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Comunicação não-violenta para além da técnica: Compaixão

2019/09/08 | Nenhum comentário | |






A primeira coisa que gostaria de discutir com você para além da técnica de CNV é a compaixão. A comunicação não-violenta parte desse princípio e acredito que é aqui que se encontra todo o seu propósito.

O Marshall começa nos dizendo que acredita ser da natureza humana “dar de coração”. Eu entendo isso como a força compassiva que nos move, nos inclina a ação, com o objetivo de apoiar alguém que está precisando, sem necessariamente, esperar em troca algo equivalente.

Ele diz que quando nos doamos de compaixão, recebemos em troca uma alegria genuína que vem de servimos com a vida de outra pessoa

Compaixão é a chave da Comunicação não-violenta


É diferente de agir por barganha. Fugir de uma punição, ter uma aceitação, por algum estímulo específico.

A gente vive nesse paradigma. Estamos sob um sistema completamente baseado em troca. Trocamos nossa força de trabalho por dinheiro pra trocar por coisas. E isso está impregnado na maneira que a gente se relaciona também.

E mesmo dentro dessa cultura, desse paradigma que é controlador e também violento, o dar de coração se manifesta. Eu vejo, todos os dias, pessoas agindo pela compaixão. De gestos simples a coisas realmente grandes.

E foi a partir disso que o Marshall sistematizou a CNV. Quando ele começou a se perguntar o que fazia com que a compaixão se manifestasse, mesmo em condições desfavoráveis. E o que nos afasta dessa qualidade que é natural?

Ele entendeu que essa capacidade está diariamente relacionada a nossa linguagem. Disso vem a CNV

Acontece que, nossa linguagem, dentro dessa cultura, no paradigma do controle, é uma linguagem desumanizadora. Isso não é mero acaso. Ela nos objetifica a fim de nos encaixar as hierarquias e servir, sem questionar a uma minoria dominante.

E é aqui tá toda a estrutura da nossa fala. Do nosso olhar. Do modo como nomeamos as coisas. Aprendemos a identificar o que está "errado". Qual o comportamento "certo" para que em cada situação sejamos pessoas "adequadas", "boas" pessoas dentro dos nossos contextos. Bons profissionais, bons maridos, esposas, filhos, estudantes, etc.

Nossa linguagem, nos ensina a olhar pra fora e analisar comportamentos. O tempo inteirinho. Ficamos alienados para nossos estados internos.

Somos coisas. Máquinas condicionadas pra realizar uma função. E, se sou objeto, se você é objeto. Como vamos nos conectar compassivamente? Fica muito complicado.

A CNV então quer resgatar o olhar pro ser humano e assim facilitar que a conexão estabeleça entre as pessoas.

A coisa da compaixão é que, mesmo nessa estrutura profundamente violenta e coisificadora, ela se manifesta. E eu vejo isso todos os dias. É um poder enorme que a gente tem. Poder que o Marshall chama de poder com. Força que se realiza e transforma o mundo.

E se a gente se apropriasse desse poder, que é infinito, e que mora dentro da gente? A ideia da CNV é essa.

E quando foco na técnica, na fala, que é só uma das estratégias de manifestar o poder com, posso acabar me esquecendo, fazendo dessa técnica uma simples maneira de conseguir o que quero. Ser influente, manipulador. Dessa forma, estarei preso no poder sobre. Na tentativa de mudar o outro. E isso faz parte daquele mundo. O hierárquico, violento e desumanizador.

Por isso, para além da técnica, nunca se esqueça: compaixão.

As palavras são mero pretexto, é o coração que nos leva um para o outro.

Grande abraço!

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Comunicação não-violenta é técnica de fala?

