capacete longe e começou a gritar para eu bater nele. Eu não estava entendendo nada, estava tão travado quanto ele, fiquei olhando para todos os lados. A gente estava muito louco! Ele começou a dar socos nele mesmo e gritava comigo para eu bater nele. De repente eu voei nele e acertei um soco no nariz dele. Ele se jogou no chão, arrastou seu rosto no asfalto e depois arranhou-se todo em uma arvore no meio fio...”

Tenso demais, não é?
Ele está narrando tudo no seu blog: Em Busca da Sobriedade.

Lá, além da história de sua adicção, o Eron conta, com incrível lucidez, sobre o dia-a-dia do seu processo de recuperação, dá informações sobre dependência química e também abre espaço para amigos e familiares. Dividindo da seguinte forma:

História da minha adicção – vou contar meu histórico de vida e como me tornei dependente. (domingo)
Recuperação – como está indo meu processo de recuperação, as ferramentas que estou usando. (terça)
Informações sobre dependência química e drogas. (quarta)
Visita/Perguntas – depoimento de família e amigos/ responderei a perguntas sobre dependência. (sábado)

É com muita coragem que ele abre a sua intimidade na internet, ajuda muitas pessoas e famílias e fala de um assunto que precisa ser dito. Quebrando incontáveis paradigmas relacionados a um problema que é mais comum em nossas vidas do que imaginamos

Por isso, recomendo fortemente o Em busca da sobriedade, blog que ensina, informa e inspira. 

Como leitor assíduo, quero dividir com você três pontos importantes que me chamaram a atenção por lá:


Álcool é droga.



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Beber é super social, atrai gente bonita e feliz, não é verdade? Pelo menos é a ideia que a propaganda vende e que fazemos questão de comprar. É curioso como rejeitamos as drogas e os seus usuários, mas quando se fala em álcool... Aí não é bem assim. Porque isso acontece?

A gente tem a impressão que o álcool é mais fraco, menos danoso ou nos tira menos o controle e, muitas vezes, não conseguimos reconhecer o quão nocivo ele é.


No blog, o texto Me tornando um dependente:

“O álcool é considerado uma droga depressora do sistema nervoso central, ele tem o poder de dar a sensação de baixar o stress do indivíduo e deixar a pessoa desinibida. 

O problema é que dificilmente a pessoa bebe a quantidade que seria necessária somente pra “relaxar” e mesmo que o fizesse, no outro dia a pessoa sofre com o efeito rebote (não aquela ressaca de ter bebido muito), mas como ingeriu uma substância que fez seu cérebro acalmar, ele vai trabalhar como uma balança e vai se agitar pra compensar. 

Agora imagine isso pra uma pessoa ansiosa É ansiedade em dobro. E qual o remédio que ela tem pra ansiedade? O Álcool! Está formado o ciclo, que só piora…

O álcool por si só já era um grande problema e é uma das drogas que mais debilita a saúde humana. Entre os dependentes químicos é considerada a pior droga, acredite”. 



O usuário recreativo, o usuário abusivo e o dependente químico.



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Bom, reconhecendo que ao ingerir álcool, estamos consumindo uma droga, já quebramos um primeiro paradigma e se você faz uso apenas dessa substância, vale saber um pouco mais sobre como se classificam os usuários.


No texto Dependente x Usuário, temos:

A psiquiatria classifica em três diferentes níveis; o usuário recreativo, o usuário abusivo e o dependente químico. (...)

O usuário recreativo é aquele que faz uso da substancia sem nenhum padrão repetitivo, a ingestão da droga nunca lhe causou nenhum prejuízo financeiro, pessoal ou de saúde.

O usuário abusivo faz uso da substância com certa frequência. O uso já lhe causou algum problema. Nesse caso, o álcool é um exemplo muito recorrente atualmente. Como quando o usuário já foi pego em uma blitz, bateu o carro ou teve discussões em casa por causa do abuso dessa substância. Porém, ele ainda não tem os padrões da dependência, consegue ser uma pessoa funcional e ter outras atividades de prazer.

