Comunicação não-violenta, Capítulo 6: pedindo aquilo que enriquecerá nossa vida - O Espaço - Equilíbrio, empatia e prática Comunicação não-violenta, Capítulo 6: pedindo aquilo que enriquecerá nossa vida

Comunicação não-violenta, Capítulo 6: pedindo aquilo que enriquecerá nossa vida

2017/12/12 | Nenhum comentário | |


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Quando as pessoas confiam que o nosso compromisso maior é com a qualidade do relacionamento e que nossa expectativa é usar o processo para atender a necessidade de todos, então elas podem confiar que fazemos verdadeiros pedidos, e não exigências camufladas

Fazer um pedido – não uma exigência – de maneira clara e específica é o último dos quatros componentes da CNV. Nesse capítulo estudaremos como podemos expressar nossos pedidos de modo que os outros estejam mais dispostos a responder compassivamente a nossas necessidades.

Usando uma linguagem de ações positivas.


Em primeiro lugar, é preciso que saibamos expressar o que de fato estamos pedindo e não o que não estamos pedindo.

Ruth Bebermeyer levanta a questão em uma de sua canções:
Como é que você faz um “não faça”? Tudo que sei é que sinto “Não vou”.
Quando a gente pede um “não fazer”, as pessoas ficam confusas quanto ao que realmente está sendo pedido. Além disso, a solicitação negativa pode provocar resistência em seu ouvinte.

“Num seminário, uma mulher, frustrada porque o marido estava passando tempo demais no trabalho, descreveu como seu pedido tinha se voltado contra ela: ‘Pedi que ele não passasse tanto tempo no trabalho. Três semanas depois, ele reagiu anunciando que havia se inscrito num torneio de golfe!’. Ela havia comunicado a ele com sucesso o que ela não queria – que ele passasse tanto tempo no trabalho -, mas tinha deixado de pedir o que ela realmente queria. Solicitada a reformular seu pedido, ela pensou por um minuto e disse: ‘Eu queria ter-lhe dito que desejava que ele passasse pelo menos uma noite por semana em casa com as crianças e comigo’.”

Além de utilizarmos uma linguagem positiva, devemos evitar frases vagas, abstratas ou ambíguas e formular nossas solicitações na forma de ações concretas que os outros possam realizar.


Lassie, vá buscar ajuda!
Lassie! Vá buscar ajuda!!
No quadrinho acima, a cadela interpretou o vá pedir ajuda como procurar psicanálise, mas é provável que o homem se afogando estivesse se referindo a outro tipo de ajuda.

Marshall ilustra:

Um pai e o filho de 15 anos vieram se aconselhar comigo. "Tudo o que quero é que você comece a demonstrar um pouco de responsabilidade", alegou o pai. "É pedir demais?" Sugeri que especificasse o que o filho precisaria fazer para demonstrar a responsabilidade que ele queria. Depois de uma discussão sobre como tornar mais clara sua solicitação, o pai respondeu envergonhado: "Bem, isso não soa muito bem, mas quando digo que quero responsabilidade, o que quero mesmo dizer é que desejo que ele faça o que eu digo sem questionar – que pule quando eu disser para pular, e que faça isso sorrindo". Ele então concordou comigo que, se o filho se comportasse daquela maneira, estaria demonstrando obediência, e não responsabilidade.

Assim como esse pai, muitas vezes usamos uma linguagem vaga e abstrata para indicar como queremos que as outras pessoas se sintam ou sejam, sem especificar uma ação concreta que os outros possam fazer para alcançar aquele estado. Nesse sentido, a linguagem vaga e abstrata pode mascarar um jogo interpessoal de opressão.

Fazendo pedidos conscientemente.


Às vezes a gente expressa um desconforto e espera erroneamente que o ouvinte compreenda o pedido que está embutido. Por exemplo, uma mulher poderia dizer ao marido: "Estou aborrecida porque você se esqueceu de comprar a cebola que pedi para o jantar”. Embora pareça óbvio para ela um pedido para voltar à loja, o marido pode pensar suas palavras foram ditas apenas para que ele se sentisse culpado.

Igualmente problemática é a situação oposta: quando as pessoas fazem seus pedidos sem primeiro comunicar os sentimentos e necessidades por trás deles.

Isso é especialmente verdadeiro quando o pedido assume a forma de uma pergunta: "Por que você não vai cortar o cabelo?"

Essa pergunta pode facilmente ser entendida pelos jovens como uma exigência ou um ataque, a menos que os pais se lembrem de primeiro revelar seus próprios sentimentos e necessidades: "Estamos preocupados, porque seu cabelo está ficando tão comprido que pode impedir você de ver as coisas, especialmente quando está em sua bicicleta. Que tal cortá-lo?"
Quanto mais claros formos a respeito do que queremos obter, mais provável será que o consigamos.
Entretanto, é mais comum que as pessoas conversem sem estar conscientes do que estão pedindo. As pessoas podem dizer que não estão pedindo nada, no entanto, Marshall nos diz que sempre que dizemos algo a alguém, estamos pedindo algo em troca.

