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Comunicação não-violenta, capítulo 11: usando a força para proteger

2019/02/12 | 3 comentários | |



o uso da força protetora - comunicação não-violenta


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Quando o uso da força é inevitável

Quando duas partes em conflito tiverem a oportunidade de expressar plenamente o que estão observando, sentindo, precisando e pedindo, é provável que se chegue em uma solução que atenda ambas.

No entanto, existem situações em que um diálogo desses não é possível, o uso da força pode ser necessário para proteger a vida ou os direitos individuais.

A outra parte pode não estar disposta a dialogar ou pode não haver tempo hábil para tal.

Nesses momentos, a CNV pede que diferenciemos o uso protetor e o uso punitivo da força.

O pensamento por trás do uso da força


quando o uso da força é inevitável para proteger a vida. comunicação nao violenta

A intenção por trás dos nossos atos é uma ideia presente ao longo de toda a teoria da CNV e aqui ele se faz ainda mais importante.

É preciso que tenhamos, ao aplicar o uso da força, a clara intenção de evitar danos ou injustiças. Quando se usa força punitiva, a intenção é fazer que as pessoas sofram por seus atos então percebido como inadequados.

“Quando agarramos uma criança que está correndo na rua para impedir que ela se machuque, estamos aplicando a força protetora. O uso da força punitiva, por outro lado, poderia envolver um ataque físico ou psicológico, como espancar a criança ou dar-lhe uma reprimenda como: ‘Como você pôde ser tão estúpida? Você deveria ter vergonha de si mesma’!”

A força protetiva se concentra na vida ou nos direitos que se deseja proteger, sem julgar a pessoa ou o seu comportamento. Não se condena a criança que correu na rua, nosso pensamento deve ser dirigido a protegê-la.

A premissa do uso protetor da força é que algumas pessoas se comportam de maneira prejudicial ao ambiente, devido a algum tipo de ignorância, que inclui:

  1. falta de consciência das consequências de nossas ações;
  2. incapacidade de perceber como nossas necessidades podem ser atendidas sem prejudicar os outros;
  3. crença de que temos o "direito" de punir ou ferir os outros porque eles "merecem"; e
  4. pensamentos delirantes que envolvem, por exemplo, ouvir uma "voz" que nos instrui a matar alguém.

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Já as ações punitivas, baseiam-se na premissa que as pessoas fazem coisas ruins porque são más, e de que para corrigir a situação, é preciso fazer que elas se arrependem.

A correção é idealizada através da ação punitiva para que elas:

  1. sofram o bastante a ponto de perceberem que suas ações são inadequadas;
  2. arrependam-se; e
  3. mudem.

Tipos de força punitiva


O castigo físico como bater em pessoas é um exemplo de força punitiva. Esse é um assunto delicado, que desperta fortes sentimentos entre pensamentos opostos.

Punitivismo e comunicação não-violenta

Para alguns pais, bater em algumas crianças demonstra que amamos porque estabelece limites claros. É comum dizerem que “têm de” usar a força punitiva, porque não enxergam outra maneira de mostrar aos filhos o que é bom pra eles.

Educar um filho é um desafio. Mantê-lo em segurança ao mesmo tempo que desenvolver sua autonomia é uma dualidade controversa e um equilíbrio impecável. É interessante procurarmos enxergar todas as tentativas de educação e suas dificuldades com empatia.

Contudo, pais que defendem o sucesso da criação de seus filhos através da punição talvez não tenham consciência de:

  • inúmeros casos de crianças que se voltam contra o que poderia ser bom pra elas, simplesmente por escolherem lutar contra a coerção. Uma vez que, a coerção invade a necessidade humana universal de ter escolhas;
  • que outros métodos também poderiam funcionar igualmente bem; e
  • as consequências sociais de se empregar o castigo físico.

“Quando os pais escolhem usar a força, podem ganhar a batalha de obrigar as crianças a fazer o que eles querem, mas, nesse processo, não estarão perpetuando uma norma social que justifica a violência como meio de resolver diferenças”?

Uma norma social alienante e superficial.

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Outra forma de força punitiva é a retirada de alguns meios de gratificação, como cortar mesada, proibir o videogame ou retirar a permissão para sair.

É uma punição que deixa clara como ameaça a retirada da afeição ou do respeito por parte dos pais.

Os custos da punição


O capítulo 9 nos lembra muito bem e aqui Marshall reforça mais uma vez:

“Quando nos submetemos a fazer alguma coisa apenas com o propósito de evitar uma punição, nossa atenção é desviada do valor da própria ação. Em vez disso, estamos nos concentrando nas consequências que podem acontecer se deixarmos de agir daquela maneira”.

