O Espaço - Comunicação Não-violenta O Espaço - Comunicação Não-violenta - O Espaço
Destaques pra você/span>

Carl Rogers e a Abordagem Centrada na Pessoa

2018/12/24 | Nenhum comentário | |





Você já ouviu falar da Abordagem Centrada na Pessoa, do psicólogo humanista Carl RogersEla nasceu através de anos de investigação de Rogers, foi um tanto revolucionária para o seu tempo e inspirou Marshall Rosenberg no desenvolvimento da Comunicação não-violenta.





Um breve contexto:


Rogers foi um psicólogo americano que, em 1940, desenvolveu uma forma de terapia não-diretiva a partir de seus estudos e experiências.

Atendendo pessoas com os artifícios da psicanalise e do behaviorismo, ideias em voga na época, ele percebeu que alguns casos não apresentavam nenhum tipo de melhora. Alguns a ponto de esgotar todos os recursos e técnicas que tinha em mãos.

Pra esses casos, não havendo mais nada a fazer, ele decidiu que o mínimo que poderia oferecer, diante dessas pessoas em sofrimento, era uma escuta atenciosa e respeitosa. E foi o que fez.

Dessa escuta, ele começou a notar profundas transformações nesses casos que antes pareciam não ter nenhuma solução. As pessoas começavam a caminhar e encontrar respostas satisfatórias para as suas questões de vida. Respostas que vinham delas mesmas. Respostas que nenhum tipo de aconselhamento foi capaz de sequer se aproximar.

Percebendo que o que estava acontecendo ali era realmente significativo, Rogers começou a investigar, pesquisando profundamente o que viria a se tornar a abordagem centrada na pessoa.

As atitudes facilitadoras de crescimento


Nas palavras do próprio Rogers, em seu livro Um Jeito de Ser, temos os princípios que fundamentam a sua abordagem:

“A hipótese central dessa abordagem pode ser colocada em poucas palavras. Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras”.

Essa capacidade de se autocompreender e modificar seus autoconceitos é o que ele chama de tendência atualizante. Uma tendência presente na vida de qualquer organismo, que estará sempre buscando realizar todas as possibilidades que lhe são inerentes.

A ACP é, portanto, uma abordagem baseada em uma relação de confiança entre terapeuta e cliente.

Seguindo:

“Há três condições que devem estar presentes para que se crie um clima facilitador de crescimento. Estas condições se aplicam indiferentemente à relação terapeuta-paciente, pais-filhos, líder e grupo, administrador e equipe. Estas condições se aplicam, na realidade, a qualquer situação na qual o objetivo seja o desenvolvimento da pessoa. Já descrevi essas condições em outros trabalhos. Apresento aqui um pequeno resumo do ponto de vista da psicoterapia, mas a descrição se aplica a todas as relações mencionadas”. 


1) Congruência


“O primeiro elemento poderia ser chamado de autenticidade, sinceridade ou congruência.

Quanto mais o terapeuta for ele mesmo na relação com o outro, quanto mais puder remover as barreiras profissionais ou pessoais, maior a probabilidade de que o cliente mude e cresça de um modo construtivo.

Isto significa que o terapeuta está vivendo abertamente os sentimentos e atitudes que fluem naquele momento. O termo “transparente” expressa bem a essência dessa condição: o terapeuta ou a terapeuta se faz transparente para o cliente. O cliente pode ver claramente o que o terapeuta é na relação: o cliente não se defronta com qualquer resistência por parte do terapeuta.

Do mesmo modo que para o terapeuta, o que o cliente ou a cliente vive pode se tornar consciente, pode ser vivido na relação e pode ser comunicado se for conveniente.  Portanto, dá-se uma grande correspondência, ou congruência, entre o que está sendo vivido em nível profundo, o que está presente na consciência e o que está sendo expresso pelo cliente”. 