Pode ser simplesmente uma conexão de empatia - um reconhecimento verbal ou não-verbal de que nossas palavras foram compreendidas. Ou podemos estar pedindo honestidade: saber qual é a reação honesta do ouvinte a nossas palavras. Ou ainda podemos estar pedindo uma ação que satisfaça a nossas necessidades. Quanto mais claros formos a respeito do que queremos da outra pessoa, mais provável será que nossas necessidades sejam atendidas.


Pedindo um retorno.


A mensagem que enviamos nem sempre é a mensagem que é recebida.
Geralmente dependemos de pistas verbais para determinar se nossa mensagem foi compreendida da maneira que queríamos. Mas, se não temos certeza de que foi recebida como pretendíamos, podemos solicitar claramente uma resposta que nos diga como a mensagem foi ouvida, a fim de evitar qualquer mal-entendido.

Em algumas ocasiões, apenas um “está claro?” é suficiente. Em outras, precisamos do que um “Sim, entendi” para estarmos seguros de que a mensagem foi recebida. Aqui, podemos pedir ao outro que repetia com suas palavras o que acabara de ouvir. Temos então uma oportunidade de reformular partes de nossa mensagem de modo que resolva qualquer discrepância que possamos ter notado no retorno que recebemos.

Pode ser que, num primeiro momento, isso soe estranho. Pode ser que o outro interprete como uma afronta a sua capacidade auditiva ou interpretativa. Quando isso acontecer, podemos nos utilizar da CNV mais uma vez para mostrar o quanto é importante é para nós ter a confiança de que conseguimos emitir realmente a sutileza da mensagem.

Pedindo honestidade.


Quando nos expressamos abertamente e vulnerável, e recebemos a compreensão que desejávamos, é comum que fiquemos ansiosos para saber qual a reação da outra pessoa ao que dissemos. Geralmente, esperamos a honestidade em algum desses três caminhos:

Queremos saber qual sentimento foi estimulado pelo que foi dito. O que poderia ser perguntando: “Gostaria que você me dissesse como se sente a respeito do que acabei de falar e suas razões para sentir-se assim”

Queremos saber qual a opinião do interlocutor em relação ao que foi dito. Nesse caso é importante especificar o lugar dessa opinião: "Gostaria que você me dissesse se prevê que minha proposta terá sucesso e, caso contrário, o que você acha que pode impedir seu sucesso", em vez de simplesmente:

"Gostaria de saber o que acha”.

Queremos saber se o ouvinte está disposto a tomar determinada atitude.

O que poderia ser feito da seguinte maneira: “Gostaria de saber se você está disposto a adiar a reunião desta semana”.

Fazendo pedido a um grupo.


Reunir-se em um grupo de discussão nem sempre é fácil. Se o objetivo e a motivação das nossas intervenções não estiver claro, a reunião pode facilmente se perder e criar um sentimento geral de que estar ali é uma grande perda de tempo.

Ao contar uma história ao grupo, por exemplo, é comum de os outros presentes também compartilharem vivências semelhantes e a reunião se estender sem chegar a lugar algum. Basta algumas interações improdutivas para que horas de grupo se arrastem indefinidamente e não satisfaçam a necessidade de nenhum presente. Frustração geral e muito comum.

A consciência do Bas.


Na Índia, quando as pessoas recebem a resposta que desejavam em conversas que elas mesmas iniciaram, elas dizem: "Bas!" Isso significa: "Você não precisa dizer mais nada. Estou satisfeito e já estou pronto para passar a outro assunto". Embora não tenhamos uma palavra como essa em nosso idioma, ainda podemos nos beneficiar de desenvolver e promover a "consciência do bas" em todas as nossas interações.


Pedido versus Exigência


Qual a melhor maneira de identificarmos se estamos fazendo um pedido ou uma exigência? Se aceitamos receber um “não” entendendo que isso é um “sim” para alguma outra necessidade do outro, então estamos fazendo um pedido. Se não aceitamos que ele diga não, então trata-se de uma exigência.


Como ousa me dizer não! Exigências!
Como ousa me dizer não?? Exigências e suas justificações.

Pedidos são interpretados como exigências, quando os outros acreditam que serão culpados ou punidos se não atenderem. Quando as pessoas ouvem uma exigência, elas enxergam duas opções: submissão ou rebelião.
Nos dois casos, quem fez o pedido é visto como coercitivo e a chance de se receber um retorno compassivo é reduzido fortemente.
“Quanto mais tivermos culpado, punido ou acusado os outros quando não atenderam a nossas solicitações no passado, maior será a probabilidade de que nossos pedidos sejam agora entendidos como exigências”.
Se José diz a Maria: “Estou me sentindo solitário, gostaria que você saísse comigo essa noite”.

Isso seria pedido ou exigência?

"José, estou muito cansada. Se você quer ter companhia, que tal encontrar outra pessoa para sair com você esta noite?" Se José disser: "É tão típico de você ser assim egoísta!", então isso é uma exigência.