2019/09/01 | Nenhum comentário | |






Quando a gente começa estudar Comunicaçãonão-violenta, principalmente pelo livro do Marshall, acho que primeiro é comum um deslumbramento, a medida que vamos entendendo a respeito dos nossos vícios de linguagem, nossa visão de mundo que acaba sendo meio desumanizadora com os outros e com nós mesmos, e etc. Nesse momento rola uma série de “insights”, lembramos de situações passadas, de relações e contextos em que as coisas não vão bem ou de pessoas próximas, muitas vezes queridas, que estão afogadas também em alienação. Não é mais ou menos por aí?



Junto a isso, vem uma imensa dificuldade de colocar em prática as técnicas que ele propõe. Observar sem avaliar, identificar e expressar sentimentos, assumir a responsabilidade por eles, fazer pedidos... Escutar de maneira empática, nu.. É muito complicado....

Nessa hora, também é comum que a gente se depare com muito sentimentos como solidão, frustração, impotência. Eu vejo que as pessoas se silenciam quando não conseguem falar o “girafês”, ficam muito mecânicas, gerando mais desconexão e por aí vai.

Eu considero tudo isso, quando acontece, parte natural do processo de aprendizagem e que, a medida que vamos nos aprofundando, outros elementos começam a surgir e a gente vai entendendo que a CNV não é exatamente sobre aquelas técnicas de fala que aparecem no livro. Existem camadas mais profundas, mais sutis e mais poderosas.

Camadas essas que, quem por exemplo, elencas críticas ao processo de comunicação não-violenta não costuma enxergar. Não que a CNV seja a prova de críticas rs. Mas sim que o debate dificilmente sai dos problemas encontrados pelo uso da técnica de linguagem. Isso, digo, é o que vejo dentro da minha experiência.

Então, pensando nessas sutilezas que se encontram para além de “uma maneira de falar” que eu gostaria de começar essa série: CNV para além da técnica. Pra poder apoiar quem está tentando se apropriar da proposta do Marshall, ou quem apenas tem tentado entender do que se trata.


Lembrando que tudo isso vem da minha vivência com a CNV, meus estudos, contato com outros facilitadores e o apoio as pessoas que participam dos grupos de estudos e encontros que realizo. Também das pessoas que procuram no Instagram e outras mídia em busca de apoio. Portanto, não se trata de uma verdade absoluta. É uma visão minha, e espero que seja útil a você da maneira que achar melhor.

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Comunicação não-violenta, capítulo 11: usando a força para proteger

2019/02/12 | 3 comentários | |



o uso da força protetora - comunicação não-violenta


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Quando o uso da força é inevitável

Quando duas partes em conflito tiverem a oportunidade de expressar plenamente o que estão observando, sentindo, precisando e pedindo, é provável que se chegue em uma solução que atenda ambas.

No entanto, existem situações em que um diálogo desses não é possível, o uso da força pode ser necessário para proteger a vida ou os direitos individuais.

A outra parte pode não estar disposta a dialogar ou pode não haver tempo hábil para tal.

Nesses momentos, a CNV pede que diferenciemos o uso protetor e o uso punitivo da força.

O pensamento por trás do uso da força


quando o uso da força é inevitável para proteger a vida. comunicação nao violenta

A intenção por trás dos nossos atos é uma ideia presente ao longo de toda a teoria da CNV e aqui ele se faz ainda mais importante.

É preciso que tenhamos, ao aplicar o uso da força, a clara intenção de evitar danos ou injustiças. Quando se usa força punitiva, a intenção é fazer que as pessoas sofram por seus atos então percebido como inadequados.

“Quando agarramos uma criança que está correndo na rua para impedir que ela se machuque, estamos aplicando a força protetora. O uso da força punitiva, por outro lado, poderia envolver um ataque físico ou psicológico, como espancar a criança ou dar-lhe uma reprimenda como: ‘Como você pôde ser tão estúpida? Você deveria ter vergonha de si mesma’!”

A força protetiva se concentra na vida ou nos direitos que se deseja proteger, sem julgar a pessoa ou o seu comportamento. Não se condena a criança que correu na rua, nosso pensamento deve ser dirigido a protegê-la.