Se você trabalha pelo medo da punição ou qualquer outro motivo que não seja o valor de seu trabalho, é provável que seu desempenho diminuíra, levando também a sua autoestima.

“Se as crianças escovam os dentes porque sentem vergonha e medo do ridículo, sua saúde bucal pode melhorar, mas seu respeito por si mesmas ganhará cáries”.

Quanto mais formos vistos como agentes da punição, mais difícil será para os outros responderem compassivamente a nossas necessidades.

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Temos aqui uma ilustração perfeita do quão grande é alienação perpetuada pela punição como método corretivo:

“Eu estava visitando um amigo, diretor de escola, em seu escritório, quando ele percebeu pela janela um menino grande batendo em outro menor. ‘Com licença’, ele disse, saltou e correu para o pátio. Agarrando o aluno maior, ele lhe deu um tapa e o repreendeu: ‘Isso lhe ensinará a não bater em pessoas menores!" Quando o diretor voltou para dentro, observei: ‘Não acho que você tenha ensinado àquela criança o que você pensou que estava ensinando. Suspeito que, em vez disso, o que você lhe ensinou foi a não bater em pessoas menores do que ele quando alguém maior - como o diretor - pode estar olhando!

Se você fez alguma coisa, parece-me que foi reforçar a noção de que a maneira de obter o que você quer de alguém é batendo nessa pessoa’”.





Duas perguntas que revelam as limitações da punição


Duas perguntas nos ajudam a enxerga por que é improvável que obtenhamos o que queremos se usarmos a punição para mudar o comportamento das pessoas.

1) O que eu quero que essa pessoa faça que seja diferente do que ela está fazendo agora?

Essa pergunta é até mais comum. Com ela a punição pode parecer eficaz, porque a ameaça ou a força punitiva podem ser muito bem influenciadores do comportamento.

2) Quais quero que sejam as razões dessa pessoa para fazer o que estou pedindo?

Raramente paramos pra pensar nessa pergunta. Quando a consideramos, percebemos então que a punição e a recompensa interferem e afastam as pessoas a fazerem as coisas pelos motivos que gostaríamos realmente.
É decisivo termos consciência da importância das razões das pessoas para se comportarem como pedimos.

“A CNV estimula um nível de desenvolvimento ético baseado na autonomia e na interdependência, pelo qual reconhecemos a responsabilidade por nossas próprias ações e temos consciência de que nosso próprio bem-estar e o dos outros são uma coisa só”.

Até o próximo capítulo!



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Empatia pelo silêncio - Um relato de Marshall Rosenberg

2019/01/29 | Nenhum comentário | |





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Durante os anos em que trabalhei como psicoterapeuta clínico, uma vez fui contatado pelos pais de uma jovem de 20 anos que estava sob cuidados psiquiátricos e durante vários meses se submetera a medicamentos, internações e eletrochoque. Ela havia ficado muda três meses antes de os pais terem me procurado. Quando eles a trouxeram a meu consultório, ela teve de ser ajudada porque, se fosse deixada por si mesma, não se moveria.

Em meu consultório, ela se encolheu na cadeira, tremendo, os olhos no chão.  Tentando me conectar com empatia com os sentimentos e necessidades que estavam sendo expressos através de sua mensagem não-verbal, eu disse: "Percebo que você está assustada e gostaria de ter certeza de que é seguro falar. Isso está correto?"

Ela não demonstrou nenhuma reação. Então, expressei meus próprios sentimentos, dizendo:  "Estou muito preocupado com você e gostaria que me dissesse se há alguma coisa que eu possa dizer ou fazer para que você se sinta mais segura". Ainda não houve nenhuma reação. Pelos quarenta minutos seguintes, continuei a interpretar seus sentimentos e necessidades ou a expressar os meus próprios.  Não houve reação visível, nem mesmo o menor sinal de reconhecimento de que eu estava tentando me comunicar com ela. Finalmente, disse-lhe que estava cansado e que gostaria que ela retornasse no dia seguinte.

Os dois dias seguintes foram iguais ao primeiro.  Continuei a concentrar minha atenção nos sentimentos e necessidades dela, às vezes expressando verbalmente o que compreendia e outras fazendo isso de forma silenciosa. De vez em quando, eu expressava o que estava acontecendo comigo mesmo. Ela ficava sentada tremendo em sua cadeira, sem dizer nada.

