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Comunicação não-violenta, capítulo 8: o poder da empatia

2018/02/16 | Nenhum comentário | |




O poder da empatia em curar e conectar


“A empatia nos permite ‘perceber’ nosso mundo de uma maneira nova e ir em frente”. Carl Rogers

Nesse capítulo, aprendemos como buscar empatia pode nos ajudar nas mais diversas e inusitadas situações.


Empatia que cura


Marshall conta que uma de suas amigas, Laurence, descreveu como ficou aborrecida quando o filho de 6 anos saiu correndo enraivecido enquanto ela ainda falava com ele. Isabelle, sua filha de 10 anos, que a havia acompanhado a um seminário recente de CNV, observou: "Então você está com muita raiva, mamãe. Você gostaria que ele conversasse quando está com raiva, e não que fosse embora correndo". Laurence ficou maravilhada de como, ao ouvir as palavras de Isabelle, ela sentiu uma imediata diminuição da tensão e, mais tarde, conseguiu ser mais compreensiva com o filho, quando ele voltou.

“Um dos aspectos mais gratificantes de meu trabalho é ouvir como as pessoas usaram a CNV para fortalecer sua capacidade de se conectar com empatia aos outros”.

No entanto, ele ressalta que, quando estamos inseridos em uma estrutura hierarquizada, como acontece em alguns ambientes de trabalho, por exemplo, há uma tendência a ouvir ordens e julgamentos daqueles que estão em posições superiores. E, por isso, é preciso um esforço maior para ter empatia para com essas pessoas e não receber tudo no pessoal.


Empatia e a capacidade de ser vulnerável


A CNV realmente pode ser desafiadora pra muitos de nós. Ela nos pede o expressar de nossos sentimentos e necessidades em momentos que, por vezes, são delicados. Situações que, por exemplo, temos medo de perder o controle ou a autoridade e tentamos passar uma imagem rígida.

Contudo, essa tarefa pode se tornar menos pesada, quando nos conectamos em empatia com o outro. Nesse momento, percebemos sua humanidade e estamos em contato com qualidades que temos em comum.

Quanto maior a empatia que temos com a outra pessoa, mais seguros nos sentimos para partilharmos.

Quando a pessoa tem em seu histórico situações em que ouviu sentimentos como “isso me magoou” apenas para sinalizar desaprovação, pode ser que, num primeiro momento, ela relute em aceitar a nossa vulnerabilidade, por receio de isso ser usado com o intuito de desaprová-la.

Nesse momento, podemos receber essa desconfiança como a necessidade que ela representa e nos aproximar empaticamente.

“Nós ‘dizemos muita coisa’ ao escutarmos os sentimentos e necessidades das outras pessoas”.



Usando a empatia para afastar o perigo


A capacidade de oferecer empatia a pessoas em situações tensas pode afastar o risco potencial de violência.

Aqui, temos o exemplo de uma professora num decadente centro urbano que escolheu deliberadamente ficar depois da aula para ajudar um aluno, embora os outros professores a tivessem alertado do perigo de ficar até tarde no edifício. Quando um estranho entrou em sua sala e o seguinte diálogo se seguiu:

usando a empatia para afastar o perigo


Ela entregou a bolsa aliviada. Mais tarde descreveu como, a cada vez que oferecia empatia ao rapaz, ela podia senti-lo menos determinado a prosseguir com o estupro.

Aqui também, Rosenberg conta que, em um centro de recuperação química, uma de suas alunas foi agredida por um usuário que estava sob efeito de drogas que a derrubou no chão exigindo um quarto.

Ela, então, segurou o impulso de dizer: “mas não temos nenhum quarto”. E, em vez disso, usou o que aprendeu no seminário de CNV:

“Parece que você está realmente com raiva e quer ter um quarto”.

Ele respondeu gritando: “Posso ser viciado, mas, por Deus, mereço respeito! Estou cansado de ninguém me respeitar. Meus pais não me respeitam. Eu vou ser respeitado!”

Ela concentrou-se em seus pensamentos e necessidades e disse: Você está farto de não obter o respeito que deseja?”

A conversa se seguiu por mais 35 minutos, nos quais, a mulher não via mais o agressor como monstro, mas como um ser humano cuja linguagem e comportamento às vezes escondem sua natureza humana. Ela conseguiu o guiar a outro centro, o qual havia quartos disponíveis.

Ofereça sua empatia, em vez de falar “mas ...” para uma pessoa com raiva.

