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Comunicação não-violenta, Capítulo 5: assumindo a responsabilidade por nossos sentimentos

2017/12/05 | Nenhum comentário | |


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 “As pessoas não são perturbadas pelas coisas, mas pelo modo que as veem”. Epicteto

Comunicação não violenta Capítulo 5: assumindo a responsabilidade pelos nossos próprios sementes

 Ouvindo uma mensagem negativa: 4 opções


Segundo Marshall, o que os outros fazem pode ser estímulo para nossos sentimentos, mas não a causa. No terceiro componente da CNV, reconhecemos e tomamos consciência da raiz desses sentimentos. Esse componente tem grande potencial transformador, nos traz autonomia e é muito importante.

Quando alguém nos envia uma mensagem negativa, seja verbal ou não, podemos receber de 4 maneiras.

Se alguém, com raiva, diz, por exemplo: “Você é a pessoa mais irresponsável que eu já vi”.

Podemos receber:

1. Culpando a nós mesmos

·         “Ah eu deveria ser mais cuidadoso”.
Aceitamos o julgamento pagando um preço caro, as custas de nossa autoestima.

2. Culpando os outros

·         “Você não tem o direito de dizer isso, estou sempre me esforçando por aqui”.
·         “Mas olha só quem está falando”.
Esse é um caminho que comumente traz um sentimento de raiva.

3. Escutar nossos próprios sentimentos

·         “Quando escuto você dizer que sou a pessoa mais irresponsável, fico magoado, porque preciso de algum reconhecimento de meus esforços em cuidar das coisas”.
Ao focarmos a atenção em nossos próprios sentimentos e necessidades, nos conscientizamos de que nosso atual sentimento de mágoa deriva da necessidade de que nossos esforços sejam reconhecidos

4. Escutar os sentimentos e necessidades dos outros.

·         "Você está magoado porque precisa de mais zelo ao seu redor”?
Virar o foco para os sentimentos e necessidades da outra pessoa, tais como expressos naquele momento e, assim, encontrar conexão.

QUatro formas de lidar com uma mensagem difícil
As duas últimas são mais interessantes.


Aceitamos a responsabilidade, em vez de culpar outras pessoas por nossos sentimentos, ao reconhecermos nossas próprias necessidades, desejos, expectativas, valores ou pensamentos. Observe a diferença entre as seguintes expressões de desapontamento:

EXEMPLO 1

A: "Você me desapontou ao não aparecer na noite passada."
B: "Fiquei desapontado quando você não apareceu, porque eu queria conversar a respeito de algumas coisas que estavam me incomodando."

Na frase A, a pessoa atribui a responsabilidade pelo desapontamento somente à atitude da outra pessoa. Em B, o sentimento de desapontamento é reconhecido no desejo da própria pessoa que fala, o qual não está sendo atendido

EXEMPLO 2

A: "Fiquei realmente irritado por eles terem cancelado o contrato."
B: "Quando eles cancelaram o contrato, senti-me realmente irritado, porque fiquei pensando que aquilo tinha sido de uma irresponsabilidade absurda."

Na frase A, a pessoa atribui sua irritação exclusivamente ao comportamento da outra pessoa, ao passo que, na frase B, ela aceita a responsabilidade por seus sentimentos, ao reconhecer o pensamento por trás deles. Ela reconhece que seu modo recriminatório de pensar havia gerado sua irritação.

Entretanto, a CNV encoraja a pessoa a ir além, identificando o que ela está querendo, qual desejo, expectativa ou necessidade não foi atendida? Quanto mais formos capazes de relacionar nossos sentimentos às nossas próprias necessidades, mais fácil será para os outros reagir compassivamente. Para relacionar seus sentimentos ao que ela estava querendo, a pessoa da frase B poderia ter dito:
 "Quando eles cancelaram o contrato, fiquei realmente irritado, porque eu tinha esperanças de recontratar os empregados que dispensamos no ano passado".

Fazer distinção entre doar de coração e ser motivado pela culpa


Atribuir o sentimento a outras pessoas é criar motivação pela culpa. Dizer: “mamãe fica triste quando você vai mal na escola”, significa inferir que a criança é a causa da felicidade da mãe. Isso pode ser confundido com preocupação positiva: parece que a criança se preocupa e se sente mal de ver a mãe sofrer, mas na verdade ela age, se agir, para evitar culpa.

Alguns padrões de linguagem ajudam a mascarar a responsabilidade por nossos sentimentos:

1. O uso de expressões e pronomes impessoais, como algo e isso:

·         “Algo que realmente me enfurece é quando erros de ortografia aparecem em nossos folhetos para o público"
·         “Isso me aborrece muito".

