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Comunicação não violenta, Capítulo 2: a comunicação que bloqueia a compaixão

2017/10/24 | Nenhum comentário | |




“Não julgueis, para que não sejas julgado. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados”. Mateus 7,1

A comunicação que bloqueia a compaixão

Existem certas formas específicas de linguagem e comunicação que bloqueiam a compaixão e contribuem para um comportamento violento em relação aos outros e a nós mesmos. Para elas, Marshall utiliza a expressão “Comunicação Alienante da Vida”.

Pela definição, alienação é o estado de ignorância da realidade e dos fatores subjetivos e objetivos que condicionam sua maneira de ser.

Vamos a elas:

Julgamentos moralizadores


O julgamento moralizador é uma forma de comunicação extremamente alienante. Subentendem uma natureza errada ou maligna nas pessoas que não agem em consonância com valores que são nossos.

Ter valores e princípios é ok e desejável. Trata-se de juízo de valor e é chave importante para se navegar nas águas da vida.

O problema está em projetar esses valores no outro – um ser único, complexo e infinito, que tem seus próprios princípios e segue a vida à sua maneira particular – e aplicar um julgamento moralizador, colocando em cheque a natureza daquele ser.

Assim, nos afastamos do outro e de suas necessidades, nos afastamos de nós mesmos e dos nossos sentimentos e reduzimos a nossa compreensão acerca do todo, do ambiente que nos faz.

Culpa; Insulto; Depreciação; Comparação; Rotulação; Crítica; Diagnósticos;
Se minha esposa deseja mais afeto do que estou lhe dando, ela é “carente e dependente”. Mas se quero mais atenção do que me dá, então ela é “indiferente e insensível”.

Todas as análises de outros seres humanos são expressões trágicas de nossos próprios valores e necessidades.

Julgamento é uma expressão das proprias necessidades
Julgar é expressar necessidade não atendida.


Trágicas. Pois se expressar de tal forma só produz sofrimento. Coloca o outro em posição defensiva e cria nele grande resistência em nos atender. E se, por acaso, ele aceita agir dentro dos nossos valores, será, provavelmente, por medo, culpa ou vergonha.

E, no fim, pagamos um preço caro. A pessoa que reage a nós por medo, culpa ou vergonha, vai, aos poucos, perdendo sua boa-vontade para conosco, sentindo ressentimento e menos autoestima.
Certa vez, o poeta Rumi escreveu:

“Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”.

Acontece que a comunicação alienante da vida não é alienante atoa: nos prende num mundo de ideias sobre o certo e o errado, com um vocabulário rico em classificar e dicotomizar as pessoas e seus atos.

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A relação entre violência e linguagem é tema de interesse científico. É percebido que existe consideravelmente menos violência em culturas nas quais as pessoas pensam em termos de necessidades humanas do que em outras nas quais as pessoas se rotulam entre “boas” e “más”.

“Na raiz de toda violência – verbal, psicológica ou física, entre familiares, tribos ou nações -, está um tipo de pensamento que atribui a causa do conflito ao fato de os adversários estarem errados”.


Fazendo comparações


Comparar é mais uma forma de julgar e alienar-se.

A simples comparação estética é suficiente para provocar tristeza. Quando, então, entramos no campo de conquistas e realização pessoal, a tristeza se transforma em grande frustração.

Nesse sentido, vale ressaltar o enorme papel alienador da TV, da propaganda e principalmente das redes sociais, nos inundando, constantemente, de pessoas realizadas celebrando o auge da vida. Reduzindo a nossa realidade única e infinita em parâmetros superficiais.


Negação de responsabilidade


Aqui temos uma linguagem capaz de gerar uma alienação sem precedentes. Negar a responsabilidade é limitar o discernimento, o senso-crítico e a tomada de decisão, causando sofrimento a nós mesmos e aos outros.

  •        “Tenho que fazer isso”;
  •        “Faço isso porque o cliente exigiu”;
  •        “Fiz isso porque são as regras da casa”;
  •        “Só estou fazendo isso porque é minha obrigação como xxx”;


O fato é que pensamentos, sentimentos e ações são responsabilidades inteiramente pessoais e utilizar essa linguagem é um meio de esconder essas responsabilidades de nós mesmos.

É importante sempre reforçar que fazemos escolhas para atender a alguma necessidade específica nossa:

Um professor não avalia seus alunos através de provas porque tem que fazê-lo. Ele escolhe avaliar seus alunos dessa maneira para atender a sua necessidade de manter o seu emprego.

Trata-se de uma mudança estrutural poderosa na comunicação.
Eu ESCOLHO agir
Tirar um peso das costas.


A alienação pode mover massas em direção a violência, através da obediência cega e do conformismo social. Foi desse modo que o nazismo, por exemplo, usando uma linguagem burocrática, promoveu tantas barbaridades: o soldado massacrava e se isentava de culpa: tinha de fazê-lo, ordens superiores ou essa era a política institucional.

“Os horrores que já vimos, os horrores que ainda vamos ver, são sinal não de que os homens rebeldes aumentaram, e sim de que aumenta o número de homens obedientes e dóceis”.

Outras formas de comunicação alienante da vida


1. Comunicar desejos como exigências é outra forma de linguagem que bloqueia a compaixão. Exigir nada mais é que ameaçar com culpa ou punição.

Nunca conseguimos forçar as pessoas a fazer nada. Essa é uma lição de humildade no exercício do poder. O máximo que conseguimos é, por meio da punição, fazê-las desejar agir como queremos. Isso é alienante, desconectante e triste.

2. Há também o conceito de “merecimento”. Um ato ou pessoa boa merece ser recompensada e um ato ou pessoa ruim merece ser punido. Tal forma de pensar sugere que punição faz entender e repensar. No entanto, ela só comunica violência que, mesmo restringindo o ato, não deixa claro qual a mudança e seus benefícios.

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A comunicação alienante da vida é uma ferramenta de controle. A maioria de nós cresceu aprendendo a rotular, julgar, comparar e exigir. Uma educação que se baseia na ideia de deficiência humana inata, bem como a necessidade de controlar nossa natureza inerentemente indesejável. Aprendemos desde cedo a isolar o que se passa dentro de nós.

Esse é um valor de sociedades baseadas em hierarquia e dominação.

“A comunicação alienante da vida tem profundas raízes filosóficas e políticas”.


Até o próximo capítulo!






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