Um processo direcional na vida, por Carl Rogers - O Espaço - Comunicação Não-violenta Um processo direcional na vida, por Carl Rogers

Um processo direcional na vida, por Carl Rogers

2018/08/22 | Nenhum comentário | |


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do livro "Um Jeito de Ser"...



A prática, a teoria e a pesquisa deixam claro que a abordagem centrada no cliente baseia-se na confiança em todos os seres humanos e em todos os organismos. Há provas advindas de outras disciplinas que autorizam uma afirmação ainda mais ampla. Podemos dizer que em cada  organismo,  não  importa  em  que  nível,    um  fluxo  subjacente  de  movimento  em direção à realização construtiva das possibilidades que lhe são inerentes. Há também nos seres  humanos  uma  tendência  natural  a  um  desenvolvimento  mais  completo  e  mais complexo. A expressão mais usada para designar esse processo é “tendência realizadora”, presente em todos os organismos vivos.

Quer falemos de uma flor ou de um carvalho, de uma minhoca ou de um belo pássaro, de  uma maçã ou de uma pessoa, creio que estaremos certos ao reconhecermos que a vida é um processo ativo, e não passivo. Pouco importa que o estímulo venha de dentro ou de fora, pouco  importa  que o  ambiente  seja  favorável  ou  desfavorável.  Em  qualquer  uma  dessas condições, os comportamentos de um organismo estarão voltados para a sua manutenção, seu crescimento e sua reprodução. Essa é a própria natureza do processo a que chamamos vida. Esta tendência está em ação em todas as ocasiões. Na verdade, somente a presença ou ausência desse processo direcional total permite-nos dizer se um dado organismo está vivo ou morto. 

A tendência realizadora pode, evidentemente, ser frustrada ou desvirtuada, mas não pode ser  destruída  sem  que  se  destrua  também  o  organismo.  

Lembro-me  de  um  episódio  da minha  meninice,  que  ilustra  essa  tendência.  A  caixa  em  que  armazenávamos  nosso suprimento  de  batatas  para  o  inverno  era  guardada  no  porão,  vários  pés  abaixo  de uma pequena janela. As condições eram desfavoráveis, mas as batatas começavam a germinar — eram brotos pálidos e brancos, tão diferentes dos rebentos verdes e sadios que as batatas produziam  quando  plantadas  na  terra,  durante  a  primavera.  Mas  esses  brotos  tristes  e esguios cresceram dois ou três pés em busca da luz distante da janela. Em seu crescimento bizarro e vão, esses brotos eram uma expressão desesperada da tendência direcional de que estou  falando.  Nunca  seriam  plantas,  nunca  amadureceriam,  nunca  realizariam  seu verdadeiro potencial. Mas sob as mais adversas circunstâncias, estavam tentando ser uma planta. 

a tendência auto atualizante



A vida não entregaria os pontos, mesmo que não pudesse florescer. Ao lidar com clientes cujas  vidas  foram  terrivelmente  desvirtuadas,  ao  trabalhar  com  homens  e  mulheres  nas salas  de  fundo  dos  hospitais  do  Estado,  sempre  penso  nesses  brotos  de  batatas.  As condições  em  que  se  desenvolveram  essas  pessoas  têm  sido  tão  desfavoráveis  que  suas vidas quase sempre parecem anormais, distorcidas, pouco humanas. E, no entanto, pode-se confiar que a tendência realizadora está presente nessas pessoas. A chave para entender seu comportamento é a luta em que se empenham para crescer e ser, utilizando-se dos recursos que acreditam ser os disponíveis. Para as pessoas saudáveis, os resultados podem parecer bizarros e inúteis, mas são uma tentativa desesperada da vida para existir. Esta tendência construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem centrada na pessoa.

