Como alimentar um camaleão racista? - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática Como alimentar um camaleão racista?

Como alimentar um camaleão racista?

2017/11/27 | Nenhum comentário | |



Tags: William Waack, Taís Araújo, racismo, meme, camaleão, homem aranha, senso comum, Day McCarthy, Bruno Gagliasso, Giovanna Ewbank

Ainda não sabe quem eu sou? Veja no primeiro link da bibliografia[1].

Bem, segunda-feira dia 20 de novembro de 2017, foi o dia da consciência negra. Um dia bastante importante para a história do povo negro. Um dia com bastante reflexões a serem tomadas.

Porém o que me motiva a escrever este texto não é apenas o dia, mas sim o mais recente ato de racismo na semana do dia 20 a 26 de novembro de 2017.

A atriz Taís Araújo foi uma palestrante no evento TedxSaoPaulo[2], e ela discutiu sobre como criar os filhos em um país como o Brasil. Uma das declarações foi ter dito que a cor do seu filho era motivo para as pessoas mudarem de calcada.

taís araújo é vítima de racismo

“No Brasil, a cor do meu filho é o que faz que as pessoas mudem de calçada, segurem suas bolsas, blindem o seus carros.”

Esta afirmação foi o motivo de diversos memes na internet de caráter RACISTA[3], com a justificativa de que a atriz estaria sendo vitimista. Muitos destes memes foram divulgados por pessoas famosas e influentes, como o Youtuber Nando Moura[4], o presidente da EBC e o secretário de Educação do Rio Cesar Benjamin[5]. E é engraçado que estas pessoas são contra o racismo (ou se declaram contra o racismo), mas acabaram de cometer um ato racista sem sua percepção. E ainda por cima ridicularizaram as falas da atriz, falando que ela não estava combatendo o racismo. Foi uma completa falta de empatia não só com a atriz, mas com todas as pessoas negras vítimas do racismo.

julgamentos


E você deve estar se perguntando o porquê do compartilhamento dos memes ser um ato racista.

Antes, se puderem dar uma lida no capitulo 2[6] e 3[7] da Comunicação não-violenta deste mesmo blog, eu recomendo porque tem a ver com o assunto.

Houve uma projeção de valores destas pessoas mencionadas em relação a Taís Araújo. Esta projeção é até mesmo em relação a sua forma de combater o racismo. Entenderam a frase na SUA maneira de combater o racismo, apenas no contexto deles de que qualquer um iria tratar o filho da Tais Araújo de forma igual. Mas isso não é verdade, uma vez que o Spartakus Vlog[3] exemplifica essa situação, até mesmo citando negros bem sucedidos que também sofrem racismo. 

Essa maneira de interpretar a fala da atriz como vitimismo permitiu que o assunto fosse humorizado, tanto que os memes surgiram a partir desta percepção do vitimismo. Um exemplo é compararem o filho da Tais Araújo com um extraterrestre ou um animal selvagem, segundo tais interpretações. Tal pratica foi o racismo. Em outras palavras, eles não sabem como combater o racismo, e ainda o propagam (com ou sem sua conscientização, mas isso dependeria de seu nível de malícia). É um pensamento muito típico de pessoas que pensam apenas no mundo ao seu redor, como se eles estivessem presos em uma bolha social[8].


Essa questão de não saber como combater o racismo (e ainda achar que é problematizado) tem reflexões também no recente caso do afastamento do jornalista William Waack pela Rede Globo pela sua declaração racista[9]. Isto pois apareceram pessoas para defender o jornalista dizendo que ele não foi racista[10], sendo que a fala dele foi gravada e tem cunho racista[11]. E a maior afirmação de defesa foram utilizar falácias, como a teoria da conspiração do “Politicamente Correto”, de as pessoas terem inveja do jornalista, de um golpe arquitetado pela militância da esquerda, dentre outros. E é notável que a gravação só foi ao ar UM ANO DEPOIS do ocorrido, no qual é necessário um debate amplo do porquê desta demora de denunciar. Isto pois muito reflete na realidade do racismo no Brasil.