No quarto dia, quando ela ainda não havia respondido, aproximei-me e segurei sua mão. Sem saber se minhas palavras estavam comunicando minha preocupação, eu esperava que o contato físico pudesse fazer isso com mais eficácia. Ao primeiro contato, seus músculos ficaram tensos, e ela se encolheu mais ainda em sua cadeira. Eu estava para soltar sua mão quando senti que ela estava cedendo ligeiramente; então, continuei segurando. Depois de alguns instantes, percebi um progressivo relaxamento da parte dela. Segurei sua mão por vários minutos enquanto conversava com ela da mesma forma como tinha feito nos dias anteriores. Ela ainda não disse nada.



Quando chegou no dia seguinte, ela parecia ainda mais tensa do que antes, mas houve uma diferença: ela estendeu uma mão fechada em minha direção, enquanto virava o rosto para longe de mim.  Primeiro fiquei confuso com o gesto, mas depois percebi que ela tinha alguma coisa na mão que queria que eu pegasse. Pegando sua mão na minha, abri seus dedos. Na palma de sua mão estava um bilhete amarrotado com a seguinte mensagem: "Por favor, ajude-me a dizer o que tenho por dentro".

Fiquei extasiado em receber aquele sinal de seu desejo de se comunicar. Depois de mais uma hora de encorajamento, ela finalmente disse uma primeira frase, devagar e com receio. Quando repeti para ela o que a ouvira dizer, ela pareceu aliviada e então continuou a falar, de forma lenta e receosa.  Um ano depois, ela me mandou uma cópia dos seguintes trechos de seu diário:

Saí do hospital, para longe dos eletrochoques e dos remédios fortes. Isso foi mais ou menos em abril. Os três meses depois disso estão completamente em branco em minha mente, assim como os três anos e meio antes de abril.

Dizem que depois de ter saído do hospital, passei um tempo em casa sem comer, sem falar, e querendo ficar na cama o tempo todo. Então me encaminharam ao dr.  Rosenberg para terapia. 

Não me lembro muito dos dois ou três meses seguintes, exceto de estar no consultório do dr. Rosenberg e conversar com ele. 

Eu tinha começado a "acordar" desde aquela primeira sessão com ele. Eu tinha começado a compartilhar com ele coisas que me incomodavam, coisas que eu nunca teria sonhado contar a ninguém. E me lembro de quanto aquilo significou para mim. Era tão difícil falar! Mas o dr. Rosenberg se importava comigo e demonstrava isso, e eu queria conversar com ele.  Depois das sessões, eu sempre ficava contente de ter deixado sair alguma coisa. Lembro-me de ter ficado contando os dias, até mesmo as horas, até minha próxima sessão com ele.

Também aprendi que encarar a realidade não é de todo mau. Estou percebendo cada vez mais as coisas que preciso enfrentar, coisas que preciso sair e fazer por mim mesma.
  
Isso é assustador. E é muito difícil. E é desanimador que, mesmo que eu tente com muito empenho, ainda possa fracassar de modo tão terrível. Mas a parte boa da realidade é que estou vendo que ela também inclui coisas maravilhosas.

No ano que passou, aprendi quanto pode ser maravilhoso compartilhar de mim mesma com as outras pessoas. Acho que na verdade só aprendi uma parte, sobre como é empolgante falar com as pessoas e elas realmente escutarem - e às vezes até mesmo compreenderem de verdade.




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Carl Rogers e a Abordagem Centrada na Pessoa

2018/12/24 | Nenhum comentário | |





Você já ouviu falar da Abordagem Centrada na Pessoa, do psicólogo humanista Carl RogersEla nasceu através de anos de investigação de Rogers, foi um tanto revolucionária para o seu tempo e inspirou Marshall Rosenberg no desenvolvimento da Comunicação não-violenta.





Um breve contexto:


Rogers foi um psicólogo americano que, em 1940, desenvolveu uma forma de terapia não-diretiva a partir de seus estudos e experiências.

Atendendo pessoas com os artifícios da psicanalise e do behaviorismo, ideias em voga na época, ele percebeu que alguns casos não apresentavam nenhum tipo de melhora. Alguns a ponto de esgotar todos os recursos e técnicas que tinha em mãos.

Pra esses casos, não havendo mais nada a fazer, ele decidiu que o mínimo que poderia oferecer, diante dessas pessoas em sofrimento, era uma escuta atenciosa e respeitosa. E foi o que fez.

Dessa escuta, ele começou a notar profundas transformações nesses casos que antes pareciam não ter nenhuma solução. As pessoas começavam a caminhar e encontrar respostas satisfatórias para as suas questões de vida. Respostas que vinham delas mesmas. Respostas que nenhum tipo de aconselhamento foi capaz de sequer se aproximar.

Percebendo que o que estava acontecendo ali era realmente significativo, Rogers começou a investigar, pesquisando profundamente o que viria a se tornar a abordagem centrada na pessoa.