O dependente já deixou de ser funcional, somente a substância lhe interessa, tem um padrão especifico de consumo e se não fizer uso vai ter uma crise de abstinência. Além dos vários danos já causados à sua saúde e ao seu patrimônio.

Os usuários (recreativos ou abusivos) estão sujeitos a virar um dependente a qualquer momento. Se acontecer algo muito grave em sua vida, e ele não estiver psicologicamente preparado, pode procurar se remediar nas drogas e se perder. 

Porém, o contrário não acontece. O dependente jamais vira um usuário. Quando o dependente está em tratamento ele tem a ilusão de que pode passar a ser um usuário abusivo ou recreativo, pensando que se alguém consegue usar de vez em quando, ele também pode. 

Mas ele não consegue. Jamais conseguirá. Nesse caso é 8 ou 80. A gente tem que tomar a decisão, ou resolve abandonar qualquer que seja a substância que possa alterar a mente, ou nem adianta tratamento”. 

Eron lembra também que só um profissional – Psicólogo ou Psiquiatra – é capaz de identificar em qual estágio o usuário se encontra.


Dependência química é doença e questão de saúde pública.



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Apesar de já ser uma doença reconhecida pela OMS, o senso comum ainda resiste e enxerga o dependente químico como um vagabundo que usa droga quando quer e escolhe ferrar com a própria vida de propósito. É visto como alguém irresponsável, que com plena capacidade de tomar decisões, opta pela droga sem ligar pras consequências.

Pois bem, já passou da hora de quebrarmos esse preconceito. É fundamental entender o que acontece de verdade, para que possamos combater o problema de forma mais eficaz, enquanto sociedade e enquanto pessoas também.

Até porque todos que fazem ingestão de algum tipo de substância química estão sujeitos a se tornar dependentes.


Acompanhe esse trecho, do texto Uma doença chamada dependência química:

“Dependência química é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Isso quer dizer que tem sintomas, causas, tratamento, etc. É considerada uma doença progressiva e sem cura, quando digo sem cura quero dizer que conviverei com a doença o resto da vida. Se assemelha a diabetes ou pressão alta, o paciente convive com a doença e tem que tomar certos cuidados pra que a doença não tome conta da vida dele. 

Há ainda um enorme preconceito com quem sofre desse mal. Não estou querendo que tratem dependentes químicos como santos e ou um coitado, a questão do preconceito é que inibe a vontade do adicto de procurar ajuda. 

O preconceito ocorre até mesmo na área profissional, existem psicólogos, médicos, psiquiatras que não estão preparados para lidar com dependentes químicos. 

Nos serviços de emergências onde é comum dependentes serem atendidos, devido à saúde debilitada, onde seria um ótimo lugar para um primeiro acolhimento e possível encaminhamento para um tratamento adequado, porém normalmente o que acontece é que o paciente tem a sua cormobidade (enfermidade) tratada e nem se toca no assunto da dependência e quando o faz, faz de maneira inadequada.

Tratar da dependência como questão de saúde e não como um caso de polícia ou de vagabundagem foi um avanço muito grande, pois muitos dependentes tiveram coragem de assumir sua doença e na medicina também tiveram avanços importantes. 

Como se tornou uma questão médica a primeira coisa a se fazer quando você desconfiar de um caso desse na família ou quiser ajudar alguém é procurar ajuda profissional, antes mesmo de conversar com a pessoa, oriente-se com um psiquiatra ou psicólogo e você saberá que rumo levar na conversa e em que momento deverá ter a conversa, pois tudo isso faz muita diferença”.

Extra: uma pequena provocação.


Uma das coisas mais interessantes do Em busca da sobriedade é o seu próprio título. O Eron mostra como são as batalhas diárias de alguém que está lutando por uma vida mais plena, consciente e livre. Essa luta vai na contramão do que procuramos a todo momento: se livrar da sobriedade. 

Através das drogas, lícitas ou não, e das distrações tecnológicas sem fim, estamos cada vez menos conectados com nós mesmos e com o mundo que nos cerca. Sempre fugindo da nossa própria realidade, fazemos das boas experiências, vagas lembranças.

Você também já teve esse sufoco? O que acha disso?


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