Quanto mais interpretarmos como rejeição o não-atendimento de nossas solicitações, mais provável será que nossos pedidos sejam entendidos como exigências.

Pessoas que têm uma trajetória na qual recebem exigências a todo momento, tendem a ver os nossos pedidos da mesma forma. Também acontece quando ocupamos alguma posição de autoridade. A maneira mais poderosa de comunicar que o que estamos fazendo é um pedido genuíno é oferecer nossa empatia quando as pessoas não atendem a nossa solicitação:

“Se estivermos preparados para demonstrar uma compreensão empática do que impede que a pessoa faça o que pedimos, então, por minha definição, fizemos um pedido, e não uma exigência”.

Definindo nosso objetivo ao fazer pedidos.


A CNV não é uma ferramenta para mudar as pessoas e obter o que queremos.

O processo foi desenvolvido para aqueles que querem que os outros mudem e nos atendam, mas somente se escolherem fazer isso de livre vontade e compaixão.
O objetivo da CNV é estabelecer um relacionamento baseado na sinceridade e na empatia.
“Quando os outros confiam que nosso compromisso maior é com a qualidade do relacionamento, e que esperamos que esse processo satisfaça às necessidades de todos, então elas podem confiar que nossas solicitações são verdadeiramente pedidos, e não exigências camufladas”.

É mais difícil manter isso em mente quando ocupamos posições de autoridade, como pais, professores e chefes, e acreditamos precisar influenciar pessoas para obter resultados comportamentais.

Também é preciso ficar atento aos pensamentos que fazem nosso pedido automaticamente se tornar uma exigência:
  •       Ele deveria se arrumar sozinho.
  •       Espera-se que ela faça o que eu peço.
  •       Eu mereço um aumento.
  •       Tenho motivos para querer que eles fiquem até mais tarde.
  •       Tenho o direito de ter mais tempo de folga.
Quando formulamos nossas necessidades dessa maneira estamos fadados a julgar os outros quando eles não fazem o que pedimos.

Exercício


Será que concordamos com Marshall?

Para verificar se concordamos a respeito da clara expressão dos pedidos, circule o número em frente de qualquer uma das frases a seguir em que a pessoa esteja claramente solicitando que alguma ação especifica seja feita.

  1.  Quero que você me compreenda.
  2. Gostaria que você me dissesse uma coisa que eu fiz de que você gostou.
  3. Gostaria que você sentisse mais confiança em si mesmo.
  4. Quero que você pare de beber.
  5. Gostaria que você me deixasse ser eu mesma.
  6. Gostaria que você fosse honesto comigo a respeito da reunião de ontem.
  7. Gostaria que você dirigisse dentro do limite de velocidade.
  8. Gostaria de conhecer melhor você.
  9. Gostaria que você demonstrasse respeito por minha privacidade.
  10. Gostaria que você preparasse o jantar mais vezes.



Respostas:


1. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, a palavra compreenda não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. Em vez disso, a pessoa poderia ter dito: "Quero que você repita para mim o que você me ouviu dizer".

2. Se você circulou esse número, concordamos em que a frase expressa claramente o que a pessoa está pedindo.

3. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, a expressão "sentir mais confiança" não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você fizesse um treinamento em pensamento afirmativo, que acredito que aumentaria sua autoconfiança”.

4. Se você circulou esse número, discordamos. Para mim, a expressão "parar de beber" não expressa claramente o que a pessoa quer, e, sim, o que ela não quer. Ela poderia ter dito: "Quero que você me diga quais de suas necessidades a bebida satisfaz e que conversemos sobre outras maneiras de satisfazer essas necessidades”.

5. Se você fez um círculo em volta desse número, não concordamos. Para mim, a expressão "me deixar ser eu mesma" não expressa claramente uma ação especifica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Quero que você me diga que não vai abandonar nosso relacionamento, mesmo que eu faça algumas coisas de que você não goste".

6. Se você fez um círculo ao redor desse número, discordamos. Para mim, a expressão "ser honesto comigo" não expressa claramente uma ação especifica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Quero que você me diga como se sente a respeito do que eu fiz e o que gostaria que eu tivesse feito de modo diferente".

7. Se você fez um círculo em volta desse número, concordamos que a frase expressa claramente o que a pessoa está pedindo.

8. Se você fez um círculo ao redor desse número, não concordamos. Para mim, essa frase não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você me dissesse se estaria disposto a se encontrar comigo para almoçar uma vez por semana".

9. Se você fez um círculo ao redor desse número, discordamos. Para mim, a expressão "demonstrar respeito por minha privacidade" não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você concordasse em bater na porta antes de entrar em meu escritório”

10. Se você fez um círculo ao redor desse número, não estamos de acordo. Para mim, a expressão "mais vezes" não expressa claramente uma ação específica que está sendo solicitada. A pessoa poderia ter dito: "Gostaria que você preparasse o jantar toda segunda-feira à noite”.

Até o próximo capítulo!




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