As atitudes facilitadoras de crescimento


Nas palavras do próprio Rogers, em seu livro Um Jeito de Ser, temos os princípios que fundamentam a sua abordagem:

“A hipótese central dessa abordagem pode ser colocada em poucas palavras. Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras”.

Essa capacidade de se autocompreender e modificar seus autoconceitos é o que ele chama de tendência atualizante. Uma tendência presente na vida de qualquer organismo, que estará sempre buscando realizar todas as possibilidades que lhe são inerentes.

A ACP é, portanto, uma abordagem baseada em uma relação de confiança entre terapeuta e cliente.

Seguindo:

“Há três condições que devem estar presentes para que se crie um clima facilitador de crescimento. Estas condições se aplicam indiferentemente à relação terapeuta-paciente, pais-filhos, líder e grupo, administrador e equipe. Estas condições se aplicam, na realidade, a qualquer situação na qual o objetivo seja o desenvolvimento da pessoa. Já descrevi essas condições em outros trabalhos. Apresento aqui um pequeno resumo do ponto de vista da psicoterapia, mas a descrição se aplica a todas as relações mencionadas”. 


1) Congruência


“O primeiro elemento poderia ser chamado de autenticidade, sinceridade ou congruência.

Quanto mais o terapeuta for ele mesmo na relação com o outro, quanto mais puder remover as barreiras profissionais ou pessoais, maior a probabilidade de que o cliente mude e cresça de um modo construtivo.

Isto significa que o terapeuta está vivendo abertamente os sentimentos e atitudes que fluem naquele momento. O termo “transparente” expressa bem a essência dessa condição: o terapeuta ou a terapeuta se faz transparente para o cliente. O cliente pode ver claramente o que o terapeuta é na relação: o cliente não se defronta com qualquer resistência por parte do terapeuta.

Do mesmo modo que para o terapeuta, o que o cliente ou a cliente vive pode se tornar consciente, pode ser vivido na relação e pode ser comunicado se for conveniente.  Portanto, dá-se uma grande correspondência, ou congruência, entre o que está sendo vivido em nível profundo, o que está presente na consciência e o que está sendo expresso pelo cliente”. 


2) Consideração positiva incondicional


“A segunda atitude importante na criação de um clima que facilite a mudança é a aceitação, o interesse ou a consideração — aquilo que chamo de “aceitação incondicional”. Quando o terapeuta está tendo uma atitude positiva, aceitadora, em relação ao que quer que o cliente seja naquele momento, a probabilidade de ocorrer um movimento terapêutico ou uma mudança aumenta. 

O terapeuta deseja que o cliente expresse o sentimento que está ocorrendo no momento, qualquer que ele seja — confusão, ressentimento, medo, raiva, coragem, amor ou orgulho. Este interesse por parte do terapeuta não é possessivo. O terapeuta tem uma consideração integral e não condicional pelo cliente”. 


3) Compreensão empática


“O terceiro aspecto facilitador da relação é a compreensão empática. Com isso quero dizer que o terapeuta capta com precisão os sentimentos e significados pessoais que o cliente está vivendo e comunica essa compreensão ao cliente.

Quando está em sua melhor forma, o terapeuta pode entrar tão profundamente no mundo interno do paciente que se torna capaz de esclarecer não só o significado daquilo que o cliente está consciente como também do que se encontra abaixo do nível de consciência. Este tipo de escuta ativa e sensível é extremamente raro em nossas vidas. Pensamos estar ouvindo, mas muito raramente ouvimos e compreendemos verdadeiramente, com real empatia. E, no entanto, esse modo tão especial de ouvir é uma das forças motrizes mais poderosas que conheço.

De que modo este clima que acabo de descrever leva à mudança?

Resumidamente, eu diria que se as pessoas são aceitas e consideradas, elas tendem a desenvolver uma atitude de maior consideração em relação a si mesmas. Quando as pessoas são ouvidas de modo empático, isto lhes possibilita ouvir mais cuidadosamente o fluxo de suas experiências
internas. Mas à medida que uma pessoa compreende e considera o seu eu, este se torna mais congruente com suas próprias experiências.

A pessoa torna-se então mais verdadeira, mais genuína. Essas tendências, que são a recíproca das atitudes do terapeuta, permitem que
a pessoa seja uma propiciadora mais eficiente de seu próprio crescimento. Sente-se mais livre para ser uma pessoa verdadeira e integra”.

Faz sentido pra você? Comenta aí embaixo o que achou!

Nos próximos posts, falarei um pouco sobre as implicações do trabalho de Rogers nas mais diversas áreas humanas.

