Perguntaram ao Marshall Rosenberg o que é o amor. E a resposta... - O Espaço - Comunicação Não-violenta Perguntaram ao Marshall Rosenberg o que é o amor. E a resposta...

Perguntaram ao Marshall Rosenberg o que é o amor. E a resposta...

2018/02/27 | Nenhum comentário | |


Marshall Rosenberg em o que é o amor



Tradução do francês por Maristela Lima


- O que é o amor?


Comunicação Não-Violenta desenvolveu-se precisamente para responder a esta questão. O que é o amor? Como nós podemos viver o amor? Minha visão das coisas é que nós demonstramos reciprocamente amor quando nos conectamos uns aos outros com empatia, quando mostramos ao outro o que nos emociona, quando nos asseguramos que a conexão estabelecida com o outro é fundada apenas e unicamente na necessidade de dar e receber compaixão. 

A maioria de nós define o amor de uma maneira totalmente diferente; nós pensamos que amor é um sentimento. Se olharmos com atenção exatamente o que acontece quando você pergunta ao seu parceiro amoroso: “Você me ama?”, constatamos que estamos, na verdade, fazendo outra pergunta: “Você tem sentimentos de carinho por mim? Seu coração bate por mim?”. E os sentimentos não têm nada de estático, eles podem evoluir de um momento a outro. É por isso que a resposta mais honesta à questão “Você me ama?”, é uma outra questão:

“Você quer saber o que eu sinto agora, neste momento? Ou você quer que eu faça extrapolações para avaliar quantos minutos eu vou pensar em você em termos de carinho e ternura ao longo dos próximos meses?”
.

Claro, uma reação assim corre um grande risco de provocar sentimentos de irritação ou raiva em seu parceiro, que gostaria de ter clareza: “E então? Você tem ou não estes sentimentos por mim?”. Na realidade, é impossível reagir a esta pergunta com uma resposta universalmente válida. A única resposta honesta está ligada a certo contexto e a um momento específico.

Vários casais se violentam falando de amor sem saber exatamente o que eles entendem por “amor”.(…) Muitas pessoas precisam atravessar cinco relações infelizes antes de compreender que nunca sua necessidade de amor será preenchida se elas buscam um/a parceiro/a que satisfaça todos os seus desejos antes de elas mesmas saberem o que querem. E aí, nós tocamos apenas em uma das numerosas estratégias destrutivas que nossa cultura nos ensinou para abordar o amor, a intimidade e a sexualidade.(…)


E como eu posso me dirigir ao ser amado dizendo “Eu te amo”, sem temer os efeitos colaterais que minha pergunta poderia provocar?


Eu me lembro da primeira vez em que me perguntei isso: mas como então posso dizer “eu te amo”? Estava sentado em minha mesa de trabalho e redigia um texto que eu deveria apresentar em breve sobre o tema. Eu fui à cozinha pegar algo para beber e encontrei minha filha pintando sobre a mesa. Senti vontade de me debruçar sobre ela, como tinha o hábito de fazer, e de lhe dar um beijo dizendo “eu te amo”. Mas eu parei e ouvi uma vozinha em mim: “Se você pensa realmente que ama sua filha, tente formular seus sentimentos de maneira que ela possa realmente ouvi-los. O que você gostaria de celebrar? O que minha filha remexe no fundo de mim tão fortemente? Ela está apenas lá, na mesa da cozinha, pintando”. E eu me lancei: 

– Marla, quando eu vejo você sentada aí, pintando, eu…

E eu procurava os sentimentos que me habitavam. Seria tão simples dizer “eu te amo” porque isso evitaria me colocar em conexão comigo mesmo. Agora, seria preciso aprofundar meus sentimentos. E foi o que fiz. Quando tive clareza de meus sentimentos e necessidades, senti uma imensa felicidade, muito mais forte do que antes. Então, eu lhe disse:

– Quando eu vejo você sentada aí, pintando, eu sinto uma intensa alegria de viver na companhia de um ser tão maravilhoso: isso preenche tão bem esta intensa necessidade de conexão que me habita.

Eu pude ver então, no fundo de seus olhos, que minhas palavras lhe trouxeram muito mais prazer que se eu tivesse lançado um “eu te amo” qualquer. Isto feito, eu também desvendei muito mais coisas de meu mundo interior. Eu só posso recomendar ardentemente que você também faça esta experiência. Comporte-se das duas maneiras e pergunte às pessoas de seu convívio o que elas pensam das duas atitudes, e qual elas preferem. 

Mas eu preciso também lhe prevenir para as consequências desta mudança. Se uma pessoa tomou gosto pela expressão detalhada de sentimentos, você pode guardar os seus “eu te amo”; eles não significam mais nada. Quando eu falo à minha companheira “eu te amo”, ela me atira: “Ah, não, eu quero a versão integral!”.


A bela imagem de um casal unido para a vida toda tem sentido para você?






Para mim, se duas pessoas têm trocas regulares e honestas sobre sua maneira de ver as coisas e suas intenções, elas têm muito mais chances de ver sua relação durar a vida toda do que se elas não o fazem. É bom que dois seres conversem periodicamente sobre suas necessidades e sobre as estratégias que eles usam individualmente ou em comum para satisfazê-las. Se eles estão atentos a tudo que poderia bloquear seu desejo de proximidade e sua aspiração a manter uma conexão acolhedora entre eles, a base de sua relação torna-se tão sólida e gostosa de viver que cada um deles decidirá, livremente, dia após dia, continuar.

 
Se o amor não é um sentimento, o que é então o amor? É uma necessidade?


Quando eu falo de “amor”, eu entendo duas coisas distintas. Primeiramente, utilizo a palavra amor como expressão de uma atitude espiritual. Quando eu me reconecto a esta dimensão espiritual, o amor diz respeito ao conjunto da humanidade, a todos os seres vivos sobre esta Terra, às árvores, ao mar, ao ar, à energia divina. 

O prazer de estar ao serviço da vida é a fonte de uma de nossas necessidades mais fundamentais. Regar uma planta e se alegrar de vê-la crescer… eis como eu concebo o amor. Esta dimensão espiritual do amor se aplica também aos seres humanos. Eu posso amar uma pessoa com este amor, mesmo se ela não me é particularmente simpática ou mesmo se eu não gosto dela. E, apesar de tudo, eu posso contribuir para que tudo vá bem para ela. Nossa mais bela maneira de cuidar de nós mesmos é de dar aos que estão a nossa volta apreciações profundas. 

Do contrário, cada vez que nós chamamos alguém de imbecil, nós pagamos um preço muito alto, pois isto é como dizer que nós vivemos num mundo repleto de imbecis. Se eu me decido a ver prioritariamente a beleza de cada um, é a mim mesmo que eu trato com amor. Esta mensagem não é minha: todas as religiões a trouxeram, cada uma a sua maneira: “Não julgue para que não seja julgado… Ame ao seu próximo como a si mesmo…”. Eu tenho a escolha de servir a vida me apoiando nesta atitude interior. Cada um dos meus gestos parte de meu único prazer de entrar em contato com todos os seres vivos, e não de uma obrigação qualquer, um sentimento de culpa, ou porque está escrito na bíblia. Fazendo isto, eu contemplo uma de minhas necessidades mais importantes: de sentido. Eis minha primeira definição de amor.

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