A premissa do uso protetor da força é que algumas pessoas se comportam de maneira prejudicial ao ambiente, devido a algum tipo de ignorância, que inclui:

  1. falta de consciência das consequências de nossas ações;
  2. incapacidade de perceber como nossas necessidades podem ser atendidas sem prejudicar os outros;
  3. crença de que temos o "direito" de punir ou ferir os outros porque eles "merecem"; e
  4. pensamentos delirantes que envolvem, por exemplo, ouvir uma "voz" que nos instrui a matar alguém.

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Já as ações punitivas, baseiam-se na premissa que as pessoas fazem coisas ruins porque são más, e de que para corrigir a situação, é preciso fazer que elas se arrependem.

A correção é idealizada através da ação punitiva para que elas:

  1. sofram o bastante a ponto de perceberem que suas ações são inadequadas;
  2. arrependam-se; e
  3. mudem.

Tipos de força punitiva


O castigo físico como bater em pessoas é um exemplo de força punitiva. Esse é um assunto delicado, que desperta fortes sentimentos entre pensamentos opostos.

Punitivismo e comunicação não-violenta

Para alguns pais, bater em algumas crianças demonstra que amamos porque estabelece limites claros. É comum dizerem que “têm de” usar a força punitiva, porque não enxergam outra maneira de mostrar aos filhos o que é bom pra eles.

Educar um filho é um desafio. Mantê-lo em segurança ao mesmo tempo que desenvolver sua autonomia é uma dualidade controversa e um equilíbrio impecável. É interessante procurarmos enxergar todas as tentativas de educação e suas dificuldades com empatia.

Contudo, pais que defendem o sucesso da criação de seus filhos através da punição talvez não tenham consciência de:

  • inúmeros casos de crianças que se voltam contra o que poderia ser bom pra elas, simplesmente por escolherem lutar contra a coerção. Uma vez que, a coerção invade a necessidade humana universal de ter escolhas;
  • que outros métodos também poderiam funcionar igualmente bem; e
  • as consequências sociais de se empregar o castigo físico.

“Quando os pais escolhem usar a força, podem ganhar a batalha de obrigar as crianças a fazer o que eles querem, mas, nesse processo, não estarão perpetuando uma norma social que justifica a violência como meio de resolver diferenças”?

Uma norma social alienante e superficial.

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Outra forma de força punitiva é a retirada de alguns meios de gratificação, como cortar mesada, proibir o videogame ou retirar a permissão para sair.

É uma punição que deixa clara como ameaça a retirada da afeição ou do respeito por parte dos pais.

Os custos da punição


O capítulo 9 nos lembra muito bem e aqui Marshall reforça mais uma vez:

“Quando nos submetemos a fazer alguma coisa apenas com o propósito de evitar uma punição, nossa atenção é desviada do valor da própria ação. Em vez disso, estamos nos concentrando nas consequências que podem acontecer se deixarmos de agir daquela maneira”.

Se você trabalha pelo medo da punição ou qualquer outro motivo que não seja o valor de seu trabalho, é provável que seu desempenho diminuíra, levando também a sua autoestima.

“Se as crianças escovam os dentes porque sentem vergonha e medo do ridículo, sua saúde bucal pode melhorar, mas seu respeito por si mesmas ganhará cáries”.

Quanto mais formos vistos como agentes da punição, mais difícil será para os outros responderem compassivamente a nossas necessidades.

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Temos aqui uma ilustração perfeita do quão grande é alienação perpetuada pela punição como método corretivo:

“Eu estava visitando um amigo, diretor de escola, em seu escritório, quando ele percebeu pela janela um menino grande batendo em outro menor. ‘Com licença’, ele disse, saltou e correu para o pátio. Agarrando o aluno maior, ele lhe deu um tapa e o repreendeu: ‘Isso lhe ensinará a não bater em pessoas menores!" Quando o diretor voltou para dentro, observei: ‘Não acho que você tenha ensinado àquela criança o que você pensou que estava ensinando. Suspeito que, em vez disso, o que você lhe ensinou foi a não bater em pessoas menores do que ele quando alguém maior - como o diretor - pode estar olhando!