Grande abraço!

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Três práticas que podem auxiliar seu processo de CNV

2018/12/16 | Nenhum comentário | |





Hoje vamos estrear a série #PergunteAGirafa respondendo dúvidas sobre Comunicação não-violenta. A Débora Pregana pediu, pelo Instagram, práticas que nos auxiliam no processo de CNV.

qual sua maior dúvida de comunicação não violenta


Eu amei esse pedido, tendo em vista os inúmeros desafios que a gente se esbarra quando decide trazer essa prática pra nossa vida.

Então vamos lá, separei três dicas (e mais uma bônus), que fizeram e fazem muito sentido dentro da minha caminhada pessoal. E é importante reforçar isso, não escrevo para entregar uma fórmula, mas para compartilhar uma experiência, que pode te ser útil ou não.

Fique à vontade pra usar como quiser e se quiser.

Vamos lá!


1) Fazer terapia


Certa vez, eu ouvi a Carol Nalon dizendo, num evento aqui em Belo Horizonte, que na CNV tem coisas que você percebe que te poupam 10 anos de terapia, mas tem outras que te acrescentam 10 anos de terapia.

O que eu percebi, na minha experiência, é que estar em contato com a Comunicação não-violenta me ajuda a ter uma ligação muito mais profunda comigo mesmo. Consigo, muitas vezes, ter mais consciência dos meus sentimentos, minhas necessidades e valores, posso escolher me expressar de maneira mais autêntica. E receber com compaixão o que chega a mim. O que me apoia na construção de relações mais sólidas, saudáveis e verdadeiras.

No entanto, todas essas coisas são bastante desafiadoras pra maioria de nós. O abandono de velhos hábitos, as oscilações, as recaídas, o confronto com áreas de nós mesmos que passamos a vida tentando esconder, a vulnerabilidade, a sensação de exposição, que vem quando a gente escolhe se expressar a nível de sentimentos. O cansaço que vem, às vezes, da escuta, o desgaste. A angústia que vem com a nossa maior autonomia em fazer escolhas. Etc..

Eu poderia escrever um texto somente sobre os desafios que se tem quando você opta pelo caminho da compaixão proposto pela CNV. No entanto, acredito que aqui tem uma componente muito pessoal e que, se você embarcou nessa, com certeza sabe muito bem onde estão os seus pontos mais quentes.

O que eu quero pontuar aqui é: o acompanhamento terapêutico é um apoio maravilhoso pra isso tudo. Pras nossas descobertas, pra nossa organização, pra prática como um todo.

Comigo foi assim: a CNV foi e é um belo suporte pro no meu processo terapêutico, pra me expressar e pra estabelecer conexão. E o processo terapêutico foi e é um belo protetor e guia da minha jornada na não-violência.


2) Trabalhar a espiritualidade


Quando a gente começa a olhar o mundo com olhos mais generosos e empáticos, a gente passa a se dar conta de muita coisa. Muitas angústias, vivências, injustiças.... E aí corre o risco de a gente se esgotar mesmo. Eu tenho muitas amigas e amigos que já possuem um senso de justiça forte, independente da CNV, e às vezes, por isso, os vejo exaustos em alguns momentos. Você provavelmente deve conhecer alguém assim também.

Ao buscarmos essa prática deliberadamente, é interessante estarmos cientes que o esgotamento pode vir de maneira bastante intensa. Nesse sentido, a terapia é também um cuidado importante.

Minha amiga Diana Bonar, do canal Peaceflow, gravou um vídeo em que ela conta sobre os sintomas que podem aparecer com o esgotamento. De pesadelos a crises de choro.

Nele, ela conta de uma experiência que teve no Camboja, onde houve uma guerra civil que dizimou metade da população. Ela estava lá para ajudar a construir a paz depois do conflito e se viu diante de uma realidade muito impactante. Nesse momento ela nos conta da importância da espiritualidade como apoio.

Espiritualidade aqui não quer dizer necessariamente algo como fé religiosa ou coisas do tipo. Mas sim daquilo que te conecta com algo maior, que transcende a existência, sabe? Tem gente que encontra essa conexão com a natureza, com o universo. Tem gente que encontra isso quando se enxerga um pedacinho de um grande organismo que é a humanidade, aqui entra a prática da compaixão pela pessoa humana, que ajuda a nos resguardar.

Há aqueles que encontram o seu caminho na religião. Tenho um amigo que encontra essa sensação através de música. Outro, quando estuda física quântica. E há aqueles que não encontram em lugar nenhum. Que realmente não têm afinidade para esse tipo de coisa.