2) Consideração positiva incondicional


“A segunda atitude importante na criação de um clima que facilite a mudança é a aceitação, o interesse ou a consideração — aquilo que chamo de “aceitação incondicional”. Quando o terapeuta está tendo uma atitude positiva, aceitadora, em relação ao que quer que o cliente seja naquele momento, a probabilidade de ocorrer um movimento terapêutico ou uma mudança aumenta. 

O terapeuta deseja que o cliente expresse o sentimento que está ocorrendo no momento, qualquer que ele seja — confusão, ressentimento, medo, raiva, coragem, amor ou orgulho. Este interesse por parte do terapeuta não é possessivo. O terapeuta tem uma consideração integral e não condicional pelo cliente”. 


3) Compreensão empática


“O terceiro aspecto facilitador da relação é a compreensão empática. Com isso quero dizer que o terapeuta capta com precisão os sentimentos e significados pessoais que o cliente está vivendo e comunica essa compreensão ao cliente.

Quando está em sua melhor forma, o terapeuta pode entrar tão profundamente no mundo interno do paciente que se torna capaz de esclarecer não só o significado daquilo que o cliente está consciente como também do que se encontra abaixo do nível de consciência. Este tipo de escuta ativa e sensível é extremamente raro em nossas vidas. Pensamos estar ouvindo, mas muito raramente ouvimos e compreendemos verdadeiramente, com real empatia. E, no entanto, esse modo tão especial de ouvir é uma das forças motrizes mais poderosas que conheço.

De que modo este clima que acabo de descrever leva à mudança?

Resumidamente, eu diria que se as pessoas são aceitas e consideradas, elas tendem a desenvolver uma atitude de maior consideração em relação a si mesmas. Quando as pessoas são ouvidas de modo empático, isto lhes possibilita ouvir mais cuidadosamente o fluxo de suas experiências
internas. Mas à medida que uma pessoa compreende e considera o seu eu, este se torna mais congruente com suas próprias experiências.

A pessoa torna-se então mais verdadeira, mais genuína. Essas tendências, que são a recíproca das atitudes do terapeuta, permitem que
a pessoa seja uma propiciadora mais eficiente de seu próprio crescimento. Sente-se mais livre para ser uma pessoa verdadeira e integra”.

Faz sentido pra você? Comenta aí embaixo o que achou!

Nos próximos posts, falarei um pouco sobre as implicações do trabalho de Rogers nas mais diversas áreas humanas.

Grande abraço!

Mais ››

Três práticas que podem auxiliar seu processo de CNV

2018/12/16 | Nenhum comentário | |





Hoje vamos estrear a série #PergunteAGirafa respondendo dúvidas sobre Comunicação não-violenta. A Débora Pregana pediu, pelo Instagram, práticas que nos auxiliam no processo de CNV.

qual sua maior dúvida de comunicação não violenta


Eu amei esse pedido, tendo em vista os inúmeros desafios que a gente se esbarra quando decide trazer essa prática pra nossa vida.

Então vamos lá, separei três dicas (e mais uma bônus), que fizeram e fazem muito sentido dentro da minha caminhada pessoal. E é importante reforçar isso, não escrevo para entregar uma fórmula, mas para compartilhar uma experiência, que pode te ser útil ou não.

Fique à vontade pra usar como quiser e se quiser.

Vamos lá!


1) Fazer terapia


Certa vez, eu ouvi a Carol Nalon dizendo, num evento aqui em Belo Horizonte, que na CNV tem coisas que você percebe que te poupam 10 anos de terapia, mas tem outras que te acrescentam 10 anos de terapia.

O que eu percebi, na minha experiência, é que estar em contato com a Comunicação não-violenta me ajuda a ter uma ligação muito mais profunda comigo mesmo. Consigo, muitas vezes, ter mais consciência dos meus sentimentos, minhas necessidades e valores, posso escolher me expressar de maneira mais autêntica. E receber com compaixão o que chega a mim. O que me apoia na construção de relações mais sólidas, saudáveis e verdadeiras.