Se você fez alguma coisa, parece-me que foi reforçar a noção de que a maneira de obter o que você quer de alguém é batendo nessa pessoa’”.





Duas perguntas que revelam as limitações da punição


Duas perguntas nos ajudam a enxerga por que é improvável que obtenhamos o que queremos se usarmos a punição para mudar o comportamento das pessoas.

1) O que eu quero que essa pessoa faça que seja diferente do que ela está fazendo agora?

Essa pergunta é até mais comum. Com ela a punição pode parecer eficaz, porque a ameaça ou a força punitiva podem ser muito bem influenciadores do comportamento.

2) Quais quero que sejam as razões dessa pessoa para fazer o que estou pedindo?

Raramente paramos pra pensar nessa pergunta. Quando a consideramos, percebemos então que a punição e a recompensa interferem e afastam as pessoas a fazerem as coisas pelos motivos que gostaríamos realmente.
É decisivo termos consciência da importância das razões das pessoas para se comportarem como pedimos.

“A CNV estimula um nível de desenvolvimento ético baseado na autonomia e na interdependência, pelo qual reconhecemos a responsabilidade por nossas próprias ações e temos consciência de que nosso próprio bem-estar e o dos outros são uma coisa só”.

Até o próximo capítulo!



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Empatia pelo silêncio - Um relato de Marshall Rosenberg

2019/01/29 | Nenhum comentário | |





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Durante os anos em que trabalhei como psicoterapeuta clínico, uma vez fui contatado pelos pais de uma jovem de 20 anos que estava sob cuidados psiquiátricos e durante vários meses se submetera a medicamentos, internações e eletrochoque. Ela havia ficado muda três meses antes de os pais terem me procurado. Quando eles a trouxeram a meu consultório, ela teve de ser ajudada porque, se fosse deixada por si mesma, não se moveria.

Em meu consultório, ela se encolheu na cadeira, tremendo, os olhos no chão.  Tentando me conectar com empatia com os sentimentos e necessidades que estavam sendo expressos através de sua mensagem não-verbal, eu disse: "Percebo que você está assustada e gostaria de ter certeza de que é seguro falar. Isso está correto?"

Ela não demonstrou nenhuma reação. Então, expressei meus próprios sentimentos, dizendo:  "Estou muito preocupado com você e gostaria que me dissesse se há alguma coisa que eu possa dizer ou fazer para que você se sinta mais segura". Ainda não houve nenhuma reação. Pelos quarenta minutos seguintes, continuei a interpretar seus sentimentos e necessidades ou a expressar os meus próprios.  Não houve reação visível, nem mesmo o menor sinal de reconhecimento de que eu estava tentando me comunicar com ela. Finalmente, disse-lhe que estava cansado e que gostaria que ela retornasse no dia seguinte.

Os dois dias seguintes foram iguais ao primeiro.  Continuei a concentrar minha atenção nos sentimentos e necessidades dela, às vezes expressando verbalmente o que compreendia e outras fazendo isso de forma silenciosa. De vez em quando, eu expressava o que estava acontecendo comigo mesmo. Ela ficava sentada tremendo em sua cadeira, sem dizer nada.

No quarto dia, quando ela ainda não havia respondido, aproximei-me e segurei sua mão. Sem saber se minhas palavras estavam comunicando minha preocupação, eu esperava que o contato físico pudesse fazer isso com mais eficácia. Ao primeiro contato, seus músculos ficaram tensos, e ela se encolheu mais ainda em sua cadeira. Eu estava para soltar sua mão quando senti que ela estava cedendo ligeiramente; então, continuei segurando. Depois de alguns instantes, percebi um progressivo relaxamento da parte dela. Segurei sua mão por vários minutos enquanto conversava com ela da mesma forma como tinha feito nos dias anteriores. Ela ainda não disse nada.