Se for o seu caso, tudo bem. Existem outras estratégias que nos ajudam a evitar e cuidar do esgotamento.

3) O Par empático


Essa é uma dica muito prática. A gente estuda CNV, lê os livros, as discussões, participa. Segue os perfis e tudo mais. Porém, a gente tá falando de um processo orgânico, né? Vivencial mesmo. CNV é a linguagem da vida, acontece na prática, quando as pessoas se conectam, enfim. Se não a gente fica preso nas ideias, vivendo o robozinho e não se desenvolve mesmo.

Pensando nisso, quais são as duas bases do processo de comunicação não-violenta? O expressar com autenticidade e o receber com empatia.

É importante se fazer essa pergunta de vez em quando: quanto de escuta tenho recebido ultimamente? E o quanto de escuta tenho oferecido ultimamente?

A ideia do par empático é você ter alguém, que também está nessa trajetória, pra se encontrar semanalmente e trocar escuta. É válido pelo whatsapp e você pode encontrar alguém nos grupos de CNV do Facebook.

No começo, pode ser algo combinado, por exemplo, eu falo por 10 minutos, você me dá um retorno de até 5 e depois a gente troca. Com o passar do tempo, isso pode ir ficando mais solto, mais natural.

4) BÔNUS: um caderninho


Essa dica bônus também é bem prática e eu gosto bastante. Ter um caderninho CNV que seja fácil de carregar. Que nos permita anotar nossos pensamentos e estados emocionais ao longo do dia. Anotar as dificuldades. Pra nos ajudar com o vocabulário de sentimentos e necessidades. Pra servir como um pequeno diário.

Também pra servir de lembrete nos momentos mais difíceis, enfim.. Eu acredito que pode ser uma ótima ferramenta pra aumentar a nossa conexão com nós mesmos.


E aí, o que você achou? Tem mais alguma dica que é útil pra você e gostaria de compartilhar? Comenta aí com a gente!

Espero que tenha sido útil,
Grande abraço!

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Comunicação não-violenta, capíutlo 10: expressando a raiva plenamente

2018/11/10 | Nenhum comentário | |





expressando a raiva livremente cap 10 comunicacao nao violenta


A raiva oferece uma oportunidade única de destrincharmos e mergulharmos mais profundamente na CNV, pois expõe muito aspectos do processo a um exame minucioso.


“A expressão da raiva claramente demonstra a diferença entre a CNV e outras formas de comunicação”.

Antes de tudo, Marshall nos sugere que matar pessoas é uma expressão superficial demais do que se passa dentro de nós quando sentimos raiva. Espancar, culpar, ferir os outros, fisicamente ou não, são todas expressões superficiais.

Quando estamos verdadeiramente com raiva, precisamos de uma maneira mais poderosa e profunda de se expressar. Nesse sentido, a CNV tem grande potencial de auxílio.

Compreender isso pode ser um alívio para muitos grupos que sofrem discriminação e opressão. Esses grupos ficam inquietos com o termo “comunicação não-violenta” ou quando falamos de empatia e compaixão, uma vez que eles são muitas vezes forçados a sufocar sua raiva, acalmar-se e, à margem, aceitar o status quo imposto.

CNV Grupo de estudos do O Espaço

Eles desconfiam de qualquer abordagem que vêem sua raiva como qualidade negativa e que precisa ser eliminada. O que faz muito sentido. Afinal, depois de tanto sofrer, ainda ter de receber mais um ataque de opressão velada de pacifismo não parece boa ideia.

Contudo, o processo que estudamos não nos encorajar a ignorar, sufocar ou engolir a raiva, mas sim a expressar a essência de nossa raiva completamente e de todo o coração.




Distinguindo estímulo de causa


Nunca ficamos com raiva por causa do que os outros dizem ou fazem.

O primeiro passo para expressarmos completamente a raiva na CNV é dissociar a outra pessoa de qualquer responsabilidade por nossa raiva. Pensamentos do tipo:

·         "Jorginho me deixou furioso quando fez isso”!

São pensamento nos leva a expressar nossa raiva superficialmente, culpando ou punindo a outra pessoa.

Vimos como o comportamento do outro pode ser um estímulo para o nosso sentimento, mas nunca a causa. É preciso que se estabeleça a clara diferenciação entre estímulo e causa.

Estimulo e causa, onde está a raiz dos sentimentos
O sentimento está ligado a necessidade.

Se a outra pessoa se atrasa para o nosso encontro e eu não quero ficar esperando, então eu fico furioso. Porém se ela atrasa e eu estou ocupado com vários outros afazeres, posso me sentir aliviado e produtivo.