No entanto, todas essas coisas são bastante desafiadoras pra maioria de nós. O abandono de velhos hábitos, as oscilações, as recaídas, o confronto com áreas de nós mesmos que passamos a vida tentando esconder, a vulnerabilidade, a sensação de exposição, que vem quando a gente escolhe se expressar a nível de sentimentos. O cansaço que vem, às vezes, da escuta, o desgaste. A angústia que vem com a nossa maior autonomia em fazer escolhas. Etc..

Eu poderia escrever um texto somente sobre os desafios que se tem quando você opta pelo caminho da compaixão proposto pela CNV. No entanto, acredito que aqui tem uma componente muito pessoal e que, se você embarcou nessa, com certeza sabe muito bem onde estão os seus pontos mais quentes.

O que eu quero pontuar aqui é: o acompanhamento terapêutico é um apoio maravilhoso pra isso tudo. Pras nossas descobertas, pra nossa organização, pra prática como um todo.

Comigo foi assim: a CNV foi e é um belo suporte pro no meu processo terapêutico, pra me expressar e pra estabelecer conexão. E o processo terapêutico foi e é um belo protetor e guia da minha jornada na não-violência.


2) Trabalhar a espiritualidade


Quando a gente começa a olhar o mundo com olhos mais generosos e empáticos, a gente passa a se dar conta de muita coisa. Muitas angústias, vivências, injustiças.... E aí corre o risco de a gente se esgotar mesmo. Eu tenho muitas amigas e amigos que já possuem um senso de justiça forte, independente da CNV, e às vezes, por isso, os vejo exaustos em alguns momentos. Você provavelmente deve conhecer alguém assim também.

Ao buscarmos essa prática deliberadamente, é interessante estarmos cientes que o esgotamento pode vir de maneira bastante intensa. Nesse sentido, a terapia é também um cuidado importante.

Minha amiga Diana Bonar, do canal Peaceflow, gravou um vídeo em que ela conta sobre os sintomas que podem aparecer com o esgotamento. De pesadelos a crises de choro.

Nele, ela conta de uma experiência que teve no Camboja, onde houve uma guerra civil que dizimou metade da população. Ela estava lá para ajudar a construir a paz depois do conflito e se viu diante de uma realidade muito impactante. Nesse momento ela nos conta da importância da espiritualidade como apoio.

Espiritualidade aqui não quer dizer necessariamente algo como fé religiosa ou coisas do tipo. Mas sim daquilo que te conecta com algo maior, que transcende a existência, sabe? Tem gente que encontra essa conexão com a natureza, com o universo. Tem gente que encontra isso quando se enxerga um pedacinho de um grande organismo que é a humanidade, aqui entra a prática da compaixão pela pessoa humana, que ajuda a nos resguardar.

Há aqueles que encontram o seu caminho na religião. Tenho um amigo que encontra essa sensação através de música. Outro, quando estuda física quântica. E há aqueles que não encontram em lugar nenhum. Que realmente não têm afinidade para esse tipo de coisa.

Se for o seu caso, tudo bem. Existem outras estratégias que nos ajudam a evitar e cuidar do esgotamento.

3) O Par empático


Essa é uma dica muito prática. A gente estuda CNV, lê os livros, as discussões, participa. Segue os perfis e tudo mais. Porém, a gente tá falando de um processo orgânico, né? Vivencial mesmo. CNV é a linguagem da vida, acontece na prática, quando as pessoas se conectam, enfim. Se não a gente fica preso nas ideias, vivendo o robozinho e não se desenvolve mesmo.

Pensando nisso, quais são as duas bases do processo de comunicação não-violenta? O expressar com autenticidade e o receber com empatia.

É importante se fazer essa pergunta de vez em quando: quanto de escuta tenho recebido ultimamente? E o quanto de escuta tenho oferecido ultimamente?

A ideia do par empático é você ter alguém, que também está nessa trajetória, pra se encontrar semanalmente e trocar escuta. É válido pelo whatsapp e você pode encontrar alguém nos grupos de CNV do Facebook.