Quando chegou no dia seguinte, ela parecia ainda mais tensa do que antes, mas houve uma diferença: ela estendeu uma mão fechada em minha direção, enquanto virava o rosto para longe de mim.  Primeiro fiquei confuso com o gesto, mas depois percebi que ela tinha alguma coisa na mão que queria que eu pegasse. Pegando sua mão na minha, abri seus dedos. Na palma de sua mão estava um bilhete amarrotado com a seguinte mensagem: "Por favor, ajude-me a dizer o que tenho por dentro".

Fiquei extasiado em receber aquele sinal de seu desejo de se comunicar. Depois de mais uma hora de encorajamento, ela finalmente disse uma primeira frase, devagar e com receio. Quando repeti para ela o que a ouvira dizer, ela pareceu aliviada e então continuou a falar, de forma lenta e receosa.  Um ano depois, ela me mandou uma cópia dos seguintes trechos de seu diário:

Saí do hospital, para longe dos eletrochoques e dos remédios fortes. Isso foi mais ou menos em abril. Os três meses depois disso estão completamente em branco em minha mente, assim como os três anos e meio antes de abril.

Dizem que depois de ter saído do hospital, passei um tempo em casa sem comer, sem falar, e querendo ficar na cama o tempo todo. Então me encaminharam ao dr.  Rosenberg para terapia. 

Não me lembro muito dos dois ou três meses seguintes, exceto de estar no consultório do dr. Rosenberg e conversar com ele. 

Eu tinha começado a "acordar" desde aquela primeira sessão com ele. Eu tinha começado a compartilhar com ele coisas que me incomodavam, coisas que eu nunca teria sonhado contar a ninguém. E me lembro de quanto aquilo significou para mim. Era tão difícil falar! Mas o dr. Rosenberg se importava comigo e demonstrava isso, e eu queria conversar com ele.  Depois das sessões, eu sempre ficava contente de ter deixado sair alguma coisa. Lembro-me de ter ficado contando os dias, até mesmo as horas, até minha próxima sessão com ele.

Também aprendi que encarar a realidade não é de todo mau. Estou percebendo cada vez mais as coisas que preciso enfrentar, coisas que preciso sair e fazer por mim mesma.
  
Isso é assustador. E é muito difícil. E é desanimador que, mesmo que eu tente com muito empenho, ainda possa fracassar de modo tão terrível. Mas a parte boa da realidade é que estou vendo que ela também inclui coisas maravilhosas.

No ano que passou, aprendi quanto pode ser maravilhoso compartilhar de mim mesma com as outras pessoas. Acho que na verdade só aprendi uma parte, sobre como é empolgante falar com as pessoas e elas realmente escutarem - e às vezes até mesmo compreenderem de verdade.




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Carl Rogers e a Abordagem Centrada na Pessoa

2018/12/24 | Nenhum comentário | |





Você já ouviu falar da Abordagem Centrada na Pessoa, do psicólogo humanista Carl RogersEla nasceu através de anos de investigação de Rogers, foi um tanto revolucionária para o seu tempo e inspirou Marshall Rosenberg no desenvolvimento da Comunicação não-violenta.





Um breve contexto:


Rogers foi um psicólogo americano que, em 1940, desenvolveu uma forma de terapia não-diretiva a partir de seus estudos e experiências.

Atendendo pessoas com os artifícios da psicanalise e do behaviorismo, ideias em voga na época, ele percebeu que alguns casos não apresentavam nenhum tipo de melhora. Alguns a ponto de esgotar todos os recursos e técnicas que tinha em mãos.

Pra esses casos, não havendo mais nada a fazer, ele decidiu que o mínimo que poderia oferecer, diante dessas pessoas em sofrimento, era uma escuta atenciosa e respeitosa. E foi o que fez.