O atraso em si nunca é a causa. Mas pode ser o estímulo tanto para raiva, quanto para alívio, chateação... Sentimentos que vão de acordo com a nossa necessidade naquele momento.

Ao igualar estimulo e causa, nos convencemos a pensar que o comportamento do outro é que nos faz sentir raiva e a partir disso utilizamos a culpa para fazer com que ele seja controlado por nós.

Nossa cultura faz ser importante enganar as pessoas para que pensem que elas podem realmente fazer com o que os outros sintam de determinada maneira. E a nossa linguagem facilita enormemente o processo.

“Quando a culpa é uma tática de manipulação e coerção, é útil confundir estímulo e causa”.

O primeiro passo para expressar a raiva plenamente, então, é reconhecer a nossa responsabilidade pelo que sentimentos. O que as pessoas fazem nunca é a causa.

Assim sendo, como a raiva é gerada?

No capítulo 5, discutimos as quatro opções que temos quando estamos diante de uma mensagem ou comportamento de que não gostamos:

Quatro maneiras de responder uma mensagem difícil

“A raiva é gerada quando escolhemos a segunda opção: sempre que estamos com raiva, estamos julgando alguém culpado – escolhemos brincar de Deus julgando ou culpando a outra pessoa por estar errada ou merecer uma punição. Eu gostaria de sugerir que essa é a causa da raiva. Mesmo que de início não tenhamos consciência disso, a causa da raiva está localizada em nosso próprio pensamento”.

Se alguém me ignora e eu preciso de silêncio, então me sentirei tranquilo e em paz. Porém, se alguém me ignora e preciso de carinho e consideração, posso ficar com raiva e julgá-la como uma pessoa mal-educada.

“São as nossas próprias necessidades que causam nossos sentimentos”.

Quando estamos conectados a nossas necessidades, sejam elas de encorajamento, de ter um propósito útil ou de solidão, estamos em contato com nossa energia vital. Podemos ter sentimentos fortes, mas nunca ficamos com raiva. A raiva é o resultado de pensamentos alienantes da vida que estão dissociados de nossas necessidades

Uma alternativa é concentrar em nossas necessidades e sentimentos e assim ganhar consciência da necessidade e do sentimento por detrás do comportamento da outra pessoa. Quando isso acontece, não sentimos raiva. Não estamos a reprimindo ou sufocando, ela simplesmente não acontece.

Toda raiva tem um âmago que serve a vida


“Quando julgamos os outros, contribuímos para a violência”.

·         Não há circunstâncias em que a raiva é justificável?
·         Não é necessário ter “justa indignação” ante a população descuidada e irrefletida no ambiente, por exemplo?

“Minha resposta é que acredito firmemente que sempre que apóio em qualquer grau a consciência de que há coisas tais como "ações descuidadas", "ações conscienciosas", "pessoas gananciosas" ou "pessoas éticas", estou contribuindo para com a violência neste planeta.

Em vez de concordamos ou discordarmos a respeito do que são as pessoas que matam, estupram ou poluem o ambiente, acredito que serviremos melhor à vida se concentrarmos nossa atenção nas nossas necessidades”.

A resposta que o livro apresenta é a resposta que me faz mais sentido também, ao pensar em caminhos e alternativas para um mundo cada vez menos violento.

Toda raiva é resultado de pensamentos alienantes da vida e causadores de violência. No âmago de toda raiva existe uma necessidade não atendida. Por isso, a raiva pode ser valiosa se utilizada como um despertar para aquela necessidade.

Para se expressar plenamente a raiva, é preciso se ter plena consciência de nossa necessidade.

Além disso, precisamos de energia para atender a necessidades. Quando nos deixamos levar pela raiva, ela rouba toda nessa energia para punir as pessoas, ao invés de trabalhar no que estamos precisando.

Estímulo versus causa: implicações práticas.


Toda violência resulta de as pessoas se iludirem, como aquele jovem prisioneiro, e acreditarem que sua dor se origina dos outros e que, portanto, eles merecem ser punidos.

Gostaria de sugerir que, quando nossa cabeça está cheia de julgamentos e análises de que os outros são maus, gananciosos, irresponsáveis, mentirosos, corruptos, poluidores, que valorizam os lucros mais do que a vida ou se comportam de maneira que não deveriam, poucos deles estarão interessados em nossas necessidades.

Imagine proteger o meio ambiente e procurarmos um executivo de grande empresa com uma atitude do tipo:

·         "Sabe, você é um verdadeiro assassino do planeta e não tem o direito de abusar da Terra dessa maneira".

Qual a chance de termos nossas necessidades atendidas? É raro o ser humano que consegue se concentrar em nossas necessidades quando as expressamos por meio rótulos que pintam o outro como errado.