No começo, pode ser algo combinado, por exemplo, eu falo por 10 minutos, você me dá um retorno de até 5 e depois a gente troca. Com o passar do tempo, isso pode ir ficando mais solto, mais natural.

4) BÔNUS: um caderninho


Essa dica bônus também é bem prática e eu gosto bastante. Ter um caderninho CNV que seja fácil de carregar. Que nos permita anotar nossos pensamentos e estados emocionais ao longo do dia. Anotar as dificuldades. Pra nos ajudar com o vocabulário de sentimentos e necessidades. Pra servir como um pequeno diário.

Também pra servir de lembrete nos momentos mais difíceis, enfim.. Eu acredito que pode ser uma ótima ferramenta pra aumentar a nossa conexão com nós mesmos.


E aí, o que você achou? Tem mais alguma dica que é útil pra você e gostaria de compartilhar? Comenta aí com a gente!

Espero que tenha sido útil,
Grande abraço!

Mais ››

Comunicação não-violenta, capíutlo 10: expressando a raiva plenamente

2018/11/10 | Nenhum comentário | |



<<Capítulo Anterior | Índce Resenha CNV | Próximo Capítulo>>


expressando a raiva livremente cap 10 comunicacao nao violenta


A raiva oferece uma oportunidade única de destrincharmos e mergulharmos mais profundamente na CNV, pois expõe muito aspectos do processo a um exame minucioso.


“A expressão da raiva claramente demonstra a diferença entre a CNV e outras formas de comunicação”.

Antes de tudo, Marshall nos sugere que matar pessoas é uma expressão superficial demais do que se passa dentro de nós quando sentimos raiva. Espancar, culpar, ferir os outros, fisicamente ou não, são todas expressões superficiais.

Quando estamos verdadeiramente com raiva, precisamos de uma maneira mais poderosa e profunda de se expressar. Nesse sentido, a CNV tem grande potencial de auxílio.

Compreender isso pode ser um alívio para muitos grupos que sofrem discriminação e opressão. Esses grupos ficam inquietos com o termo “comunicação não-violenta” ou quando falamos de empatia e compaixão, uma vez que eles são muitas vezes forçados a sufocar sua raiva, acalmar-se e, à margem, aceitar o status quo imposto.

CNV Grupo de estudos do O Espaço

Eles desconfiam de qualquer abordagem que vêem sua raiva como qualidade negativa e que precisa ser eliminada. O que faz muito sentido. Afinal, depois de tanto sofrer, ainda ter de receber mais um ataque de opressão velada de pacifismo não parece boa ideia.

Contudo, o processo que estudamos não nos encorajar a ignorar, sufocar ou engolir a raiva, mas sim a expressar a essência de nossa raiva completamente e de todo o coração.




Distinguindo estímulo de causa


Nunca ficamos com raiva por causa do que os outros dizem ou fazem.

O primeiro passo para expressarmos completamente a raiva na CNV é dissociar a outra pessoa de qualquer responsabilidade por nossa raiva. Pensamentos do tipo:

·         "Jorginho me deixou furioso quando fez isso”!

São pensamento nos leva a expressar nossa raiva superficialmente, culpando ou punindo a outra pessoa.

Vimos como o comportamento do outro pode ser um estímulo para o nosso sentimento, mas nunca a causa. É preciso que se estabeleça a clara diferenciação entre estímulo e causa.

Estimulo e causa, onde está a raiz dos sentimentos
O sentimento está ligado a necessidade.

Se a outra pessoa se atrasa para o nosso encontro e eu não quero ficar esperando, então eu fico furioso. Porém se ela atrasa e eu estou ocupado com vários outros afazeres, posso me sentir aliviado e produtivo.

O atraso em si nunca é a causa. Mas pode ser o estímulo tanto para raiva, quanto para alívio, chateação... Sentimentos que vão de acordo com a nossa necessidade naquele momento.