Dessa escuta, ele começou a notar profundas transformações nesses casos que antes pareciam não ter nenhuma solução. As pessoas começavam a caminhar e encontrar respostas satisfatórias para as suas questões de vida. Respostas que vinham delas mesmas. Respostas que nenhum tipo de aconselhamento foi capaz de sequer se aproximar.

Percebendo que o que estava acontecendo ali era realmente significativo, Rogers começou a investigar, pesquisando profundamente o que viria a se tornar a abordagem centrada na pessoa.

As atitudes facilitadoras de crescimento


Nas palavras do próprio Rogers, em seu livro Um Jeito de Ser, temos os princípios que fundamentam a sua abordagem:

“A hipótese central dessa abordagem pode ser colocada em poucas palavras. Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras”.

Essa capacidade de se autocompreender e modificar seus autoconceitos é o que ele chama de tendência atualizante. Uma tendência presente na vida de qualquer organismo, que estará sempre buscando realizar todas as possibilidades que lhe são inerentes.

A ACP é, portanto, uma abordagem baseada em uma relação de confiança entre terapeuta e cliente.

Seguindo:

“Há três condições que devem estar presentes para que se crie um clima facilitador de crescimento. Estas condições se aplicam indiferentemente à relação terapeuta-paciente, pais-filhos, líder e grupo, administrador e equipe. Estas condições se aplicam, na realidade, a qualquer situação na qual o objetivo seja o desenvolvimento da pessoa. Já descrevi essas condições em outros trabalhos. Apresento aqui um pequeno resumo do ponto de vista da psicoterapia, mas a descrição se aplica a todas as relações mencionadas”. 


1) Congruência


“O primeiro elemento poderia ser chamado de autenticidade, sinceridade ou congruência.

Quanto mais o terapeuta for ele mesmo na relação com o outro, quanto mais puder remover as barreiras profissionais ou pessoais, maior a probabilidade de que o cliente mude e cresça de um modo construtivo.

Isto significa que o terapeuta está vivendo abertamente os sentimentos e atitudes que fluem naquele momento. O termo “transparente” expressa bem a essência dessa condição: o terapeuta ou a terapeuta se faz transparente para o cliente. O cliente pode ver claramente o que o terapeuta é na relação: o cliente não se defronta com qualquer resistência por parte do terapeuta.

Do mesmo modo que para o terapeuta, o que o cliente ou a cliente vive pode se tornar consciente, pode ser vivido na relação e pode ser comunicado se for conveniente.  Portanto, dá-se uma grande correspondência, ou congruência, entre o que está sendo vivido em nível profundo, o que está presente na consciência e o que está sendo expresso pelo cliente”. 


2) Consideração positiva incondicional


“A segunda atitude importante na criação de um clima que facilite a mudança é a aceitação, o interesse ou a consideração — aquilo que chamo de “aceitação incondicional”. Quando o terapeuta está tendo uma atitude positiva, aceitadora, em relação ao que quer que o cliente seja naquele momento, a probabilidade de ocorrer um movimento terapêutico ou uma mudança aumenta. 

O terapeuta deseja que o cliente expresse o sentimento que está ocorrendo no momento, qualquer que ele seja — confusão, ressentimento, medo, raiva, coragem, amor ou orgulho. Este interesse por parte do terapeuta não é possessivo. O terapeuta tem uma consideração integral e não condicional pelo cliente”. 


3) Compreensão empática


“O terceiro aspecto facilitador da relação é a compreensão empática. Com isso quero dizer que o terapeuta capta com precisão os sentimentos e significados pessoais que o cliente está vivendo e comunica essa compreensão ao cliente.