Se elas se sentirem amedrontadas, culpadas ou envergonhadas a ponto de mudar suas atitudes, podemos vir a acreditar que é possível "ganhar" dizendo às pessoas o que há de errado com elas.

Numa perspectiva mais ampla, porém, percebemos que, cada vez que nossas necessidades são atendidas dessa maneira, não apenas perdemos, mas contribuímos de forma muito tangível para a violência no planeta

“Quanto mais as pessoas ouvirem culpa e julgamentos, mais defensivas e agressivas elas se tornarão e menos se importarão com nossas necessidades no futuro”.

Quatro passos para expressar a raiva


Passos para expressar a raiva:

  1. Parar. Respirar: Abster de qualquer movimento em direção a agressão e a punição. Não fazer nada.
  2. Identificar nossos pensamentos que estão julgando as pessoas: identificamos os pensamentos que estão gerando nossa raiva.
  3. Conectar-nos as nossas necessidades: nos conectamos com as necessidades por trás desses pensamentos. Se eu julgar que alguém é racista, a necessidade pode ser de inclusão, igualdade, respeito ou conexão.
  4. Expressar nossos sentimentos e necessidades não-atendidas: Para nos expressarmos plenamente, nós agora abrimos a boca e expressamos a raiva - mas esta já se transformou em necessidades e em sentimentos relacionados a elas. Articular esses sentimentos pode exigir um bocado de coragem. É fácil me irritar e dizer às pessoas: "Isso é coisa de racista!". Na verdade, posso até gostar de dizer algo assim, mas descer até o nível dos sentimentos e necessidades mais profundos por trás de uma frase como essa pode ser muito assustador. Para expressar plenamente nossa raiva, podemos dizer à pessoa:



"Quando você entrou nessa sala, começou a conversar com os outros, não falou nada comigo e então fez um comentário sobre brancos, fiquei realmente enojado e muito assustado. Isso despertou em mim todo tipo de necessidade de ser tratado com igualdade. Eu gostaria que você me dissesse como se sente quando digo isso".


Oferecendo empatia primeiro

“Quanto mais escutarmos os outros, mais eles nos escutarão”.

Na maioria dos casos, é preciso que haja mais uma etapa antes que possamos esperar que a outra parte entre em conexão com o que está acontecendo dentro de nós. Uma vez que é comum que os outros tenham dificuldades para receber nossos sentimentos e necessidades em tais situações, precisaremos primeiro oferecer nossa empatia a eles, se quisermos que nos escutem. Quanto mais empatia tivermos com relação ao que os leva a se comportarem de maneira que não atenda a nossas necessidades, mais provável será que eles consigam dar reciprocidade mais tarde.

E este, mais uma vez, não é o caminho mais fácil. A CNV é realmente para quem está disposto a realmente solucionar conflitos sem contribuir para a sistematização da violência no mundo.

Avançando em nosso próprio ritmo


Essa é provavelmente uma das partes mais importantes do livro. Internalizar uma nova forma de comunicação não é algo que se faça da noite para o dia. É precisamos esforço, estudo e prática. Um processo com dificuldades, desafios e oscilações.

Nesse sentido, precisamos respeitar o nosso processo que é único e particular e avançar em nosso próprio ritmo.

Conta Marshall que um amigo escreveu em um cartão com uma pequena cola para consultar sempre que precisava recorrer a CNV. Como um lembrete. Utilizava no trabalho e em casa, pois sua necessidade de se relacionar melhor era maior do que o embaraço ou o trabalho de consultar o cartão quando precisasse.

Passados um mês ele se sentiu confiante em abandonar o cartão e caminhar sozinho. Então, uma noite, ele e seu filho, de 4 anos, estavam tendo um conflito a respeito da televisão e as coisas não estavam indo bem. "Papai", disse Scottie com urgência, "pegue o cartão!"

Para aqueles de nós que desejemos aplicar CNV, principalmente em situações de raiva, o livro nos sugere o seguinte exercício:

Liste os julgamentos que flutuam com mais freqüência em sua cabeça, usando como ponto de partida a frase: ‘Não gosto de pessoas que são ___’. Reúna todos esses julgamentos negativos de sua cabeça e então pergunte a si mesmo:

‘Quando faço essa ideia a respeito de alguém, do que estou precisando e não estou obtendo?’ Dessa maneira, você estará treinando estruturar o pensamento em termos de necessidades não-atendidas, e não de julgamentos de outras pessoas.

Interessante, não é? Mantenha-se em frente sempre ao seu próprio ritmo! =)




Até o próximo capítulo!






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