As células do ouriço marinho


Não sou o único a ver na tendência à auto-realização a resposta fundamental à questão do que faz um organismo “pulsar”. Goldstein (1974), Maslow (1954), Angyal (1941, 1965), Szent-Gyoergyi  (1974),  entre  outros,  defenderam  concepções  semelhantes  e  exerceram influências sobre meu modo de pensar. Em 1963, ressaltei que esta tendência implica num desenvolvimento  em  direção  à diferenciação  dos  órgãos  e  das  funções;  implica  em crescimento através da reprodução. Szent-Gyoergyi afirma não poder explicar os mistérios do  desenvolvimento  biológico  “sem  supor  um impulso‟  natural,  na  matéria  viva,  em  direção  ao  aperfeiçoamento”  (p.  17).  O  organismo,  em  seu  estado  normal,  busca  a  sua  própria realização, a auto-regulação e a independência do controle externo.  Mas será que esta concepção é confirmada por outros tipos de dados? Dispomos de alguns trabalhos, na Biologia, que  fundamentam o conceito de tendência auto-realizadora. 

Hans Driesch  realizou,    muitos  anos  atrás,  um  experimento,  replicado  com  outras  espécies, tendo como sujeitos ouriços do mar. Driesch separou as duas células que se formam após a primeira divisão do ovo fertilizado. Se tivessem se desenvolvido normalmente, é claro que cada  uma  delas  teria  se  transformado  em  uma  parte  do ouriço,  sendo  que  ambas  seriam necessárias à formação da criatura inteira. Portanto, parece igualmente óbvio que quando as duas  células  são  cuidadosamente  separadas  e  conseguem  crescer,  cada  uma  delas responderá apenas pela parte do ouriço que  lhe cabe. Mas esta suposição desconsidera a tendência  direcional  e  autorealizadora,  característica  de  todo  crescimento  orgânico. 

Segundo o resultado encontrado, cada célula, conservada viva, se transforma em uma larva de ouriço do mar, inteira — um pouco menor do que o comum, mas normal e completa. 

Escolhi este exemplo porque se assemelha muito à minha experiência com indivíduos em relações  de  terapia  individual,  na  facilitação  de  grupos  intensivos,  na  promoção  da “liberdade  para  aprender”  junto  a  alunos,  nas  salas  de  aula.  Nessas  situações,  fico impressionado  com  a  tendência  que  todo  ser  humano  exibe  em  direção  à  totalidade, em direção à realização de suas potencialidades.  A  psicoterapia ou a experiência grupal não surtiram efeitos quando tentei criar no indivíduo algo que ainda não estava lá; no entanto, descobri que se criar as condições que permitem o crescimento, essa tendência direcional positiva leva a resultados positivos. Aquele cientista, diante do ouriço dividido, estava na mesma situação. Ele não podia determinar que a célula se desenvolvesse nessa ou naquela direção, mas quando se concentrou na tarefa de criar as condições para sua sobrevivência e seu crescimento, a tendência ao crescimento e a direção do crescimento, provenientes do interior  do  organismo,  tornaram-se  evidentes.  Não  consigo  imaginar  uma  analogia  mais adequada  para  as  situações  de  terapia  e  de  grupo.  Quando  consigo  criar  um  fluido amniótico psicológico surge movimento para a frente, de natureza construtiva. 


(...)

Sabe-se hoje que o “código  genético” não contém todas as informações  necessárias à especificação das características do organismo maduro. Ao invés disso, contém um conjunto de regras que determinam as interações  entre as células em divisão. A quantidade de informações necessárias à  codificação das regras é  muito menor do  que a que se faz necessária à orientação de cada aspecto do desenvolvimento maturacional. “Assim, a informação pode ser gerada dentro do sistema organísmico — a informação pode crescer.” (Pentony, p. 9, grifo meu.) Daí se conclui que as células de ouriço marinho trabalhadas por Driesch estão, sem dúvida, seguindo as regras codificadas e, consequentemente, estão aptas a se desenvolverem de modo original, sem uma especificação prévia ou rígida. 

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