2. Afirmações que somente mencionam as ações de outros:

·         “Quando você não me liga em meu aniversário fico magoado";
·         "Mamãe fica desapontada quando você não termina de comer”.

 3. O uso da expressão "Sinto-me [uma emoção] porque" seguida de uma pessoa ou pronome pessoal que não eu.

·         “Sinto-me magoado porque você disse que não me amava".
·         "Sinto-me zangado porque a supervisora não cumpriu sua promessa".

 --- Expressaríamos melhor, no entanto, assumindo a responsabilidade, talvez assim:

1.      "Sinto-me realmente enfurecido quando erros de ortografia como esse aparecem em nossos folhetos para o público por que eu quero que nossa companhia projete uma imagem profissional.
2.      "Mamãe fica desapontada quando você não termina de comer, porque eu quero que você cresça forte e saudável"
3.      Sinto-me zangado por a supervisora não ter cumprido sua promessa, porque eu contava com aquele fim de semana para visitar meu irmão".


As necessidades na raiz dos julgamentos


Como já vimos, julgamentos, críticas, diagnósticos e interpretações dos outros são todas expressões alienadas e trágicas de nossas necessidades.
Quando uma esposa diz: "Você tem trabalhado até tarde todos os dias desta semana; você ama o trabalho mais do que a mim", ela está dizendo que sua necessidade de contato íntimo não está sendo atendida.

Quando expressamos nossas necessidades indiretamente, através do uso de avaliações, interpretações e imagens, é provável que os outros escutem nisso uma crítica e, por isso, tendem a investir sua energia na autodefesa ou no contra-ataque.

Se desejamos obter uma reação compassiva dos outros, expressar nossas necessidades interpretando ou diagnosticando o comportamento deles é jogar contra nós mesmos. Em vez disso, quanto mais diretamente conseguirmos conectar nossos sentimentos a nossas próprias necessidades, mais fácil será para os outros reagirem a estas com compaixão.

Infelizmente, a maioria de nós nunca foi ensinada a pensar em termos de necessidades. Estamos acostumados a pensar no que há de errado com as outras pessoas sempre que nossas necessidades não são satisfeitas. Assim, se desejamos que os casacos sejam pendurados no armário, por exemplo, podemos classificar nossos filhos de preguiçosos por deixá-los sobre o sofá.

Marshall nota em sua experiência que no momento em que as pessoas começam a conversar sobre o que precisam, em vez de falarem do que está errado com as outras, a possibilidade de encontrar maneiras de atender às necessidades de todos aumenta enormemente.

Eis algumas necessidades humanas universais:

Necessidades que todos nós compartilhamos.
Necessidades que todos nós compartilhamos.

A dor de expressarmos nossas necessidades versus A dor de não as expressarmos.


Se não valorizarmos nossas necessidades, os outros também podem não valorizá-Ias.

Num mundo onde somos frequentemente julgados severamente por identificarmos e revelarmos nossas necessidades, fazer isso pode ser bastante assustador.

As mulheres, em especial, estão sujeitas a críticas. Durante séculos, a imagem da mulher amorosa tem sido associada ao sacrifício e à negação de suas próprias necessidades, com o objetivo de cuidar dos outros. Devido ao fato de as mulheres serem socialmente ensinadas a considerar o cuidado com os outros como sua maior obrigação, elas muitas vezes aprenderam a ignorar as próprias necessidades.

Por ter medo de pedir o que precisa, uma mulher pode simplesmente deixar de dizer que ela teve um dia cheio, está cansada e gostaria de ter algum tempo à noite para si mesma; em vez disso, suas palavras saem como se fossem uma causa judicial: "Você sabe, não tive um momento para mim mesma o dia todo. Passei todas as camisas, lavei as roupas da semana toda, levei o cachorro ao veterinário, fiz o jantar, fiz a marmita do almoço e liguei para todos os vizinhos para avisar da reunião do bairro, então [implorando] ... que tal se você ... ?
Um pedido que reforça a crença de que elas não têm nenhum direito legítimo a suas necessidades e de que estas não são importantes.

mulher heropina
Amo, logo nego minhas necessidades.

"Não!", vem a resposta. O melancólico pedido provoca resistência de seus ouvintes, em vez de compaixão. Argumentar de um lugar em que ela “deveria” ou “mereceria” gera dificuldade em se ouvir e valorizar necessidades por trás dos pedidos.

No final, a mulher é novamente persuadida de que suas necessidades não importam, sem perceber que elas foram expressas de tal maneira que seria improvável obter uma reação favorável.