Ao igualar estimulo e causa, nos convencemos a pensar que o comportamento do outro é que nos faz sentir raiva e a partir disso utilizamos a culpa para fazer com que ele seja controlado por nós.

Nossa cultura faz ser importante enganar as pessoas para que pensem que elas podem realmente fazer com o que os outros sintam de determinada maneira. E a nossa linguagem facilita enormemente o processo.

“Quando a culpa é uma tática de manipulação e coerção, é útil confundir estímulo e causa”.

O primeiro passo para expressar a raiva plenamente, então, é reconhecer a nossa responsabilidade pelo que sentimentos. O que as pessoas fazem nunca é a causa.

Assim sendo, como a raiva é gerada?

No capítulo 5, discutimos as quatro opções que temos quando estamos diante de uma mensagem ou comportamento de que não gostamos:

Quatro maneiras de responder uma mensagem difícil

“A raiva é gerada quando escolhemos a segunda opção: sempre que estamos com raiva, estamos julgando alguém culpado – escolhemos brincar de Deus julgando ou culpando a outra pessoa por estar errada ou merecer uma punição. Eu gostaria de sugerir que essa é a causa da raiva. Mesmo que de início não tenhamos consciência disso, a causa da raiva está localizada em nosso próprio pensamento”.

Se alguém me ignora e eu preciso de silêncio, então me sentirei tranquilo e em paz. Porém, se alguém me ignora e preciso de carinho e consideração, posso ficar com raiva e julgá-la como uma pessoa mal-educada.

“São as nossas próprias necessidades que causam nossos sentimentos”.

Quando estamos conectados a nossas necessidades, sejam elas de encorajamento, de ter um propósito útil ou de solidão, estamos em contato com nossa energia vital. Podemos ter sentimentos fortes, mas nunca ficamos com raiva. A raiva é o resultado de pensamentos alienantes da vida que estão dissociados de nossas necessidades

Uma alternativa é concentrar em nossas necessidades e sentimentos e assim ganhar consciência da necessidade e do sentimento por detrás do comportamento da outra pessoa. Quando isso acontece, não sentimos raiva. Não estamos a reprimindo ou sufocando, ela simplesmente não acontece.

Toda raiva tem um âmago que serve a vida


“Quando julgamos os outros, contribuímos para a violência”.

·         Não há circunstâncias em que a raiva é justificável?
·         Não é necessário ter “justa indignação” ante a população descuidada e irrefletida no ambiente, por exemplo?

“Minha resposta é que acredito firmemente que sempre que apóio em qualquer grau a consciência de que há coisas tais como "ações descuidadas", "ações conscienciosas", "pessoas gananciosas" ou "pessoas éticas", estou contribuindo para com a violência neste planeta.

Em vez de concordamos ou discordarmos a respeito do que são as pessoas que matam, estupram ou poluem o ambiente, acredito que serviremos melhor à vida se concentrarmos nossa atenção nas nossas necessidades”.

A resposta que o livro apresenta é a resposta que me faz mais sentido também, ao pensar em caminhos e alternativas para um mundo cada vez menos violento.

Toda raiva é resultado de pensamentos alienantes da vida e causadores de violência. No âmago de toda raiva existe uma necessidade não atendida. Por isso, a raiva pode ser valiosa se utilizada como um despertar para aquela necessidade.

Para se expressar plenamente a raiva, é preciso se ter plena consciência de nossa necessidade.

Além disso, precisamos de energia para atender a necessidades. Quando nos deixamos levar pela raiva, ela rouba toda nessa energia para punir as pessoas, ao invés de trabalhar no que estamos precisando.

Estímulo versus causa: implicações práticas.


Toda violência resulta de as pessoas se iludirem, como aquele jovem prisioneiro, e acreditarem que sua dor se origina dos outros e que, portanto, eles merecem ser punidos.