Eu diria que o racismo é como se fosse um camaleão, que é um animal que muda de pele para poder se aproximar de sua presa. Um dos vilões do Homem Aranha se chama Camaleão, que consegue mudar de aparência para poder se misturar entre as pessoas. Só que neste caso, o racismo não é um ser vivo. São características sociais que o ser humano absorveu inconscientemente. Com o tempo, tais características foram mudando de face, de estilo, de forma a se manter na nossa sociedade sem que ela perceba. Existem muitos traços racistas que a sociedade herdou vindos desta troca de pele constante do racismo. Por isso, é muito difícil se dizer contra o racismo e ao mesmo tempo possuir influência do senso comum.

máscaras de um camaleão



Enfatizando esta ideia do camaleão, vejamos o caso do dia 26 de novembro de 2017, em que a Day McCarthy chamou Titi, filha do Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank de “macaca”, e ainda atacou a aparência da criança[12].
“A menina é preta. Tem o cabelo horrível de pico de palha. Tem o nariz de preto horrível. E o povo fala que a menina é linda”

Existem muitas pessoas como McCarthy que criticam os negros ao serem elogiados. Porém, ao contrário da socialite, eles não são fáceis de serem identificados (e não querem ser identificados) e fazem estes tipos de comentários abertamente (muitas vezes tomando cuidado para continuar com sua invisibilidade), sendo que em certas situações as pessoas ao redor fazem de conta que não viram o ato racista. Tais indivíduos, como McCarthy, se sentem ameaçados por um negro estar ganhando mais visibilidade do que a mesma[13].

Lembrando que estes indivíduos estão em um nível diferente das pessoas que não são racistas, mas que enxergam frescura e exagero em alguns pontos no combate ao racismo, e consequentemente dificultam esse combate (como a polêmica no caso da Taís Araújo, em que era aceitável os memes publicados em relação ao seu filho). Logo, é importante saber desta invisibilidade do racismo, pois identificando-o será mais fácil para encontrar uma maneira de combate-lo.

 ilha de bruno gagliasso e giovanna ewbank sofre racismo


Desta forma, penso que essa semana da Consciência Negra é essencial para a reflexão do porquê de ainda existir racismo no Brasil. É obvio que o combate ao racismo exige que a sociedade fique livre destes pensamentos comuns, e que ela realmente entenda as consequências do racismo na estrutura social do país. Muitas pessoas pensam que Morgan Freeman está correto sobre a consciência negra, mas não está[14]. Em sua fala, da mesma forma que Nando Moura e cia, houve juízos de valores, e não condiz com a realidade histórica que os negros passaram. E é claro que a história de Consciência Negra não tem absolutamente nada a ver com a forma que tratamos nossos semelhantes nos tempos atuais, sejam as pessoas que concordem com Freeman ou não concordam. 

Aceitar a Consciência Negra não é racismo, mas negar sua história abre as portas para o mesmo. Um racismo que está oculto por muito tempo, e que de forma alguma quer ser exposto.

Bibliografia:


 [2] Taís Araújo faz discurso forte sobre criar seus filhos no Brasil - https://claudia.abril.com.br/famosos/tais-araujo-discurso-criar-filhos-tedx/
[3] OS MEMES RACISTAS DA TAÍS ARAÚJO - Preconceito racial, social e lugar de fala – SpartakusVlog - https://www.youtube.com/watch?v=TI04ky3s48Y
[4] Taís Araújo e sua CONSCIÊNCIA NEGRA!!! - https://www.youtube.com/watch?v=eokS3qiCijM
[6] Comunicação não violenta, Capítulo 2: a comunicação que bloqueia a compaixão - http://www.oespaco.net/2017/10/cnv-comunicacao-que-bloqueia-compaixao.html
[7] Comunicação não-violenta, Capítulo 3: observar sem avaliar - http://www.oespaco.net/2017/11/cnv-observar-sem-avaliar.html
[8] Você está em uma BOLHA SOCIAL? Descubra! - https://www.youtube.com/watch?v=COgkI7GhFR0
 [9] Globo afasta William Waack após comentário racista vazar em vídeo - https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/09/politica/1510184872_072863.html
[11] 18 expressões racistas que você usa sem saber - https://www.geledes.org.br/18-expressoes-racistas-que-voce-usa-sem-saber/
[13] A FILHA DO BRUNO GAGLIASSO E A REAL DISCRIMINAÇÃO - Muito além de "macaca" – SpartakusVLOG - https://www.youtube.com/watch?v=4i4wpTN-4zA

Sobre o Autor:
Rafael Henrique Engenheiro de Energia pela PUC-MG, e fazendo mestrado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela UNICAMP. Já fez intercâmbio em Flagstaff (EUA) pelo CsF, além de trabalhar por um ano na ONG Engenheiros sem Fronteiras Núcleo BH. Crê que a Engenharia pode criar uma grande transformação no mundo em aspectos econômicos, ambientais, políticos e sociais, da mesma forma que as demais ciências.

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