Quando está em sua melhor forma, o terapeuta pode entrar tão profundamente no mundo interno do paciente que se torna capaz de esclarecer não só o significado daquilo que o cliente está consciente como também do que se encontra abaixo do nível de consciência. Este tipo de escuta ativa e sensível é extremamente raro em nossas vidas. Pensamos estar ouvindo, mas muito raramente ouvimos e compreendemos verdadeiramente, com real empatia. E, no entanto, esse modo tão especial de ouvir é uma das forças motrizes mais poderosas que conheço.

De que modo este clima que acabo de descrever leva à mudança?

Resumidamente, eu diria que se as pessoas são aceitas e consideradas, elas tendem a desenvolver uma atitude de maior consideração em relação a si mesmas. Quando as pessoas são ouvidas de modo empático, isto lhes possibilita ouvir mais cuidadosamente o fluxo de suas experiências
internas. Mas à medida que uma pessoa compreende e considera o seu eu, este se torna mais congruente com suas próprias experiências.

A pessoa torna-se então mais verdadeira, mais genuína. Essas tendências, que são a recíproca das atitudes do terapeuta, permitem que
a pessoa seja uma propiciadora mais eficiente de seu próprio crescimento. Sente-se mais livre para ser uma pessoa verdadeira e integra”.

Faz sentido pra você? Comenta aí embaixo o que achou!

Nos próximos posts, falarei um pouco sobre as implicações do trabalho de Rogers nas mais diversas áreas humanas.

Grande abraço!

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Três práticas que podem auxiliar seu processo de CNV

2018/12/16 | Nenhum comentário | |





Hoje vamos estrear a série #PergunteAGirafa respondendo dúvidas sobre Comunicação não-violenta. A Débora Pregana pediu, pelo Instagram, práticas que nos auxiliam no processo de CNV.

qual sua maior dúvida de comunicação não violenta


Eu amei esse pedido, tendo em vista os inúmeros desafios que a gente se esbarra quando decide trazer essa prática pra nossa vida.

Então vamos lá, separei três dicas (e mais uma bônus), que fizeram e fazem muito sentido dentro da minha caminhada pessoal. E é importante reforçar isso, não escrevo para entregar uma fórmula, mas para compartilhar uma experiência, que pode te ser útil ou não.

Fique à vontade pra usar como quiser e se quiser.

Vamos lá!


1) Fazer terapia


Certa vez, eu ouvi a Carol Nalon dizendo, num evento aqui em Belo Horizonte, que na CNV tem coisas que você percebe que te poupam 10 anos de terapia, mas tem outras que te acrescentam 10 anos de terapia.

O que eu percebi, na minha experiência, é que estar em contato com a Comunicação não-violenta me ajuda a ter uma ligação muito mais profunda comigo mesmo. Consigo, muitas vezes, ter mais consciência dos meus sentimentos, minhas necessidades e valores, posso escolher me expressar de maneira mais autêntica. E receber com compaixão o que chega a mim. O que me apoia na construção de relações mais sólidas, saudáveis e verdadeiras.

No entanto, todas essas coisas são bastante desafiadoras pra maioria de nós. O abandono de velhos hábitos, as oscilações, as recaídas, o confronto com áreas de nós mesmos que passamos a vida tentando esconder, a vulnerabilidade, a sensação de exposição, que vem quando a gente escolhe se expressar a nível de sentimentos. O cansaço que vem, às vezes, da escuta, o desgaste. A angústia que vem com a nossa maior autonomia em fazer escolhas. Etc..

Eu poderia escrever um texto somente sobre os desafios que se tem quando você opta pelo caminho da compaixão proposto pela CNV. No entanto, acredito que aqui tem uma componente muito pessoal e que, se você embarcou nessa, com certeza sabe muito bem onde estão os seus pontos mais quentes.

O que eu quero pontuar aqui é: o acompanhamento terapêutico é um apoio maravilhoso pra isso tudo. Pras nossas descobertas, pra nossa organização, pra prática como um todo.

Comigo foi assim: a CNV foi e é um belo suporte pro no meu processo terapêutico, pra me expressar e pra estabelecer conexão. E o processo terapêutico foi e é um belo protetor e guia da minha jornada na não-violência.