O curioso é que a mulher depois voltou aos seminários para tentar incorporar CNV junto à sua família. Marshall chama este de um caso poderoso para ilustrar o quanto pode ser difícil responder com empatia aos membros da nossa própria família!


Empatia ao ouvir um “Não!” de alguém


Buscar empatia diante do não de alguém nos protege de toma-lo como pessoal.

Existe uma tendência de entender como rejeição quando alguém nos diz não. Se isso acontecer, é provável que nos sintamos magoados e sem entender realmente o que se passa com a outra pessoa.

Mais uma vez, vale lembrar, a CNV nos tira da alienação que a nossa linguagem nos coloca. Entender que o não do outro carrega um sim para seus próprios sentimentos e necessidades, faz com que tenhamos clareza do que ele está precisando quando nos diz “não”.

Como ousa a me dizer não?!



Empatia para reanimar uma conversa morna



Você com certeza já esteve também em uma conversa daquelas meio mornas. Acontece quando estamos ouvindo palavras sem sentir nenhuma conexão com quem fala ou quando alguém começa a falar sem parar e sem dar chance aos outros de participar da conversa.

“A vitalidade se esvai da conversa quando perdemos a conexão com os sentimentos e necessidades que ocasionaram as palavras de quem fala, e com as solicitações associadas a essas necessidades. Isso é comum quando as pessoas conversam sem ter consciência do que estão sentindo, necessitando ou pedindo. Em vez de nos envolvermos numa troca de energia vital com outros seres humanos, percebemos que nos tornamos cestas de lixo para suas palavras”.

E qual seria o momento certo para interromper uma conversa e trazê-la de volta a vida? O mais rápido o possível.

Quanto mais esperarmos em uma conversa sem vida, mais difícil fica de sermos educados na intervenção.

Mas é importante que saibamos claramente qual é a nossa intenção nesse momento. Não se trata de querer dominar a conversa, mas sim de ajudar quem fala a se conectar a energia vital por trás das palavras que estão sendo ditas.

“Assim, se uma tia está repetindo a história de como vinte anos atrás o marido a abandonou com dois filhos pequenos, podemos interromper dizendo: ‘Então, tia, parece que a senhora ainda está magoada e gostaria de ter sido tratada de modo mais justo’.”

As pessoas não têm consciência de que frequentemente é de empatia que elas precisam. Elas também não percebem que a maneira que é mais provável se receber empatia quando se expressa sentimentos e necessidades, em vez de remoer histórias antigas de suas dificuldades no passado.

Outra maneira de reanimar uma conversa é expressar abertamente o desejo de nos conectar mais profundamente com a outra pessoa.

Parece estranho e inadequado interromper alguém. Mas é mais respeitoso que elas saibam o que estamos sentindo do que fingir um falso interesse, além de também ser um sinal de consideração. A gente prefere palavras que enriquecem a vida do outro e não que sejam um fardo pra eles, não é verdade?

Além do mais, se a conversa que ouvimos nos é tediosa, a chance de ela estar sendo tediosa para quem fala é muito grande. Um teatro social desgastante que não precisa acontecer.


Empatia pelo silêncio


Ter empatia pelo silêncio escutando os sentimentos e necessidades por trás dele.

O silêncio diz muita coisa e a gente pode e deve tentar entender qual a necessidade por trás de quem o faz. Concentrando no que se passa dentro dela. Ao nos concentrarmos nos possíveis julgamentos por trás daquele silêncio, podemos criar monstros horríveis dentro de nós, nos alienando para a realidade que ali está posta.

Certa vez, Marshall recebeu em seu consultório uma paciente de 20 anos que estava há três meses muda, depois de passar por tratamentos psiquiátricos com remédios fortes e choques. Nos dois primeiros encontros, ele tentou fazer observações empáticas, intercalando as com a expressão de seus próprios sentimentos e preocupações. Mas não conseguia nenhuma resposta.

No terceiro dia, ele fez o mesmo, porém dando a mão para a menina. Sentiu uma leve reação. Já no quarto dia, ela o trouxe um bilhete escrito:

"Por favor, ajude-me a dizer o que tenho por dentro".

A partir daí, as coisas começaram a caminhar vagarosamente. Depois de um ano ela enviou uma cópia do seu diário com os dizeres:



Impressionante depoimento. Impressionante também o poder curativo da empatia, você também não acha?

Até o próximo capítulo!




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