Gostaria de sugerir que, quando nossa cabeça está cheia de julgamentos e análises de que os outros são maus, gananciosos, irresponsáveis, mentirosos, corruptos, poluidores, que valorizam os lucros mais do que a vida ou se comportam de maneira que não deveriam, poucos deles estarão interessados em nossas necessidades.

Imagine proteger o meio ambiente e procurarmos um executivo de grande empresa com uma atitude do tipo:

·         "Sabe, você é um verdadeiro assassino do planeta e não tem o direito de abusar da Terra dessa maneira".

Qual a chance de termos nossas necessidades atendidas? É raro o ser humano que consegue se concentrar em nossas necessidades quando as expressamos por meio rótulos que pintam o outro como errado.

Se elas se sentirem amedrontadas, culpadas ou envergonhadas a ponto de mudar suas atitudes, podemos vir a acreditar que é possível "ganhar" dizendo às pessoas o que há de errado com elas.

Numa perspectiva mais ampla, porém, percebemos que, cada vez que nossas necessidades são atendidas dessa maneira, não apenas perdemos, mas contribuímos de forma muito tangível para a violência no planeta

“Quanto mais as pessoas ouvirem culpa e julgamentos, mais defensivas e agressivas elas se tornarão e menos se importarão com nossas necessidades no futuro”.

Quatro passos para expressar a raiva


Passos para expressar a raiva:

  1. Parar. Respirar: Abster de qualquer movimento em direção a agressão e a punição. Não fazer nada.
  2. Identificar nossos pensamentos que estão julgando as pessoas: identificamos os pensamentos que estão gerando nossa raiva.
  3. Conectar-nos as nossas necessidades: nos conectamos com as necessidades por trás desses pensamentos. Se eu julgar que alguém é racista, a necessidade pode ser de inclusão, igualdade, respeito ou conexão.
  4. Expressar nossos sentimentos e necessidades não-atendidas: Para nos expressarmos plenamente, nós agora abrimos a boca e expressamos a raiva - mas esta já se transformou em necessidades e em sentimentos relacionados a elas. Articular esses sentimentos pode exigir um bocado de coragem. É fácil me irritar e dizer às pessoas: "Isso é coisa de racista!". Na verdade, posso até gostar de dizer algo assim, mas descer até o nível dos sentimentos e necessidades mais profundos por trás de uma frase como essa pode ser muito assustador. Para expressar plenamente nossa raiva, podemos dizer à pessoa:



"Quando você entrou nessa sala, começou a conversar com os outros, não falou nada comigo e então fez um comentário sobre brancos, fiquei realmente enojado e muito assustado. Isso despertou em mim todo tipo de necessidade de ser tratado com igualdade. Eu gostaria que você me dissesse como se sente quando digo isso".


Oferecendo empatia primeiro

“Quanto mais escutarmos os outros, mais eles nos escutarão”.

Na maioria dos casos, é preciso que haja mais uma etapa antes que possamos esperar que a outra parte entre em conexão com o que está acontecendo dentro de nós. Uma vez que é comum que os outros tenham dificuldades para receber nossos sentimentos e necessidades em tais situações, precisaremos primeiro oferecer nossa empatia a eles, se quisermos que nos escutem. Quanto mais empatia tivermos com relação ao que os leva a se comportarem de maneira que não atenda a nossas necessidades, mais provável será que eles consigam dar reciprocidade mais tarde.

E este, mais uma vez, não é o caminho mais fácil. A CNV é realmente para quem está disposto a realmente solucionar conflitos sem contribuir para a sistematização da violência no mundo.

Avançando em nosso próprio ritmo


Essa é provavelmente uma das partes mais importantes do livro. Internalizar uma nova forma de comunicação não é algo que se faça da noite para o dia. É precisamos esforço, estudo e prática. Um processo com dificuldades, desafios e oscilações.

Nesse sentido, precisamos respeitar o nosso processo que é único e particular e avançar em nosso próprio ritmo.