2) Trabalhar a espiritualidade


Quando a gente começa a olhar o mundo com olhos mais generosos e empáticos, a gente passa a se dar conta de muita coisa. Muitas angústias, vivências, injustiças.... E aí corre o risco de a gente se esgotar mesmo. Eu tenho muitas amigas e amigos que já possuem um senso de justiça forte, independente da CNV, e às vezes, por isso, os vejo exaustos em alguns momentos. Você provavelmente deve conhecer alguém assim também.

Ao buscarmos essa prática deliberadamente, é interessante estarmos cientes que o esgotamento pode vir de maneira bastante intensa. Nesse sentido, a terapia é também um cuidado importante.

Minha amiga Diana Bonar, do canal Peaceflow, gravou um vídeo em que ela conta sobre os sintomas que podem aparecer com o esgotamento. De pesadelos a crises de choro.

Nele, ela conta de uma experiência que teve no Camboja, onde houve uma guerra civil que dizimou metade da população. Ela estava lá para ajudar a construir a paz depois do conflito e se viu diante de uma realidade muito impactante. Nesse momento ela nos conta da importância da espiritualidade como apoio.

Espiritualidade aqui não quer dizer necessariamente algo como fé religiosa ou coisas do tipo. Mas sim daquilo que te conecta com algo maior, que transcende a existência, sabe? Tem gente que encontra essa conexão com a natureza, com o universo. Tem gente que encontra isso quando se enxerga um pedacinho de um grande organismo que é a humanidade, aqui entra a prática da compaixão pela pessoa humana, que ajuda a nos resguardar.

Há aqueles que encontram o seu caminho na religião. Tenho um amigo que encontra essa sensação através de música. Outro, quando estuda física quântica. E há aqueles que não encontram em lugar nenhum. Que realmente não têm afinidade para esse tipo de coisa.

Se for o seu caso, tudo bem. Existem outras estratégias que nos ajudam a evitar e cuidar do esgotamento.

3) O Par empático


Essa é uma dica muito prática. A gente estuda CNV, lê os livros, as discussões, participa. Segue os perfis e tudo mais. Porém, a gente tá falando de um processo orgânico, né? Vivencial mesmo. CNV é a linguagem da vida, acontece na prática, quando as pessoas se conectam, enfim. Se não a gente fica preso nas ideias, vivendo o robozinho e não se desenvolve mesmo.

Pensando nisso, quais são as duas bases do processo de comunicação não-violenta? O expressar com autenticidade e o receber com empatia.

É importante se fazer essa pergunta de vez em quando: quanto de escuta tenho recebido ultimamente? E o quanto de escuta tenho oferecido ultimamente?

A ideia do par empático é você ter alguém, que também está nessa trajetória, pra se encontrar semanalmente e trocar escuta. É válido pelo whatsapp e você pode encontrar alguém nos grupos de CNV do Facebook.

No começo, pode ser algo combinado, por exemplo, eu falo por 10 minutos, você me dá um retorno de até 5 e depois a gente troca. Com o passar do tempo, isso pode ir ficando mais solto, mais natural.

4) BÔNUS: um caderninho


Essa dica bônus também é bem prática e eu gosto bastante. Ter um caderninho CNV que seja fácil de carregar. Que nos permita anotar nossos pensamentos e estados emocionais ao longo do dia. Anotar as dificuldades. Pra nos ajudar com o vocabulário de sentimentos e necessidades. Pra servir como um pequeno diário.

Também pra servir de lembrete nos momentos mais difíceis, enfim.. Eu acredito que pode ser uma ótima ferramenta pra aumentar a nossa conexão com nós mesmos.


E aí, o que você achou? Tem mais alguma dica que é útil pra você e gostaria de compartilhar? Comenta aí com a gente!

Espero que tenha sido útil,
Grande abraço!

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