A onda verde de Chapecó. - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática A onda verde de Chapecó.

A onda verde de Chapecó.

2016/11/30 | Nenhum comentário | |

Chapecoense depois da tragédia,  O Espaço


Era 01h15min da madrugada do dia 29 de novembro, quando uma colisão em um ponto montanhoso na América do Sul espalhou uma onda verde de comoção e tristeza no mundo inteiro.

Estava deitado, curtindo os pensamentos ansiosos de uma insônia, no momento em que a minha mãe veio com a notícia, ainda na mesma madrugada. Na hora não entendi muito bem. Você se recusa a acreditar quando recebe essas coisas.

Foi então que pela manhã, a onda verde me invadiu. Deixou-me em choque, estarrecido e profundamente triste.

Quem acompanha a evolução do futebol de Santa Catarina e a sua luta para se tornar relevante no cenário nacional – adotando uma política honesta e sustentável, enfrentando clubes seculares que, apesar dos orçamentos milionários, não têm medo de fazer dívidas astronômicas para montar elencos cheios de estrela e glamour – já admirava e respeitava a Chapecoense há algum tempo.

Esse ano, o exemplo da boa prática, do planejamento e da visão de longo-prazo estava sendo coroado com uma campanha histórica na Copa Sul-Americana. Numa mescla de jogadores experientes e jovens sonhadores, a Chape estava no auge! Acabara de derrotar, heroicamente, um argentino tradicional e viajava à Colômbia cheia de esperança e confiança.

Mas tudo acabou. De uma maneira abrupta.

A Chapecoense, que antes havia unido a cidade de Chapecó sob uma cor e uma bandeira, uniu o Brasil e os amantes de futebol na disputa do torneio continental e agora une o mundo no sentimento de luto. Um mundo que anda dividido e polarizado. Cheio de grupos. Cheio de inimigos. Cheio de maniqueísmos.

A Chape fez com que todos parassem e recuassem por um momento.

A Chape uniu-nos em Empatia.

Homenagem liverpool chapecoense
Um minuto de silêncio pelo time e torcida do Liverpool.


E sinto que é disso que precisamos agora. Da empatia, da misericórdia e da compaixão. É por esse sentimento que escrevo, nesse espaço, um texto atípico: pequeno, pautado na emoção e completamente pessoal. Quase um desabafo.

A onda verde me invadiu e me fez chorar, mas não quero me livrar dela agora. Junto com ela veio a dor de todas as famílias das pessoas que se foram.

Quero ficar com ela mais um pouco, absorvê-la mais um pouco. Quem sabe assim eu não consiga ajudar a carregar um pedacinho desse enorme fardo? Quero orar pelas famílias e, se pudesse, gostaria de abraçá-las. Em silêncio mesmo, apenas abraçá-las.

Toda vez que me pego procurando as causas, lições ou tentando entender as conseqüências futebolísticas, percebo que estou expulsando a onda verde de mim, ficando um tanto mais indiferente, insensível. Não quero. Ainda não.

Vejo que o inesperado está oferecendo um forte aprendizado à todos: o de viver agora. O viver cada momento com máxima intensidade. Mas isso não serviu a mim. Não agora. O meu agora é essa onda verde. O meu agora é me resguardar e receber a dor de todos aqueles que estão sofrendo. Mesmo que eles não saibam disso.

E vejo que também há intensidade nisso. Não haveria se eu fugisse.

O meu agora é respeitar cada ritual e prestar a devida homenagem àquele time guerreiro, que também estava vivendo o presente em sua potência total. A entrega da Chapecoense na Sul-Americana, a forma com que passaram de cada adversário, a maneira com que encheram o coração do Brasil de vontade, só mostra que eles já haviam aprendido bem a lição do inesperado.

Quem sou eu para me afastar desse sentimento verde para achar uma lição individual que se aplica à minha vida? Eu não consigo. Pelo menos não agora. Já sou egoísta demais. Mas isso é extremamente pessoal. Total respeito a quem consegue. Talvez eu me junte a você mais tarde. Mas agora não.

Por agora, o que consigo fazer é tentar sair de mim mesmo. Tirar a minha vida do centro e abraçar essa onda. Admirar cada gesto, cada símbolo que honra a memória de todas as vítimas. Aplaudir cada movimento de apoio às famílias e me colocar disponível, mesmo que não dê conta de fazer nada.

É só o que consigo, agora.


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