Conta Marshall que um amigo escreveu em um cartão com uma pequena cola para consultar sempre que precisava recorrer a CNV. Como um lembrete. Utilizava no trabalho e em casa, pois sua necessidade de se relacionar melhor era maior do que o embaraço ou o trabalho de consultar o cartão quando precisasse.

Passados um mês ele se sentiu confiante em abandonar o cartão e caminhar sozinho. Então, uma noite, ele e seu filho, de 4 anos, estavam tendo um conflito a respeito da televisão e as coisas não estavam indo bem. "Papai", disse Scottie com urgência, "pegue o cartão!"

Para aqueles de nós que desejemos aplicar CNV, principalmente em situações de raiva, o livro nos sugere o seguinte exercício:

Liste os julgamentos que flutuam com mais freqüência em sua cabeça, usando como ponto de partida a frase: ‘Não gosto de pessoas que são ___’. Reúna todos esses julgamentos negativos de sua cabeça e então pergunte a si mesmo:

‘Quando faço essa ideia a respeito de alguém, do que estou precisando e não estou obtendo?’ Dessa maneira, você estará treinando estruturar o pensamento em termos de necessidades não-atendidas, e não de julgamentos de outras pessoas.

Interessante, não é? Mantenha-se em frente sempre ao seu próprio ritmo! =)




Até o próximo capítulo!



<<Capítulo Anterior | Índce Resenha CNV | Próximo Capítulo>>



Mais ››

Pós-verdade: quando o fato já não importa mais...

2018/10/15 | Nenhum comentário | |








Você provavelmente já ouviu falar do termo pós-verdade. Foi eleita a palavra do ano de 2016 pela universidade de Oxford.

 É um termo que aparece com muita frequência na hora de definir nosso atual momento político-histórico. Pós-verdade quer dizer que os fatos objetivos, ou seja, a verdade, tem uma importância secundária na hora de moldar a opinião pública, diante das crenças e das emoções das pessoas.

Em outras palavras, diante de uma informação, seja uma notícia, um vídeo, uma entrevista, enfim.. O mais importante é se aquilo vai de encontro às minhas crenças ou não. A minha opinião é aquela e é imutável, não importando se há um fato que a descontrói.

1) Se vem pra corroborar o que sinto e acredito, então pra mim aquilo é verdade. As fontes são confiáveis e quem fala tem credibilidade. 

2) No entanto, se é contrário à minha visão, então não há o menor problema pra mim descartar aquilo, a fonte não presta e quem fala é mentiroso e mal caráter.

E como é fácil ver que assim que as coisas estão funcionando, não é?

Pós-verdade e viés de confirmação


Junta-se a isso:

> a velocidade e o volume da informação que nos esmaga, não nos dando tempo de processar, de racionalizar, de questionar, verificar... De talvez aproveitar parte, descartar parte; 

> as bolhas sociais cada vez mais intensificada pelas redes; 

> as próprias redes que são desenvolvidas para o entretenimento e não exatamente para a fertilização de ideias; 

> o paradoxo da proteção física que a internet nos oferece ao mesmo tempo que nos coloca em posição de extrema vulnerabilidade e exposição social diante de nossa família, amigos e contatos fundamentais a nós. E por aí vai...

Todas essas coisas se retroalimentam e acho que explicam parte do caos que estamos vivendo atualmente.

A internet como um marco histórico da humanidade


Eu sempre fui muito idealista com relação a internet. Acredito, de verdade, que não há progresso sem acesso. E que a revolução do universo online poderia, pela primeira vez, permitir o acesso universal às informações de maneira aberta e democrática.

Sempre acreditei nisso como um marco na trajetória da humanidade. Como a descoberta do fogo ou a revolução industrial.

No entanto, parece que estamos vivendo alguns efeitos colaterais fortíssimos e talvez até irreversíveis, não é? Vejo que estamos aprendendo ainda a se relacionar com tudo isso e que um novo campo de conhecimento vem surgindo ao mesmo tempo que às coisas continuam mudando de forma assustadoramente rápida.