Da escravidão à libertação emocional.


No desenvolvimento em direção a um estado de libertação emocional, a maioria de nós parece passar, nos diz Marshall, por três estágios na maneira como nos relacionamos com os outros:

Estágio 1 - Escravidão emocional: vemos a nós mesmos como responsáveis pelos sentimentos dos outros.


Acreditamos que somos responsáveis pelos sentimentos dos outros. Achamos que devemos nos esforçar constantemente para manter todos felizes. Se eles não parecem felizes, sentimo-nos responsáveis e compelidos a fazer alguma coisa a respeito. Isso pode facilmente nos levar a ver as próprias pessoas que são mais próximas de nós como fardos.

Estágio 2 – Ranzinza: sentimos raiva, não queremos mais ser responsáveis pelos sentimentos dos outros.


Nessa fase, tomamos consciência do alto custo de assumir a responsabilidade pelos sentimentos dos outros e por tentar satisfazê-los em detrimento de nós mesmos. Quando percebemos quanto de nossa vida perdemos e quão pouco respondemos ao chamado de nossa própria alma, podemos ficar com raiva.

Às vezes reagimos e queremos ignorar totalmente tudo o que não seja nosso. Chutamos o balde. O que pode gerar sofrimento também, mas já é um passo adiante em relação a escravidão emocional.

Estágio 3 – Libertação emocional: assumimos a responsabilidade por nossas intenções e ações.


Na terceira etapa, a libertação emocional, respondemos às necessidades dos outros por compaixão, nunca por medo, culpa ou vergonha.

Aceitamos total responsabilidade por nossas intenções e ações, mas não pelos sentimentos dos outros. Nesse estágio, temos consciência de que nunca poderemos satisfazer nossas próprias necessidades à custa dos outros.

A libertação emocional envolve afirmar claramente o que necessitamos, de uma maneira que deixe óbvio que estamos igualmente empenhados em que as necessidades dos outros sejam satisfeitas.
Isso é CNV.

Exercício - Reconhecendo necessidades


Para praticar a identificação de necessidades, faça um círculo ao redor do número (ou memorize) em frente de todas as afirmações abaixo em que a pessoa estiver assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

  1. Você me irrita quando deixa documentos da empresa no chão da sala de conferências.
  2. Fico com raiva quando você diz isso, porque quero respeito e ouço suas palavras como um insulto.
  3. Sinto-me frustrada quando você chega atrasado.
  4. Estou triste por você não vir para jantar, porque eu estava esperando que pudéssemos passar a noite juntos.
  5. Estou desapontado porque você disse que faria aquilo e não o fez.
  6. Estou desmotivado porque gostaria de já ter progredido mais em meu trabalho.
  7. As pequenas coisas que as pessoas dizem às vezes me magoam.
  8. Sinto-me feliz porque você recebeu aquele prêmio.
  9. Fico com medo quando você levanta a voz.
  10. Estou grato por você ter me oferecido uma carona, porque eu precisava chegar em casa antes das crianças.

.
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....

Respostas de Marshall Rosenberg para o exercício.


1. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, essa afirmação implica que o comportamento da outra pessoa é exclusivamente responsável pelos sentimentos de quem falou. Ela não revela as necessidades ou pensamentos que estão contribuindo para os sentimentos dessa pessoa. Para tanto, a pessoa poderia ter dito: "Fico irritado quando você deixa documentos da companhia no chão da sala de conferências, porque quero que nossos documentos sejam guardados em segurança e fiquem acessíveis':

2. Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

3. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades ou ensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito: "Sinto-me frustrada quando você chega atrasado, porque eu esperava que conseguíssemos poltronas na primeira fila”.

4 Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

5. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades ou pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito: "Quando você disse que faria aquilo e depois não o fez, fiquei desapontada, porque eu gostaria de poder confiar em sua palavra':

6. Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.

7. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades ou pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia er dito."Às vezes quando as pessoas dizem algumas coisinhas, fico magoado, porque ser valorizado, não criticado”.

8.Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades e pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito'. "Quando você recebeu aquele prêmio, fiquei feliz, porque eu esperava que você fosse reconhecido por todo o trabalho que dedicou àquele projeto”.

9. Se você circulou esse número, discordamos. Para expressar as necessidades e pensamentos subjacentes a seus sentimentos, a pessoa poderia ter dito. "Quando você levanta sua voz, fico com medo, porque digo para mim mesma que alguém pode se ferir aqui, e preciso ter a certeza de que todos estamos seguros”

10. Se você circulou esse número, concordamos em que a pessoa está assumindo a responsabilidade por seus sentimentos.




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