Termos como pós-verdade nos ajudam a entender melhor como nós, enquanto sistema, nos comportamos e nos adaptamos ao novo mundo.

Contudo, e esse é o motivo do meu vídeo/texto, pra assimilarmos de verdade e conquistarmos mais autonomia a fim de construir uma relação saudável e fértil com a tecnologia, eu entendo que é muito necessário que a gente consiga olhar também para a dimensão do eu. Como eu, na condição de indivíduo, na minha subjetividade, interajo com todas essas possibilidades?

A minha experiência pessoal


Quero compartilhar com você uma experiência recente que me trouxe essa compreensão.

Na disputa do segundo turno do meu estado, me deparei no Twitter com o que seria o plano de governo do candidato o qual não gosto (crença: ele não vai fazer um bom trabalho, é um pilantra; sentimento: medo, repulsa, raiva).

Nesse papel, havia algumas propostas que considero absurdas e que acredito que a maioria das pessoas também achariam. Aquilo foi munição pra mim. É isso que vejo quando tento desvendar meu mundo interno naquele momento. Eu iria desmascará-lo. E tudo o que eu já intuía sobre ele finalmente seria provado verdade.

Compartilhei primeiro em um grupo de amigos e me perguntaram como poderíamos me confirmar que aquele era realmente o plano de governo dele e não algo forjado.

Instantaneamente eu argumentei: “não é possível que alguém formataria todo um plano de governo, do início ao fim, mais de 30 páginas subdivididas, com índice, rodapés, nº de CNPJ e usando toda a identidade visual do candidato pra poder incriminá-lo”.

Mas convenhamos, tudo tem sido possível ultimamente. Acontece que na hora, e eu consegui ter a clareza de perceber, eu estava incrivelmente resistente de procurar a veracidade daquilo. Era a pós-verdade agindo em mim. Mesmo que já soubesse do conceito, mesmo que já tendo o estudado, mesmo conseguindo identifica-lo todos os dias nas outras pessoas... Naquele momento, fortalecer e impor a minha crença era o mais importante. Eu não queria descobrir se tal era fake ou não.

Com isso percebido, fiz algo inusitado pra mim, pesquisar de onde vinha aquele material. No site do TSE, o plano era outro. No site do candidato aquele material não existia. Até que, uma hora de procura depois, descobri que aquele realmente foi um material lançado pelo candidato que o retirou de seu site por propor várias coisas impopulares. Descobri que apesar de retirar o link, o PDF ainda estava hospedado lá, e essa era a prova de que eu precisava.

Hoje, esse mesmo candidato, fala que atribuíram essas propostas a ele com a intenção de ataca-lo. Enquanto outros continuam a acusa-lo. E o que fica? A pós-verdade de cada um.

Um convite a você:


Viver isso foi um divisor de águas na minha relação com os debates online. Me sinto mais seguro, autônomo e confiante pra me informar, construir e aprender. Sei que muitos insights desse tipo virão e acho importante que a gente se mantenha falando sobre isso.

Por isso estou aqui, gostaria de te perguntar: como você se relaciona com a pós-verdade? Como você confronta os seus vieses? É assertivo, proativo? Tem se deixado levar pela avalanche de dados?

Você tem construído, provocado o seu intelecto? Ou se encontra perdido no mundo das crenças? Tem alguma história a respeito pra compartilhar comigo?

Perceba que, por mais grave que esteja a nossa situação atual, o que proponho aqui vai além. A gente vai precisar se refinar nisso, é uma urgência, independente dos resultados que vierem.

Ainda não existe outra maneira de se combater a indústria fake, os robôs e todos esses algoritmos se eu não for capaz de olhar pra mim mesmo e perceber como me relaciono com isso. O que são agências de checagem e outras ferramentas se projeto o meu viés de confirmação nelas também?

Não há solução que não passe por um exame profundo de nossos sentimentos e necessidades!

Essa é a ideia que queria compartilhar com você hoje, espero que tenha sido útil de alguma forma!

Grande abraço!

Mais ››